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sábado, 4 de abril de 2015

Correspondência de Cyro dos Anjos e Drummond (breve seleção)

 
 
 
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CARTA 11 (DRUMMOND) - Belo Horizonte, 22 de abril de 1932
 
Velho Cyro:
Aqui cheguei, perfeitamente íntegro, e com um baú de saudades de Montes Claros. Fiquei querendo um grande bem à sua terra, que é mesmo muito boa, de uma bondade inteligente e fina. É exato que tenho viajado pouquíssimo e que portanto não posso comparar impressões, mas a que me ficou de seu sertão é de uma qualidade especial, não se equipara às outras. Vocês resolveram o problema da perfeita sociabilidade, num clima que talvez convide pouco a ela. E a forma de hospitalidade que vocês cultivam é dessas que, deixando o visitante inteiramente à vontade, não lhe fazem sentir o peso das gentilezas, que do contrário o esmagaria. Não voltei esmagado porque vocês [são] cordiais e discretos.
          O que lamentei foi ter seguido para Montes Claros com a minha incurável timidez, que me torna quase feroz a olhos pouco experientes. Eu devia tê-la jogado fora em Bocaiuva. Como não fiz isso, devo ter causado a impressão de um indivíduo ausente das festas, quando talvez eu fosse o que mais se integrava nelas, sentindo um vasto e silencioso prazer tomando, por exemplo, aquela cerveja sob as árvores do Melo (você não sabe o que perdeu, casando-se na véspera desse acontecimento ou antes, deixando casar-se uma semana antes para poder participar dele). Mas aos que me tiverem achado besta, você dirá que essa minha maneira de ser não exclui uma larga dose de simpatia humana, e que essa vai toda para os excelentes amigos de Montes Claros.
         Mando-lhe uma entrevista concedida ao Diário da Tarde. Mando-lhe também - em vários e terríveis embrulhos - os exemplares de meu livro, que V. terá a paciência de distribuir entre os companheiros daí, assinalados nas dedicatórias. Terei omitido algum? É bem possível, e nesse caso requeiro os seus subsídios, para imediata reparação.
        - Vim encontrar o PSN já organizado e os elementos recalcitrantes já em doce harmonia como os próceres. O caso do ministro da Justiça é que continua sem solução. Parece que a dificuldade não está em Minas topar a parada dos tenentes; com o seu largo estômago, Minas topa tudo. A dificuldade está em escolher o ministro, havendo tantos patriotas que se dispõem a esse sacrifício.
         Da Montanha não tenho notícias, a não ser que continua em atividade, sob um silêncio de morte. E eu não sou iniciado.
        Desconfio que esta epístola já está muito longa para um cidadão recém-casado e em plena fase de lirismo doméstico. Vou deixá-lo em paz. Não antes de pedir-lhe que me recomende ao seu pai, de quem trouxe uma grave e doce impressão, e a sua irmã Alice, cujas receitas constituem um capítulo particularmente amável de minha viagem a Montes Claros.
        Para V. e Lilita mandamos o nosso abraço afetuoso, na esperança de vê-los algum dia nestas quatro paredes da rua Silva Jardim, onde os esperamos com amizade. Adeus, old Cyro
Do
Carlos
 
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CARTA 18 (CYRO) - Montes Claros, 15 de agosto de 1932
 
Carlos amigo,
Desde algum tempo venho pretendendo escrever-lhe, mas este sertão acaba esmagando a gente. Da intenção à ação há uma distância enorme, incompreensível. Acredito que existe por aqui algum gérmen cuja especialidade é o retardamento de todas as funções do espírito e do corpo.
       Vivo cheio de remorsos por causa de uma preguiça, que, aliás, não sei se vem mesmo de mim, ou do exterior: o certo é que, malgrado os meus ímpetos de reação, vou-me modelando à feição de todos daqui e me torno moroso em tudo. Para ler, para escrever, para trabalhar e até para pensar, parece que a gente faz um esforço muito maior do que aí, e dir-se-ia que a pressão atmosférica é muito mais esmagadora no sertão. Para desculpar-me, perante mim, dessa moleza, costumo invocar motivos meteorológicos, ou então conformar-me com a pasmaceira, imaginando que a vida é curta e que não vale vivê-la com intensidade. Mas esses argumentos servem apenas para o momento, e depois volta o remorso.
        No quintal deste velho sobrado, que você ficou conhecendo, há uma porção de plantas e uma quantidade regular de formigas: eis o que me distrai nas horas de "desalento". Adubo as plantas e mato as formigas. Infelizmente isso também não constitui uma solução, embora as formigas se multipliquem sempre.
        Creio que o que me castiga, no fundo, é o desejo de ir morar aí, e o receio de ficar muito distanciado do meio em que vivi. Estou dentro daquela situação que sugerem uns versos seus, que peço licença para lembrar (pois tenho a impressão de que você não gosta muito de alusões à queima-roupa aos seus poemas) e que lembro truncados: "Na roça, saudades do elevador, e no elevador, a saudade da roça...".
         Lilita está de franco acordo com esse desejo e pensamos, quando as coisas estiverem melhores, examinar a possibilidade de viver aí num canto qualquer do Bairro dos Funcionários. Quando acabará a revolução? Senti uma tristeza infinita quando tive notícia do levante em São Paulo, que me parece criminoso, por vários motivos. Sem examinar as pretensas razões políticas do movimento, que não me interessam, o que me impressiona, profundamente, são as consequências de uma revolução, quando o país está ainda pagando tributo da revolução da há dois anos. Parece que esses chefes rebeldes não tiveram olhos para ver a penosa situação em que o povo se encontra. O próprio roceiro, que sempre viveu com o estômago mais ou menos tranquilo acerca das provisões de boca, vive agora miseravelmente, e a fome não existe só no Nordeste. O que plantou, e colheu bem, come, mas não se veste, e o que colheu mal está nu e lutando com a fome. Mesmo que houvesse razões de sobra, no capítulo político para revoluções, essa revolução seria criminosa, pois vem agravar a penúria da grande massa. Ainda se Constituição fosse substância alimentícia...
       Acompanhei, pelos jornais, sua excursão ao "front". Você deve estar cumulado de trabalho, e, acredito, estará estafado quando acabar o barulho. Eu e Lilita nos lembramos de convidar a você, d. Dolores e Maria Julieta para virem descansar aqui, por algum tempo. O sobrado é grande e silencioso. Podemos também fazer passeios à roça. O convite é de todo coração e pedimos a você que estude o assunto e resolva conceder-se umas férias que bem merece. Aqui em casa há alojamento de sobra para todos.
        Com muitas lembranças para todos os amigos daí, um abraço do
Cyro
 
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CARTA 29 (DRUMMOND) - Rio de Janeiro, 22 de julho de 1936
 
Meu caro Cyro:
Desde que cheguei daí estou para lhe escrever pedindo notícias do seu "caso" pessoal, que muito me incomodou. Mas não o fiz ainda porque, continuando no Rio o governador, suponho não se ter modificado a situação que você me expôs. Como o governador demora, estou naturalmente desejoso de saber se alguma circunstância nova se produzia, alterando o estado de coisas. Ponho um grande e afetuoso interesse na solução do caso, em que aliás você se houve com uma correção e uma simplicidade exemplares.
        Eu vou mal. Voltei bouleversé dessa curta viagem de 3 dias ao País das Recordações. Trouxe, entre outras verificações, a de que estou ficando velho. É prova disso o estado de extrema sensibilidade em que me deixou o contato com alguns amigos, alguns lugares e uma certa pessoa. Nunca Belo Horizonte me deixou uma impressão assim: a princípio de transbordamento jovial; depois, de inquietação e perplexidade. O coração e o espírito trabalharam muito e voltaram fatigados. De par com isso, senti saudades absurdas da infância (que aparentemente não vinham ao caso), senti uma enorme necessidade de volver às origens mais obscuras e concluí, de tudo isso, que estou ficando velho. Chamo velhice a um estado de abandono de todo o material e experiência crítica acumulado entre os 20 e 30 anos, período que para nós foi de análise do mundo, de ceticismo, de dissolução das verdades, e principais verdades. Agora transposta a fronteira dos trinta, começa um trabalho diferente. Em mim, pelo menos, está sendo assim! As recordações de infância, principalmente, que eram quase ocultas na minha vida emotiva, são hoje violentas e numerosas. E o passado próximo, que considero tão perdido como o tempo, igualmente me perturba a um ponto que você nem pode avaliar como é doloroso, embora seja evidente o prazer que eu sinto em recompô-lo. Eis aí, meu caro Cyro: não há mais ironia nem penetração das coisas por uma crítica incessante. Estou cheio de imagens e evocações. recomeço a acreditar no primado dos sentimentos e a submeter-me a eles, sem discutir. Será talvez um estado passageiro, mas é a aventura presente de minha vida, e eu a vivo com sinceridade. 
        Como vai nossa amiga? Ela tem sido tema de intermináveis meditações. Tenho desejo e receio de escrever-lhe para contar tudo isso. O estado de espírito que acabei de descrever a você não é, porém, adequado a uma correspondência benigna. Na dúvida, abstenho-me. No fundo, somos todos umas bestas.
        Conclua o seu livro e venha ao Rio, como prometido. Lembranças ao doce Emílio e ao sábio Gui. Paz para sua casa e abraços do Carlos.
 
P. S. Os jornais daí deram-me uma notícia enternecedora e que agravou a minha supradita nostalgia das fontes! O festival chez Henriqueta Lisboa. Como é melancólica e deliciosa, meu Cyro, esta reabertura do salão Vivacqua, 16 anos depois! Em 1920, como agora, recitavam-se os poemas do velho Alphonsus. Naquele tempo, vagia no limbo literário. Eu, já taludo, incendiava casas e profanava cemitérios. Havia o Romeu de Avelar (que hoje escreve na Folha de Minas, segundo acabo de verificar também, com assombro e delícia. Como vê tudo passou e voltou). Podemos estabelecer um ciclo de 15 anos para a lei do retorno literário. Ciao e abraços.
C. 
 
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CARTA 56 (CYRO) - Belo Horizonte, 4 de novembro de 1944
 
Prezado Carlos,
Muitíssimo obrigado pelo exemplar, que me mandou, do seu Confissões de Minas.
       É um livro admirável, que você nos estava devendo há muito tempo, caro poeta. Não ignoro os sentimentos que inspiraram as palavras do prefácio, mas, em defesa da obra, não posso deixar de divergir, cordialmente, de você, quando a considera um "depoimento negativo" da época.
       Embora tenham sido grandes as transformações por que você passou, nos diferentes períodos em que o livro foi escrito, com natural reflexo na sua posição estética, não me parece que devam ser tratadas assim as páginas de Confissões de Minas
       Permita-me que lhe diga, à queima-roupa, que não acredito se encontrem páginas mais belas na língua portuguesa.
       Não aludo, é claro, somente às qualidades formais de sua prosa. Quero referir-me principalmente ao que nela encontramos em pensamento e poesia (ou "poesia e verdade", como eu ia escrevendo...). Atrás de cada palavra, há o mesmo homem terrivelmente lúcido que ironiza as coisas; como, entretanto, nos comunica sua ternura, desajeitada, seu lirismo, tudo o que há de itabirano, patético, irremediável no seu mundo!
       Não suponha, Carlos, que esta divergência, em face das Confissões de Minas, provenha de ponto de partida diferente, na estimação dos problemas essenciais de nosso tempo.
       Não nos vemos há muito, mas creia que hoje me sinto mais próximo de você do que há quatro ou cinco anos, e talvez o compreenda melhor do que há dez anos, quando trocávamos confidências sentimentais.
       É que a matéria do seu primeiro livro de prosa, pela sua própria natureza, não podia, a meu ver, ser tratada senão como foi, sub especie aeternitatis: você cogitou especialmente de homens, quando não de paisagens sentimentais.
       Se, contudo, houvesse um pecado no livro - acho que a um poeta que, como você, tem cumprido tão fielmente sua missão, realizando obra corajosa e sincera, poderia bem ser permitido o pequeno adultério de escrever algumas páginas fora do tempo (mas dentro do homem), não acha?
       Desculpe a um velho amigo se entra, um pouco estouvadamente, em domínios acaso vedados.
Com afetuoso abraço
do
Cyro
 
P.S. Creio que dentro de uns dois meses vou enviar-lhe o Abdias, que talvez resgate alguns pecados do Amanuense.
 
 
 
Cyro & Drummond: correspondência de Cyro dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade. Wander Melo Miranda e Roberto Said (org.). São Paulo: Globo, 2012.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O sentimento de amar segundo Drummond

Amar se aprende amando.
Assim mesmo, em tom afirmativo e de frase já disposta a uma lição, é esse o título de um dos livros de Carlos Drummond de Andrade.

Considero Drummond um típico caso de escritor cujos títulos dos livros por si só já são obras de literatura e de poesia. Ele angaria um conjunto dos mais belos títulos de livros da nossa literatura brasileira. Ousaria até supor que, Drummond, para muitos que nunca leram nada escrito por ele, nem mesmo um dia ouviu falar seu nome, conseguiria obter leitores para seus livros, simplesmente despertos por uma curiosidade admirada pelos belos títulos de seus livros. 

Os títulos de Drummond são convidativos à leitura. Tire a prova: você mesmo, sem o obstáculo de algum preconceito literário ou pelo autor, passeando por uma estante com estes títulos do escritor mineiro, ficaria indiferente às chamadas: Sentimento do mundo, Fazendeiro do ar, Discurso de primavera e algumas sombras, Esquecer para lembrar, O amor natural, A cor de cada um?  

A simpatia do escritor e de sua obra começam logo nos títulos, logo nesta capacidade que ambos, livros e autor, têm de convidar sem conhecer, de atrair em encanto sem grandes rodeios. Desde o primeiro contato com Drummond, a experiência é de aproximação lírica, sem mesmo darmos conta por inteiro de tanto.

Uma de suas características pessoais - e que também será de sua poesia - que mais me deixaram lembrança quando do meu primeiro contato mais detido e maduro com a vida e obra de Drummond, foi o seu manifesto sentimento de responsabilidade diante do mundo. Certa vez ele assim sentenciou: "entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade". E para além da sentença, ele inaugurou a pesada e muito bela expressão: sentimento de mundo. Imaginemos nós o peso de ter o sentimento do mundo. 

Lembro-me que a figura de Drummond, desde o momento que me apresentou a esse enunciado forte, logo instalou-se em minha lembrança assemelhado à imagem do Atlas,  figura da mitologia grega, já que este último também não tinha outro desempenho menos belo e pesado que o de suportar o globo em suas costas. Atlas e Drummond, ambos, tiveram por desígnio, se autoimposto ou não, viver para sustentar o mundo.

Pois que ainda nessa competência de sentir o mundo, o poeta Drummond assim afirmou em título: amar se aprende amando. E a partir de tal afirmação, o senhor crítico Ivan Junqueira disse algo relevante e sério em seu prefácio ao referido livro, que nos permite desde logo nos preparar para uma das lições de maior valor da totalidade dos poemas drummondianos desta obra. Disse Junqueira: "Sob o título de Amar se aprende amando se colhem de imediato duas raras lições: uma primeira, de ousada simplicidade e que se dá logo à tona de seu enunciado, onde o autor se permite a audácia de reunir três versos, cada um deles em voz distinta; e uma outra, mais funda e talvez difícil, que nos ensina essa prática (tão trivial não fosse hoje absurdamente anacrônica) cuja eficácia reside apenas na elementar e irretorquível verdade que só se aprende mesmo fazendo." 

Pois bem, assim o poeta postulará outra vez: nesta existência de tantas experiências, de exigência de experimentar e viver tanta coisa, cada aspecto de nossas vidas só é por definitivo conhecido, sabido em essência, em um termo: vivido; fazendo, praticando. Com o amor, aspecto protagonista de nossas existências, não poderia se dar de forma diferente.  

Em Amar se aprende amando, o estimado poeta direciona a atenção da máxima do "aprender fazendo" exclusivamente para o amor. O sentimento comum entre todos os seres da natureza, mas só vivido conscientemente pelos seres humanos, também exige aprendizado. O amor só se faz, amando; e amar, se aprende. Só se ama, amando, só se sabe amando, e só se sabe amar, fazendo-o, isto é, amando. Quantas afirmações contidas em uma frase só! Dessas afirmações, por fim, emerge uma conclusão: o amor encerra um elemento de prática e ação. Por essa razão ele só se realiza no fazer, no sentir, no amar (todas essas, ações e práticas). 

Esse sentido de moção e ação, destacados do amor pelo poeta, são logo introduzidos no lindo poema anúncio dos demais, eleito epígrafe do livro: 

"O amor que move o sol,
como as estrelas".
O verso de Dante
é uma verdade resplandecente
e curvo-me ante sua magnitude.
Ouso insinuar,
sem pretensão a contribuir
para que se desvende o mistério amoroso:
Amar se aprende amando
Sem omitir o real cotidiano,
também matéria de poesia.

Amor como ação e moção. Ação é moção. Para Dante, o amor, move, portanto, é ação. Em Drummond, o amor é ação, e a ação assume ainda o caráter de aprendizado. Para o poeta, definitivamente: amar se aprende amando.

Esse ensinamento insinua-se e continua nos demais poemas contidos em seu livro, e em minha observação, ele primeiro se dá de forma bastante particular e direcionada para o sentimento do amor romântico, depois, aos poucos, vai sendo estendido para o sentimento de amor de amizade, e, por fim, assume a feição daquele sentimento de amor universal, advindo de ações (amor: sempre ação!) para o bem de uma coletividade; nesta hora, os poemas se permitirão esbarrar-se nas questões políticas e também estarão mais imersos nos problemas sociais da geração de Drummond - a qual não está tão longe da nossa, e a nossa, destituída por completo dos problemas da geração do mineiro poeta do século vinte. 

Eu concluiria minha consideração à esse livro de Drummond, sobretudo à forma como ele foi organizado pelo escritor - se consciente ou inconscientemente - apontando que até a feliz direção e ordem dos poemas resultou em lirismo, e combinou com o sentimento de amor, pois que, como é sabido, e sobretudo sentido por todos, o amor, desde a sua fase semente, traz em germe a disposição à expansão e à abrangência. O amor está sempre em movimento; seu combustível sempre é a ação, amar; e seu caminho é sempre de ascensão.

Aqui deixo uma seleção pessoal de alguns poemas do belo Amar se aprende amando (Rio de Janeiro: Record, 1985). Consultei a 29ª edição da obra, saída em 2005, também pela editora Record; logo, a paginação indicada abaixo de cada poema se refere a essa edição.

Boa leitura!


RECONHECIMENTO DO AMOR

Amiga, como são desnorteantes
os caminhos da amizade.
Apareceste para ser o ombro suave
onde se reclina a inquietação do forte
(ou que forte se pensava ingenuamente).
Trazias nos olhos pensativos
a bruma da renúncia:
não querias a vida plena,
tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
não pedias nada,
não reclamavas teu quinhão de luz.
E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.

Descansei em ti meu feixe de desencontros
e de encontros funestos.
Queria talvez -sem o perceber, juro -
sadicamente massacrar-te
sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
desde a hora do nascimento,
senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História,
ou mais longe, desde aquele momento intemporal
em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
no caos universal.

Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
sua espada coruscante, seu formidável
poder de penetrar o sangue e nele imprimir
uma orquídea de fogo e lágrimas.
Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro
o Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
quando - por esperteza do amor - senti que éramos um só.

Amiga, amada, amada amiga, assim o amor
dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo
com olhar pervagante e larga ciência das coisas.
Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,
e a pura essência em que nos transmutamos dispensa
alegorias, circunstâncias, referências temporais,
imaginações oníricas,
o voo do Pássaro Azul, a aurora boreal,
as chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,
todas as imposturas da razão e da experiência,
para existir em si e por si,
à revelia de corpos amantes,
pois já nem somos nós, somos o número perfeito:
UM.
Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar,
e se confessasse jubilosamente vencido,
até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
nem olhar temos de ver nem ouvidos temos de captar
a melodia, a paisagem, a transparência da vida,
perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.

[p.19-21]


LIRA DO AMOR ROMÂNTICO
               Ou a eterna repetição

Atirei um limão n'água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão n'água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.

Atirei um limão n'água
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n'água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n'água
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão n'água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n'água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.

Atirei um limão n'água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão n'água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.

Atirei um limão n'água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão n'água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n'água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão n'água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh'alma dolorida.

Atirei um limão n'água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n'água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão n'água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?

Atirei um limão n'água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.

Atirei um limão n'água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.

Atirei um limão n'água
e caí n'água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.

Atirei um limão n'água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.

[p. 27-31]


O AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

[p. 32]


O QUE ALÉCIO VÊ

A voz lhe disse (uma secreta voz):
- Vai, Alécio, ver.
Vê e reflete o visto, e todos captem
por teu olhar o sentimento das formas
que é o sentimento primeiro - e último - da vida.

E Alécio vai e vê
o natural das coisas e das gentes,
o dia, em sua novidade não sabida,
a inaugurar-se todas as manhãs,
o cão, o parque, o traço da passagem,
de pessoas na rua, o idílio
jamais extinto sob as ideologias,
a graça umbilical do nu feminino,
conversas de café, imagens
de que a vida flui como o Sena ou o São Francisco
para depositar-se numa folha
sobre a pedra do cais
ou para sorrir nas telas clássicas de museu
que se sabem contempladas
pela tímida (ou arrogante) desinformação das visitas,
ou ainda
para dispersar-se e concentrar-se
no jogo eterno das crianças.

Ai, as crianças... Para elas,
há um mirante iluminado no olhar de Alécio
e sua objetiva.
(Mas a melhor objetiva não serão os olhos líricos de Alécio?)
Tudo se resume numa fonte
e nas três menininhas peladas que a completam,
soberba, risonha, puríssima foto-escultura de Alécio de Andrade,
hino matinal à criação
e à continuação do mundo em esperança.

[p. 45-46]


VERSOS PARA ANA CECÍLIA DO RECIFE

Eis que o tempo chegou de celebrar Ana Cecília
e sua graça-clarão e seu verdor de tília.

Aqui estou, velho poeta, para quem a juventude
traz em si mesma uma promessa de beatitude,

uma continuação de antes de amanhecer, uma fonte
de sonhos e visões a colorir a linha do horizonte,

um aceno forte de vida, incitando a viver
a magnificente esperança de cada hora, diamante do ser.

Aqui estou e vejo Ana Cecília em seu fluvial Recife
adornada de mocidade como de um paquife.

Tem sua própria e luminosa florescência,
a mesma de Sônia Maria e de Madalena, e a inefável ciência

das moças brasileiras do passado, refletidas na de 78,
dom contra o qual nada pode nem ousa o tempo afoito,

pois a moça, forma indelével, através de gerações e gerações,
sítios, histórias, alianças, amorosas combinações,

é eternidade no fluir das coisas, instante corporizado
da ânsia de vencer o efêmero e nele inscrever o traçado

de uma parte ponta entre o humano, o terrestre e o transcendental,
feições todas irmanadas de um fantástico ideal.

E tudo que vejo em Ana Cecília é a imagem dessa união
profunda, como profundo é o amor, e plena de canção.

Que verso darei a Ana Cecília, se ela é o próprio verso
a brotar, espontâneo, da música do universo?

[p. 50- 51]


EU QUISERA VER O MUNDO

Eu quisera ver o mundo
como o vê Sérgio Bernardo:
ver, no mundo, os muitos signos
que vigiam sob as coisas.

Sentir, sob a forma, as formas,
os segredos da matéria,
mais a textura dos sonhos
de que se forma o real.

Ver a vida em plenitude
e em seu mistério mais alto;
decifrar a linha, a sombra,
a mensagem não ouvida

mas que palpita na Terra.
Eu quisera ter os olhos
que assim penetram o arcano
e o tornam (poder da imagem)

um conhecimento humano.

[p. 54]


O ESCRITOR

Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.

Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.

Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.

Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem de espera, esperança.

Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.

[p. 77]


NOVA RUA SÃO JOSÉ
                         11. VIII. 1973

Cultivando o prazer de andar a pé,
tiro de meus alforjes lexicais
o mais puro louvor a Gildo Borges,
renovador da Rua São José.

Quem ali passa logo se detém,
senta no banco (banco de sentar,
não de pagar imposto e duplicata)
e escuta, embevecido, uma sonata.

De que piano vem, música errante,
se não vejo instrumento musical?
Vem de sentir no ar essa aliança
entre a cidade e a forma natural.

É pedaço de rua, por enquanto,
mas nele se devolve à criatura
o pouso, a paz, a pomba, o pensamento
de existir, existindo com doçura.

Em seus vasos, a múltipla folhagem,
ainda tímida, pede-nos licença
para nos ofertar sua presença
consoladora do monstro-garagem.

A flor, em flor, na rua - que convite
ao passante angustiado: "Pára um pouco.
Dez ou quinze minutos de far-niente
e voltarás depois ao mundo louco.

Mas voltarás de cuca restaurada,
alma leve, levando na lembrança
um bailado de asas e a dourada
alegria da hora lenta e mansa.

Aqui não te perseguem carro trêfego,
maléfica fumaça, rumor túrbido,
aqui encontrarás paradisíaca
pasárgada de pobre e milionário.

Aqui é teu domínio; aqui és rei
de teu nariz, das nuvens e da aves,
e fruirás o simples estar quieto,
erigindo o relax em tua lei".

Assim murmura a flor, e corre a brisa,
"Apoiado", ciciando ao perpassar,
enquanto São José, na sua igreja,
e Tiradentes põem-se a meditar

(pois estátua medita) e os dois reunidos
aprovam Gildo Borges e seu sonho
de tornar a cidade mais humana
e cada ser humano mais humano.

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A AMIGA VOLTOU
                         17.I.1981

Muitas promessas não foram cumpridas nos últimos doze meses.
Eu mesmo, ativo cobrador de promessas,
terei prometido e faltado
no mínimo sete vezes por semana
e, o que é pior,
ostentando indefectível cara-de-pau.
Homens enganaram homens e mulheres
com voz de flauta doce:
"Vou fazer isso, vou fazer aquilo,
vocês têm de confiar neste compatriota..."
Fez? Pois sim, seu Serafim.

Mas essa amiga prometeu e cumpriu:
"Tou de volta em janeiro".
E tá. No Parque do Flamengo;
como anunciara. E um pouco
por toda parte: Iúca
e sua branca floração em cachos.

Temia que não viesses mais,
Iúca. As coisas andam pretas,
e tuas alvas panículas contrastantes
com o negro sobrecenho
deste Rio assustado
podiam parecer provocação.
Mas sorriste do medo.

Chegaste, amiga nossa,
pontual,
lirial,
janeiramente abril.

É consolo, conforto
saber que não mudaste
e restauras em nós a matutina esperança
de ter um dia bonito à nossa frente.
Pronto, ganhei o dia,
só de te ver e de beijar com os olhos
tua florada em forma de turíbulo
ou lâmpada suspensa.

Assim fazem as plantas,
honradas, tranquilas companheiras
neste viver em grupo, conturbado.
Não seguem portarias
nem do Banco Central nem do Conselho
Interministerial de Preços Altos.
Têm seu próprio destino prefixado
(Não correção incerta monetária),
e a ele são fiéis. Fiel Iúca,
a trabalhar de graça para os pobres
olhos da população carente de feijão,
de sossego, de carne e de carinho.
Não tens partido, entre os partidos,
tão repartidos que hoje se emaranham
na tentativa de comprar o passe
de partidários outros e volúveis.
Iúca, tua glória
não resulta de novelas
nem de estádios, palácios, ministérios
de trombeteada fama nacional.
És apenas tu mesma, arbusto digno
que promete florir e cumpre
na hora certa o verde prometido.

Muito obrigado, amiga.
Eu precisava bem deste reencontro.
Nós precisávamos bem deste reencontro.
A folha de rija ponta espiniforme
não molesta ninguém: prepara a flor
inumerável, ofertada
ao dia brasileiro angustiado.

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