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domingo, 30 de outubro de 2011

Poemas (1)

                       LXIX                                                                                        LXIX


Di donne io vidi una gentile schiera                           Vi umas damas em gentil fileira
questo Ognissanti prossimo passato,                        (Dia de Todos os Santos passado)
e una ne venia quasi imprimiera,                               e vinha uma delas como primeira,
veggendosi l'Amor dal destro lato.                            tendo o Amor à direita, do seu lado.


De gli occhi suoi gittava una lumera,                        Tinha o lume nos olhos por bandeira,
la qual parea un spirito infiammato;                         parecendo um espírito incendiado;
e i' ebbi tanto ardir, ch'in la sua cera                         tive a audácia de olhar a luz inteira
guarda', [e vidi] un angiol figurato.                           e nela vi um anjo figurado.


A chi era degno donava salute                                    E ela saudava a quem o merecesse
co gli atti suoi quella benigna e piana,                    em forma delicada e mais-que-humana,
e 'mpiva 'l core a ciascun di vertute.                         como se o Bem a eles concedesse.


Credo che de lo ciel fosse soprana,                            Talvez fosse do céu a soberana,
e venne in terra per nostra salute:                            que para nos salvar a nós descesse:
là 'nde'è beata chi l'è prossimana.                             de amor quem vai com ela se engalana.


ALIGHIERI, Dante. Dante: Lírica. Trad. Jorge Wanderley. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996, pp. 100-101.

domingo, 15 de maio de 2011

Purgatório



Do engenho meu a barca as velas solta
Para correr agora em mar jucundo,
3 E ao despiedoso pego a popa volta.

Aquele reino cantarei segundo,
Onde pela alma a dita é merecida
6 De ir ao céu livre do pecado imundo.

[...]

Eis noto um velho, perto de mim posto,
Que reverência tanta merecia,
33 Que mais do pai não deve o filho ao rosto.

Nas longas barbas nívea cor saía,
Sendo na coma sua semelhante,
36 Que em dupla trança ao peito lhe caía.

A luz dos santos astros rutilante
De fulgor tanto lhe aclarava o gesto,
39 Que o vi, como se o sol lhe fosse adiante.

— “Quem sois que em contra o rio escuro e mesto
Do eterno cárcere heis fugido os laços?” —
42 Movendo as nobres plumas, disse presto.

“Quem vos guiou alumiando os passos
Para a profunda noite haver deixado,
45 Que enluta sempre os infernais espaços?

“As leis do abismo acaso se hão quebrado?
O céu dá, seus decretos revogando,
48 Que dos maus seja o meu domínio entrado?” —



Travou de mim Virgílio, me exortando
Por voz, aceno e mãos: como queria
51 Os joelhos curvei, olhos baixando.

— “De motu meu não vim” — lhe respondia — [...]


Canto I, Purgatório. 

(ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. Ebook da edição: São Paulo: Atena, 1955)







1ª parte de 3 atos musicais do Purgatório, presente na Sinfonia Dante

Franz Liszt (1811 -1886), compositor e pianista húngaro.