É com imenso pesar que noticio a morte de Dércio Marques, ocorrida ontem, 26 de junho, em Salvador.
Saber da notícia foi sentir uma dorzinha funda, dessas que se instalam aos poucos e cresce com a saudade de tudo que significa uma pessoa especial que se foi. Dércio era, na minha infância, a figura da personagem de mundos inéditos, o mágico da palavra, o inaugurador de sonhos, o criador da fantasia e da doçura infantil.
A pessoa dos gestos simples e permeados de ternura, só pode mesmo deixar um adeus com a imagem de um sorriso com olhinhos ternos,
de palavras ditas com amor,
de um canto cantado com ardor sincero,
e de um homem dos cabelos e da alma branquinhos
como a luminosidade de uma estrelinha desnuda, de onde só se vê luz.
Descanse em paz, poeta. Nós que ficamos, permaneceremos embalados com as eternas canções de acalento à alma que nos ofertou. Obrigada por ter passado por aqui.
Agora se vá, entoando "eu não moro mais aqui/nem aqui quero morar/moro na casca da lima/no caroço do juá".
P.S.: Errata: A morte do Dércio foi registrada dia 26 de junho (e não 27), por isso foi feita a alteração na postagem.
Dércio Marques é um compositor, violeiro e cantador natural de Uberaba, Minas Gerais. Defensor entusiasta da natureza, da cultura popular brasileira e do cerrado, pesquisa e produz discos com esses temas. Em 1986, por exemplo, gravou, ainda em LP, Segredos Vegetais, com belíssimos arranjos sonoros feitos com o canto dos passarinhos, o barulho das águas e outros sons da natureza. Já em 2000, compôs um CD todo dedicado às folias brasileiras - inclusive com uma de Patos de Minas.
Além do grande gosto pela natureza, Dércio também é apaixonado pelas crianças. Produziu Anjos da Terra (1990 LP/1993 CD), um disco inteiramente com cadência infantil, pois conta com a participação das vozes doces das crianças, e também com a orquestração de arranjos suaves, cheios de pureza. O CD traz ainda, oportunamente, versões musicadas de alguns poemas infantis de Cecília Meireles, ora interpretadas por ele, ora por vozes femininas doces. Considero Anjos da Terra o seu álbum mais belo e queria muito ter disponibilizado uma canção dele no Brumas, mas infelizmente não foi possível. Além de eu não estar com a discografia do Dércio agora (está em Patos), através da internet tive acesso apenas a uma versão ruim deste CD, na qual todas as canções são cortadas com 1 min. de duração. [Até aproveito para pedir para vocês a versão digital do disco, caso alguém a tenha ou a encontre]. Com as crianças ainda, Dércio e sua irmã Dorothy, que também é cantora e tem os meus gostos dele, gravaram o disco Monjolear (1996). O trabalho foi feito em uma creche de Uberlândia e traz belas canções de roda.
Quis falar do Dércio, pois hoje cantarolei a música "Os carneirinhos" (uma das versões para os poemas de Cecília Meireles) o dia todo, e ela me trouxe boas lembranças da minha infância que, inclusive, tive o enorme prazer de passar um pouco com o cantador. Além de ser excelente e talentosíssimo músico, ele tem um trato raríssimo com as crianças, capaz de tornar tudo no mundo delas mágico e gostoso. Lembro-me certa vez de ele nos colocar (eu, meu irmão e minhas primas-suas filhas) em cima de um fusca velho, nas barras de ferro que alguns tinham para prender as malas, e sair com a gente no meio dos bosques de Itajubá e Pocinhos. Era uma diversão! E me lembro também dele lendo histórias e passando filmes bacanas para nós, que hoje vejo que não esqueci: lembro dele contando a história da mulher lobo e de ter passado a primeira versão do filme AFantástica Fábrica de Chocolate.
Deixo abaixo, para relembrarem ou conhecerem, a música que dá nome ao CD Segredos Vegetais, uma outra do CD Fulejo que conta com a participação de Daniela Lasalvia, e, por fim, uma entrevista com a pessoa bonita de Dércio Marques, concedida a um canal da Bahia, há algum tempo. Também deixo o meu abraço afetuoso e terno a ele, personagem inesquecível da minha infância.