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sábado, 27 de agosto de 2016

Da atenção necessária às nossas ricas qualidades

                Iniciei, há poucos dias, a leitura do Doutor Fausto (1947) de Thomas Mann. O romance é um relato biográfico da vida de um fictício compositor de música clássica, chamado Adrian Leverkühn; feito pelo suposto amigo de infância de Adrian, Serenus Zeitblom. A estória de Mann faz uma recuperação da famosa lenda de Fausto - i.e. do pacto com o diabo - para tratar da história do talentoso músico que se envolve em um negócio faustiano para atingir o gênio criativo. 
           Entre uma série de curiosas referências iniciais, que a mim já vêm funcionando como prelúdios à história do artista que virá a travar um pacto faustiano - algumas delas: os inúmeros e curiosos diálogos entre Adrian e narrador sobre, por exemplo, a vida de compositores como Beethoven, sobre o conceito de "gênio" e sobre uma suposta natureza dupla de que a música seria dotada (caracterizada por um lado espiritual, e por um outro, demoníaco) - lê-se uma excelente admoestação que um dos professores de Adrian lhe faz no momento de sua despedida da escola para ingresso em uma faculdade. 
             O cumprimento final do professor ao aluno em despedida intenciona advertir Adrian sobre os perigos que os talentos natos podem oferecer. A elocução do dr. Stoientin, a despeito de sua evidente subserviência a uma concepção religiosa, é uma verdadeira e pertinente reflexão sobre a inclinação à soberba e à assunção de uma postura de autossuficiência, as quais todos os homens estão sujeitos a se curvarem e perderem sua humanidade, no momento em que descobrem em si alguma qualidade pessoal nata.
            Uma das qualidades do discurso do professor está em o dr. Stoientin se dirigir a Adrian tomando-o por um homem - "um homem ricamente dotado" , e, em nenhum momento, tomando-o por um "talento". O professor lembra-o de que as suas ricas qualidades, ainda que ricas, não o fazem algo além de um homem - simplesmente o fazem (novamente:) "um homem ricamente dotado". A sua intenção é principalmente advertir Adrian a não render-se à soberba e esquecer a humildade, e, assim, entregar-se às forças contrárias à humanidade do homem.
            O leitor mais detalhista, a essa altura da narrativa, no entanto, já terá percebido que Adrian, antes uma figura séria e introspectiva, ora já encontra-se bastante mudado, ri-se e debocha de muitas coisas, está com ares de grandiosidade e perdeu muito de sua humildade. O que virá a se dar com Adrian a seguir, um pouco, nós leitores já conseguimos suspeitar... 
              Ainda assim, será como é que Mann o descreverá? 
           A honesta e importante advertência do dr. Stoientin é a seguinte - acompanhada de uma (muito curiosa) reflexão sobre méritos natos, a partir da comparação das diferentes concepções sobre o assunto de Goethe e Schiller:

"[...] despedira-se de seus professores, agradecendo-lhes todo o apoio que deles recebera. É bem verdade que o respeito que tributavam à faculdade por ele escolhida reprimia neles os secretos melindres que a desdenhosa facilidade de Adrian sempre lhes causara. O digno diretor da douta Escola dos Irmãos da Vida Comum, o dr. Stoientin, um pomerano que fora seu professor de grego, médio alto-alemão e hebraico, não omitia, contudo, algumas admoestações nesse sentido, por ocasião da audiência particular que lhe concedia na hora de despedida.
                 - Vale! - disse. - Que Deus o acompanhe, Leverkühn! Essa bênção vem do fundo do meu coração, e sinto que você poderá necessitar dela, seja qual for a sua opinião sobre isso. Você é um homem ricamente dotado e o sabe muito bem. Como poderia ignorá-lo?! Sabe também que Aquele que trona lá nas alturas e do qual tudo provém lhe confiou esses dons já que você os deseja oferendar a Ele. Você tem razão: méritos naturais não são nossos próprios méritos, e sim os que Deus obteve em prol de nós. Quem tenta conseguir que nós nos esqueçamos disso é Seu adversário, ele mesmo caiu devido à sua soberba. É um hóspede maligno, um rugiente leão, que anda procurando a quem possa devorar. Você faz parte daqueles que têm muitos motivos para acautelar-se contra seus ardis. É um cumprimento que lhe faço, a saber, àquilo que você é pela graça de Deus. Seja-o com humildade, meu amigo, e não com renitência ou jactância. Lembre-se sempre de que a autossuficiência equivale à apostasia e à ingratidão para com o Doador de todos os talentos.
              Assim falou o honesto pedagogo, sob cuja égide eu mais tarde ainda exerceria o magistério no ginásio. Sorrindo, Adrian me comunicou o conteúdo da advertência, por ocasião de um dos numerosos passeios pelos campos e bosques da granja de Buchel que dávamos na época daquela Páscoa. [...] Bem me recordo dessa conversa que então travávamos a respeito das admoestações de Stoientin, e em especial sobre a locução "méritos naturais", da qual o diretor se servira no seu discurso de adeus. Adrian me demonstrou que ela fora tirada de Goethe, que gostava de usá-la e frequentemente falava também de "méritos inatos", privando, por tal associação paradoxal, o termo "méritos" de seu caráter ético, e, pelo contrário, elevando o dom natural, inato, à altura de um mérito aristocrático, desligado de qualquer moral. Por isso, Goethe se opôs ao postulado da modéstia, declarando que "somente os vagabundos são modestos". O diretor Stoientin, porém, empregara as palavras goethianas no espírito de Schiller, que se preocupava, antes de mais nada, com a liberdade, e por isso estabelecia uma diferença moral entre o talento e o mérito pessoal, distanciando mui nitidamente o mérito da boa sorte, ao passo que Goethe os considerava inseparavelmente entrelaçados. E o diretor fazia o mesmo, chamando a natureza de Deus e qualificando os talentos inatos de méritos de Deus em prol de nós, que deveríamos aceitar com humildade."

MANN, Thomas, Doutor Fausto: a vida do compositor alemão Adrian Leverkühn narrada por um amigo. Trad. Herbert Caro. São Paulo: Companhia das Letras, 2015,  pp. 100-101.   

terça-feira, 10 de julho de 2012

Alma &/X Espírito

    Especificamente no romance de José, Thomas Mann descreve o caminho de sofrimento e prazer da alma, que em tempos antigos ardia de anelo pela matéria informe, ávida por misturar-se com ela e suscitar formas a partir dela, nas quais pudesse alcançar prazer corporal. Deus, assim parece, a apoiava em sua luta de amor com a matéria, de forma que ele, por assim dizer, no pecado original - que é ao mesmo tempo uma ação altamente moral - a sustenta. Certamente, porém, obedecendo a um elevado plano, envia ao mundo o espírito, para que este desperte a alma adormecida no abrigo das pessoas e lhe mostre, por ordem de seu pai, que este mundo não foi um pecado por causa de suas cidades e de suas apaixonadas empresas sensíveis, cuja consequência deva ser considerada a criação do mundo das formas e da morte. Evidencia-se, porém, que o próprio enviado não é de todo invulnerável, pois em sua missão diplomática acontece-lhe a malheur de trair os interesses pátrios, já que, com o tempo, a dissolução do mundo da morte, que também é na verdade um mundo da vida, se lhe apresenta, de sua parte, como uma manobra mortal e ele mesmo nesta missão parece ser o princípio da morte. "Esta", diz Mann, "é de fato uma questão de ponto de vista e de interpretação; pode-se julgá-la de um modo e depois de outro".
    Assim o espírito se mostra, pois, em certa medida pervertido e fraco de caráter. Se a alma se apaixona pela matéria, ele volta a apaixonar-se, por seu turno, de uma maneira ilícita, pela alma e se torna, assim, traidor de sua missão. Não obstante, cabe esperar que ele próprio sirva a seus propósitos originais, especificamente à suspensão do mundo material através do resgate da alma, de seu poder. Todavia, mesmo isto é altamente discutível. Será desejável? Thomas Mann, o schopenhauriano, diria: Altamente desejável! Mas Thomas Mann, o nietzschiano, bradaria o contrário: Indesejável no mais alto grau! No fim, onde está a vida e onde está a morte?

...pois ambas as partes, a alma entrelaçada na natureza e o espírito extramundano, pretendem, cada um segundo seu sentido, ser a água da vida, e cada um culpa o outro de tomar o partido da morte: nenhum dos dois deixa de ter razão, pois natureza sem espírito ou espírito sem natureza dificilmente podem ser chamados de vida. O segredo e a silente esperança de Deus residem talvez na união, isto é, no autêntico ingresso do espírito no mundo da alma, na interpenetração recíproca de ambos os princípios e na santificação de um através do outro para tornar presente uma humanidade que seja abençoada com as bênçãos dos céus no alto e das profundezas embaixo.

    Vemos como Thomas Mann envolve seu humanismo de maneira irônico-pudica na roupagem da especulação gnóstica, pois ele quer simplesmente exprimir que um espírito alheado da vida nada mais é senão morte e uma vida alheada do espírito tampouco nada mais é senão morte. O lugar das pessoas, o foco moral é, por assim dizer, ali onde ambas as tendências se cruzam e se tocam em antagonismo dialético. E, sem dúvida, vivemos num tempo em que o abismo entre os dois princípios parece ser maior do que seria desejável.

ROSENFELD, Anatol. Thomas Mann. São Paulo: Perspectiva, 1994, pp.51-53 (Coleção Debates; v.259). 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Um relampejo de um mundo pós-burguês

    
    Certo é que todo o ódio que Goethe teve de carregar, todas as acusações e queixas contra o seu egoísmo, sua arrogância, sua falta de moral e sua "força imensamente impeditiva", contra essa frieza com relação ao entusiasmo ideal, político - tanto faz se é a sua nuance nacionalista-bélica ou sua nuance revolucionário-humanista-, podem ser atribuídos ao fato de ele ter vivido obstinadamente na contramão do principal rumo tomado por seu século, ou seja, da ideia democrática e nacional. Com essa irritação e queixa, esqueceu-se que a indiferença de Goethe contra a raça política não significava absolutamente falta de amor: amor às pessoas - pois ele costumava dizer que a mera visão de um rosto podia curá-lo de sua melancolia, e ele cunhou a expressão altamente humana "o verdadeiro estudo da humanidade é o homem" -, e, o que é a mesma coisa, amor ao futuro. Pois homem, amor, futuro, tudo é a mesma coisa, é o mesmo complexo de sentimentos de simpatia e gentileza de viver que, apesar de toda a falta de política, caracterizavam a natureza mais profunda de Goethe e cunharam seu conceito de "digno da vida". Lembro-me da estranha impressão de paradoxo e audácia altaneira que tive quando, jovem ainda, tendo recebido de Schopenhauer a grande permissão para o pessimismo, compreendi pela primeira vez no "Epílogo ao 'Sino'" a expressão "digno da vida" - "A morte tomará aquele que é digno da vida" -, essa associação de palavras que, até onde eu sei, inexistia até então e é uma criação pessoal de Goethe. A vida enquanto critério mais elevado, e o fato de alguém ser digno dela representar a maior nobreza, nobreza que, se tudo correr bem, protege contra a destruição - tudo isso confundiu a minha compreensão juvenil de sofisticação, que de fato levava a uma sublime inabilidade e falta de vocação para vida terrena; essa estranha associação de palavras é prenhe de uma postura de vida positiva e rebelde, de uma afirmação de vida mais do que pessimista, que a meu ver constitui uma forma mais elevada e universal da vida burguesa, da condição de burguês: uma espécie de condição burguesa vital [Lebensbürgerlichkeit], a condição de quem vive com os dois pés plantados na vida, a aristocracia vital daquele que foi abençoado e privilegiado pela natureza e que, não muito longe do brutal, olha com desprezo para os "nostálgicos famintos pelo inatingível". [...]
    A dimensão burguesa possui uma certa transcendência espiritual em que ela mesma se anula e transforma. [...] Eu perguntei e volto a perguntar: de onde vieram os grandes atos libertadores do espírito transformador, "senão do burguês"? A vontade e a vocação para o "desburguesamento" [Entbürgerlichung], para a perigosíssima aventura da ideia ousada, essa é a carta branca que o próprio intelecto deu ao homem burguês. [...] E essa superação da condição de burguês graças ao espírito é o que encontramos no romance da velhice de Goethe, Os anos de peregrinação de Wilhelm Meister. [...]
   Na obra, relampejam ideias que se distanciam bastante daquilo que se entende por humanismo burguês, do conceito clássico e burguês de cultura que o próprio Goethe ajudou a criar e cunhar. O ideal da universalidade humana e particular é deixado de lado, proclamando-se uma era da unilateralidade. Aí se lê aquela insuficiência do indivíduo que hoje em dia está em vigor: somente muitas pessoas podem perfazer o humano, o indivíduo torna-se função, o conceito de comunidade vem para primeiro plano; e o espírito jesuítico-militarista da Província Pedagógica, por mais alegre e inspirado pelas musas que seja, praticamente não deixa sobrar nada do ideal individualista e "liberal", do ideal burguês.
    Esse olhar sonhador e ousado do Goethe maduro para um novo mundo pós-burguês foi tão insólito, tão grandioso, quanto a crescente participação do ancião em questões utópicas e tecnológicas mundiais, o seu entusiasmo por projetos como o canal no istmo do Panamá, do qual fala com intensidade e minúcia, como se isso lhe fosse mais importante do que toda a poesia - como de fato foi na fase final. A alegria esperançosa em relação a tudo o que era tecnológico e civilizatório, tudo que incentivava o comércio, não é de espantar em se tratando do poeta do último Fausto, que vivencia o seu instante máximo na realização de um sonho utilitarista, na drenagem de um pântano - um estranho afrontamento contra a tendência beletrística e filosófica da época. [...] 
   Na utopia tecnológica e racional, a dimensão burguesa se transforma em dimensão de comunidade global, torna-se conscientemente geral e não dogmática. Esse entusiasmo é sóbrio. Mas o que hoje falta é justamente uma grande sobriedade, num mundo que se consome em estados d'alma sombrios e hostis à vida. [...] O burguês está perdido, e perderá a passagem para o novo mundo que chega se não se obrigar a dizer adeus ao conforto mortal e às ideologias contrárias à vida que ainda o dominam, se não conseguir se professar, corajoso, em prol do futuro. O novo mundo, o mundo socializado, o mundo organizado da unidade e do planejamento, em que a humanidade estará libertada dos sofrimentos subumanos, desnecessários, que ferem o sentimento de honra da razão, esse mundo virá, e esse mundo será obra daquela grande sobriedade para a qual já hoje tendem todos os espíritos que não comungam com os estados d'alma decompostos, sombrios e pequeno-burgueses. Ela virá, pois uma ordem externa e racional adequada ao estágio atingido pelo espírito humano deve ser criada, no pior dos casos por uma subversão violenta, para que a alma volte a ter direito à vida e a uma boa consciência humana. Os grandes filhos da burguesia [Bürgertum], que nela nasceram e cresceram para o intelecto, o supraburguês, são testemunhos de que existem possibilidades ilimitadas na condição burguesa, possibilidades de autolibertação e de autossuperação. A nossa época conclama a burguesia a se lembrar dessas suas possibilidades inatas e se decidir por elas nos planos intelectual e moral. O direito ao poder depende da missão histórica cujo portador sentimos que somos, e podemos assim nos sentir. Quem a renegar ou não estiver à sua altura terá de desaparecer e abdicar em favor de um tipo humano livre das precondições, das relações e das amarras sentimentais que, como por vezes tememos, tornam a burguesia europeia incapaz de conduzir o Estado e a economia a um novo mundo. Não há dúvida: o crédito que ainda hoje a história da República burguesa concede, esse crédito de curto prazo, fundamenta-se na fé ainda existente de que a democracia também pode fazer o que seus inimigos sedentos de poder dizem ser capazes de fazer: assumir essa liderança rumo ao novo e ao futuro. A burguesia se revela merecedora de seus grandes filhos quando não se satisfaz com vangloriar-se solenemente deles. É o maior desses filhos, Goethe, quem a convoca:


   Entzieht euch dem verstorbnen Zeug
   Lebend'ges labt uns lieben!
   ("Deixem as coisas mortas/ Amemos o que é vivo!" Goethe, Zahme Xenien, III).



MANN, Thomas. "Goethe como representante da era burguesa". In: O escritor e sua missão: Goethe, Dostoiévski, Ibsen e outros. Trad. Kristina Michahelles. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, pp. 97- 112.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Contos (5)

    Desilusão

   Confesso que as palavras daquele estranho cavalheiro me deixaram totalmente desnorteado. Tenho receio de ainda não estar em condições de contar o caso de tal modo que ele venha a comover outras pessoas como aconteceu comigo. Muito provavelmente seu efeito se deve em grande parte à candura e ao tom amistoso com que um desconhecido se abriu comigo...
   Foi dois meses atrás, numa manhã de outono, que reparei pela primeira vez naquele desconhecido na Piazza di San Marco. Havia pouca gente na rua; mas diante da maravilhosa construção, com os pomposos contornos e ornamentos dourados destacando-se do céu delicado, tatalavam bandeiras na suave brisa marítima; diante da porta principal um bando de pombos se reunia aos pés de uma jovem que espalhava milho para eles enquanto mais e mais aves acorriam em nuvens de todos os lados... Um quadro incomparavelmente alegre e festivo. 
   Foi então que o vi, e enquanto escrevo posso vê-lo distintamente. Era bastante abaixo da estatura média e um pouco encurvado, andava depressa, segurando a bengala às costas com a mão. Usava um chapéu preto e duro, sobretudo claro de verão, calças listradas escuras. Por algum motivo achei que fosse inglês. Tanto podia ter trinta como cinquenta anos. Seu rosto, com nariz grosso e olhos cinzentos e fatigados, era bem escanhoado e em torno da boca pairava constantemente um sorriso misterioso e um pouco tolo. De vez em quando, erguendo as sobrancelhas, olhava em volta, como quem procura algo, depois fitava o chão, dizia algumas palavras para si mesmo, sacudia a cabeça e punha-se a sorrir de novo. E assim caminhava pela praça, de uma lado para outro, numa verdadeira obstinação.
   A partir de então passei a observá-lo diariamente, pois parecia não fazer outra coisa além de caminhar pela praça, cinquenta vezes ao dia, fizesse chuva ou fizesse sol, pela manhã e à tarde, sempre sozinho e sempre com aquele comportamento singular.
   Na noite que pretendo descrever, uma banda militar acabara de dar um concerto. Eu estava sentado numa das mesinhas diante do Café Florian, e quando, ao fim do concerto, a multidão que estivera andando por ali começou a dispersar-se, o desconhecido sentou-se numa pesada mesa perto de mim, sempre com aquele sorriso ausente.
   Passou-se o tempo, tudo foi-se aquietando cada vez mais em volta, não demorou muito e as mesas estavam todas vazias. Raras pessoas ainda passavam por lá; uma paz majestosa baixara sobre a praça, o céu coberto de estrelas, a meia-lua pendurada sobre a fachada magnífica de São Marcos.
   Eu lia jornal, de costas para meu vizinho, e estava prestes a ir embora quando tive de me virar; pois ele, que até ali estivera silencioso, começou subitamente a falar.
   - É a primeira vez que vem a Veneza, senhor? - perguntou em mau francês; quando me esforcei por retrucar em inglês, ele começou a falar num alemão culto, com voz baixa, e rouca, que procurava clarear com frequentes pigarros.
   - Está vendo tudo isso pela primeira vez? E corresponde às suas expectativas? Ou as supera, quem sabe? Ah! Nunca imaginou que fosse tão bonito? Verdade? Não está dizendo isso para parecer feliz e causar inveja? Ah! - ele recostou-se para trás e me encarou, piscando depressa os olhos, com uma expressão inexplicável no rosto.
   A pausa foi longa, e, sem saber como continuar aquele estranho diálogo, eu estava novamente querendo me levantar quando ele se inclinou para mim intempestivamente:
   - Sabe o que é desilusão? - perguntou baixinho, num tom apressado, apoiando-se na bengala com as mãos. - Não um pequeno fracasso isolado, uma falha, mas aquela grande desilusão generalizada que sentimos com tudo na vida? Certamente não a conhece. Mas ela me acompanha desde a juventude, e por sua causa fiquei solitário, infeliz e, não nego, um pouco esquisito. 
   Seria impossível que me entendesse logo. Mas talvez, se me quiser escutar, por dois minutos, compreenda tudo. Pois é tão pouco o que há para dizer...
   Quero que saiba que nasci numa cidade bem pequena, numa casa paroquial em cujos aposentos reinava uma meticulosa limpeza e o patético otimismo de um ambiente intelectual, e onde se respirava uma atmosfera estranha, carregada da retórica dos púlpitos - todas essas grandiosas palavras sobre bem e mal, belo e feio, que odeio tanto, porque talvez seja delas a culpa por todos os meus sofrimentos. 
   A vida para mim consistia unicamente nessas grandiosas palavras; eu não conhecia nada dela senão aquelas emoções tremendas e sem forma definida, que elas despertavam em mim. Das pessoas, esperava a bondade divina ou a perversidade diabólica; da vida, ou a beleza mais arrebatadora ou o mais completo horror; era dominado por um intenso desejo de todas essas coisas, uma avidez profunda e atormentada por uma realidade maior, por experiências, não importa de que tipo, de felicidade extasiante e de sofrimentos indizivelmente grandes.
   Recordo, senhor, com uma dolorosa nitidez, a primeira desilusão de minha vida, e peço que entenda que ela nada tem a ver com o malogro de alguma bela esperança, mas com um acontecimento infeliz. Eu era pouco mais que uma criança, quando à noite um incêndio destruiu a casa de meus pais. O fogo começara secretamente, alastrando-se traiçoeiramente, até que todo o pequeno andar ficou em chamas, chegou à porta do meu quarto e não iria tardar muito a alcançar as escadas. Fui o primeiro a notar tudo, e recordo que corri pela casa gritando: "Fogo! Fogo!" Recordo essas palavras com grande nitidez, e sei que sentimento se escondia por trás delas, embora naquele tempo dificilmente ele pudesse ter aflorado à minha consciência. Eu sentia: então é isso, um incêndio? Afinal, é como ter a casa em chamas. Isso aí é tudo?
    Deus sabe que não foi pouca coisa. A casa toda se queimou, e só nos salvamos com grande dificuldade, eu próprio fiquei bastante ferido. Seria mentira dizer que minha fantasia se antecipara aos acontecimentos e já criara em minha mente um incêndio pior do que aquele. Mas eu tivera um vago pressentimento, uma ideia incerta, e, comparada a ela, a realidade me parecia sem graça. O incêndio foi minha primeira grande experiência. E jogou por terra uma terrível esperança que eu alimentara.
   Não receie que eu continue lhe contando minhas desilusões em detalhes. Contento-me em dizer que alimentei com o desgraçado zelo minhas grandes perspectivas de vida com o conteúdo de milhares de livros e as obras de todos os poetas. Ah, aprendi a odiá-los, esses poetas que pintavam as suas palavras grandiosas em todas as paredes da vida - porque não tinham poder para escrevê-las no céu com pena molhada em lava do Vesúvio! Cheguei a pensar que todas as palavras grandiosas eram uma mentira ou uma troça.
   Os poetas extáticos têm dito que a linguagem é pobre: "Ah, como as palavras são pobres" - cantam eles. Nada disso, meu senhor! Penso que a linguagem é rica, é imensamente rica se comparada com a pobreza e limitações da vida. A dor tem os seus limites: a dor física acaba na perda dos sentidos, a dor moral no embotamento. E com a felicidade acontece a mesma coisa! A necessidade humana de comunicação inventou sons que superam esses limites. 
   É minha a culpa? Será que só em mim certas palavras têm esse efeito de um calafrio na espinha, despertando em mim pressentimentos de coisas que nem existem?
   Saí para a vida de que tanto me falavam, cheio de avidez por uma única experiência que correspondesse às minhas grandes esperanças. Valha-me Deus, nunca o consegui! Percorri toda a Terra, visitei os lugares mais famosos, todas as obras de arte sobre as quais têm sido esbanjadas as mais extravagantes palavras; fiquei diante delas e disse: é bonito. Mas e daí - isso é tudo? Não é mais bonito do que isso?
   Não tenho nenhum senso de realidade. Talvez seja esse o meu problema. Certa vez postei-me junto de uma estreita e funda garganta nas montanhas. As paredes de rocha nua desciam verticais, lá embaixo a água espumava sobre os rochedos. Olhei para baixo e pensei: e se eu caísse? Mas já sabia a resposta por experiência: se isso acontecesse, eu diria a mim mesmo durante a queda: agora estou caindo, isso é um fato. Mas, e daí?
   Acredite, vivi o bastante para poder falar nisso. Há anos apaixonei-me por uma jovem, uma criatura delicada e doce, que gostaria de conduzir pela minha mão, e protegê-la; mas ela não me amou, o que não foi de admirar, e outro a tomou sob sua proteção... Existe experiência mais dolorosa do que essa? Existe algo mais pungente do que essa dor cruelmente mesclada com sensualidade? Passei muitas noites de olhos abertos, e mais triste, mais torturante do que o resto, era o pensamento incessante: essa é então a grande dor? Agora a estou sentindo! Mas, o que é ela?
   Será preciso que lhe fale de minha felicidade? Pois também senti felicidade, e também ela me decepcionou... Não, não é preciso que fale: pois são exemplos sem graça, que não esclarecerão o fato de que foi a vida, a vida em geral, com seu curso desinteressante, sem graça e medíocre, que me desiludiu, desiludiu, desiludiu...
   "O que é o ser humano", escreveu o jovem Werther, "esse semideus que todos elogiam? Não lhe faltam as forças quando mais precisa delas? Quer ele atinja o êxtase da alegria ou o abismo do sofrimento, não retorna sempre à lucidez nua e fria, ele que ansiava perder-se na plenitude do infinito?"
   Muitas vezes penso no dia em que vi o mar pela primeira vez. O mar é grande, é vasto, meu olhar percorreu a sua imensidão e ansiou por liberdade: mas lá adiante ficava o horizonte. Por que tenho horizonte? Esperei que a vida me desse o infinito.
   Talvez meu horizonte seja mais estreito que o de outras pessoas. Eu já disse que não tenho senso de realidade - ou quem sabe o terei demais? Quem sabe desisto cedo demais? Acabo depressa demais? Quem sabe só conheço felicidade e dor em graus muito inferiores, pouco intensos?
   Não creio nisso; nem acredito no ser humano, acredito menos ainda naquelas pessoas que concordam com as grandiosas palavras dos poetas em relação à vida. Tudo covardia e mentira! Aliás, meu caro senhor, já percebeu que há pessoas tão vaidosas, tão desejosas de respeito alheio e da secreta inveja das outras, que fingem ter experimentado as alturas da felicidade e nunca o abismo da dor? 
   Está escuro e o senhor praticamente não me dá atenção; por isso quero confessar mais uma vez que também eu um dia tentei mentir como essas pessoas, fingindo que era feliz. Mas faz alguns anos que o balão dessa vaidade foi furado. Agora sou solitário, infeliz e, não nego, um pouco esquisito.
   Minha ocupação predileta é contemplar, à noite, o céu estrelado; pois não será a melhor maneira de afastar a vista da terra e da vida? Talvez me perdoem que pelo menos alimente esperanças. Sonhando com uma vida mais livre, na qual essas minhas grandes esperanças se transformem em realidade, sem nenhum torturante resquício de desilusão. Com uma vida sem horizontes...
   Sonho com ela, e aguardo a morte. Ah, já a conheço tão bem, essa última de todas, a derradeira desilusão! É isso, a morte? direi no último momento; agora a estou experimentando! Mas, o que é ela, afinal?
   Está frio aqui na praça, senhor; veja só, ainda consigo sentir isso! Passe muito bem. Adeus...


MANN, Thomas. Os Famintos. Trad. Lya Luft. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, pp. 32-37.
   

sábado, 3 de dezembro de 2011

O livro de ensaios "O escritor e Sua missão", de Thomas Mann, ganha tradução no Brasil

Estética e ética segundo Thomas Mann

  (Daniel Piza)

O gênio alemão, entusiasta de Broch, desvenda em coletânea de ensaios não só os autores que analisa mas também a si mesmo. 

   Escrevendo em 1952 sobre Émile Zola, que no célebre artigo Eu Acuso defendeu o capitão judeu Dreyfus das acusações de espionagem, Thomas Mann (1875- 1955) lembra como um grande autor era capaz de provocar indignação e revoltar o mundo e diz que "desde então o retrocesso ético tem sido terrível". A humanidade se tornou embrutecida, apática, uma multidão de "aleijões morais". Muito antes, em 1929, descrevendo o classicismo de Lessing, o escritor alemão dá outro salto para o presente e afirma: "Já fomos tão longe no campo do irracional". A modernidade vinha se tornando mais e mais avessa ao intelecto, às ideias, à noção básica de sensatez. E é esse ponto de vista, de um humanismo que quer assimilar as paixões e as pulsões, que une os ensaios de O Escritor e Sua Missão (editora Zahar), finalmente traduzidos no Brasil.



   O livro serve não apenas para reafirmar a filosofia ética e estética de Mann, mas também para registrar mais uma vez o papel do gênero ensaístico para os grandes romancistas modernos. Como Mann, o que Proust, Joyce, Kafka, Musil e os maiores prosadores do início do século 20 buscavam era revigorar a narrativa de ficção com a densidade do pensamento, cada um a seu modo. No caso de Proust, por exemplo, tratava-se de levar a crítica de arte (e música e literatura) para dentro da mente dos personagens, a começar pelo narrador. No caso de Mann, os diálogos dos personagens têm um grau de articulação semelhante ao que se encontra em ensaios; um romance como Dr. Fausto contém verdadeiro tratado sobre música. Não por acaso, no texto sobre Bernard Shaw incluído na coletânea, Mann nota que seus personagens falam no palco como o ensaísta em público.


   Os ensaios de Mann, dessa forma, dizem muito sobre os autores que analisa e, ao mesmo tempo, sobre seu próprio autor, como, de resto, acontece com os melhores ensaístas desde Montaigne. Por isso é fácil entender que o mais longo dos textos seja, claro, sobre Goethe como Representante da Era Burguesa - Goethe que aparece citado em diversos outros ensaios, sobretudo naquele sobre Tolstoi. Afinal, toda a obra ficcional de Mann - de Os Buddenbrooks até José e Seus Irmãos, passando por Morte em Veneza e A Montanha Mágica - é devedora justamente de Goethe e da literatura russa, com doses fundamentais da filosofia angustiada de Schopenhauer e Nietzsche. Sobre Tolstoi, por exemplo, diz que não tem a espiritualidade de um Goethe, mas em compensação era capaz de "uma força narrativa sem igual". Em Dostoievski acentua o caráter transgressor, o qual demonstra que a natureza humana também se sente atraída pelo sofrimento e caos.


   Saímos dos ensaios de Mann, ainda que não tenham o tom de críticas literárias (são antes conversas eruditas sobre grandes autores), com visões originais ou ao menos agudas sobre as obras. Quando comenta Ibsen, faz um paralelo com Wagner para mostrar que o compositor fez pela ópera o que o dramaturgo fez pela comédia de costumes: deu uma "feição perfeccionista e amplificadora" a esses gêneros populares. Se diz que em O Lobo da Estepe temos um Herman Hesse tão experimental quanto Joyce ou Gide, sentimos vontade de reler o esquecido Hesse. E ao examinar a obra de um autor bem distinto de si mesmo, como Chekhov, apontando Uma História Enfadonha como seu conto preferido, nos faz repensar o modo como o autor russo soube ficar a meio caminho entre esperança e desesperança. Não há passagem obscura ou banal nos ensaios de Mann. 

   Não que ele chegue a definir uma "missão" para o escritor, já que não tinha índole missionária; mas para o bom leitor algumas dessas páginas bastam. Mann acredita que o papel do escritor é muito mais que contar histórias ("as obras mais elevadas se contentam com um mínimo de ação"); é enxergar mais a fundo a natureza humana; em outras palavras, é estético e ético ao mesmo tempo. A "humanidade plena" consiste em buscar o equilíbrio entre racional e sentimental, mas sabendo que esse equilíbrio é sempre instável, precário, carente de revisão constante. No ensaio central sobre Goethe, em destaque, usa o termo "burguês" não no sentido marxista, pejorativo (o empregador que explora o trabalhador), mas no de cidadão urbano de classe média, que então significava alguém dotado de um mínimo de responsabilidade e dignidade, ponderado, sóbrio, laborioso, sem ser reacionário ou autoritário - como o próprio Goethe ou, podemos acrescentar, ele próprio, Mann.

   O que Mann exalta em Goethe, seu lado "não burguês", é a crítica ao filistinismo (a aversão natural do homem comum às sutilezas do intelecto, da chamada alta cultura) e ao nacionalismo (que Mann observa que, na verdade, é sempre provinciano) e, obviamente, a tradução disso em obras perenes, feitas com a personalidade do gênio, cuja mente nunca está confortável no ambiente da mediocridade geral. Genialidade é fazer obras que são ao mesmo tempo novas e duradouras, é transformar a inquietude em grandeza por meio da obstinação. Como no Aschenbach de Morte em Veneza, a abertura à paixão não leva a lugar nenhum se o intelecto se abstém. A aventura mais determinante é a do espírito; a ousadia que faz diferença é a do pensamento. Por mais burguês e conservador que Goethe fosse em seu comportamento e suas opiniões, sua criatividade não fugia aos desafios mais ambiciosos. De Mann, sem dúvida, se pode dizer o mesmo.

   Não é difícil entender por que o estudo mais longo trata de Goethe: a obra de Mann deve muito ao ficcionista de Werther.

(Escrito por Daniel Piza para a coluna "Arte & Lazer" do Estadão de hoje. Disponível em:http://m.estadao.com.br/noticias/impresso,estetica-e-etica-segundo-thomas-mann,806182.htm).