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| Ladder, s/d. |
Ao conhecer esta pintura do polonês Pawel Kuczynski, associei-a ao "Mito da Caverna", descrito por Platão no "Livro VII" de A Républica. Assim como na famosa história do mito, o homem do quadro acima está diante de uma fogueira, se desviando do caminho que o filósofo grego chamou de caminho da Verdade, ou simplesmente, Verdade.
O desvio acontece, neste caso da pintura, porque o homem que nela está, ao contrário de fazer da madeira degraus para uma escada que o leva a vislumbrar outra existência e, conseguintemente, distinta condição, alimenta a trivial fogueira, e, portanto, o mesmo mundo de sombras que ela reflete.
A diferença entre os homens da caverna de Platão e o homem de Ladder está no fato de que este último não se encontra nem em uma caverna, nem acorrentado, embora não deixa também de ser um prisioneiro e ver/viver através de uma luz artificial, por estar no escuro.
A prisão em liberdade, sugerida pelo quadro de Pawel, não é nada reconfortante. A sugestão talvez lembra os conhecedores da autêntica luz, com mais amargura, o errôneo, equivocado e momentaneamente perdido caminho que o homem toma e no qual acaba permanecendo a vislumbrar sombras e não a Luz.
Uma das mensagens a que o discípulo Gláucon tem acesso, quando a ele é exposta boa parte do "Mito da Caverna" em A República, é também de bom tom para arremate da proposta de leitura-mensagem deste quadro. É ela: "Se interpretares a subida e o exame das coisas acima [refere-se a explicação sobre a saída do homem da caverna] como a ascensão da alma à região inteligível, terás captado o que espero transmitir, uma vez que isso é o que querias ouvir. [...] No domínio cognoscível, a Ideia do bem é a última coisa a ser vista, sendo atingida somente com dificuldade; entretanto, uma vez que alguém a tenha contemplado, será imperioso concluir que é a causa de tudo que é correto e belo em quaisquer coisas, que produz tanto a luz quanto sua fonte na região visível e que na região inteligível comanda e gera verdade e entendimento, de sorte que todos que se predispõem a agir com sensatez privada ou publicamente têm dela percepção" (PLATÃO. A República. Trad. Edson Bini. Bauru/SP: EDIPRO, 2006, pp. 310-311).
