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sábado, 31 de janeiro de 2015

Cecília Meireles por ela mesma




                O depoimento abaixo foi o último concedido pela  escritora Cecília Meireles. É hoje considerado a sua última entrevista. Foi concedida meses antes de sua morte, para Pedro Bloch, e publicada na revista “Manchete”, edição nº 630, em 16 de maio de 1964; e posteriormente no livro “Pedro Bloch Entrevista”, Bloch Editores, em 1989.
                          Sou encantada com a Cecília! Porque, no universo literário, considero-a a nossa melhor escritora, e também porque, enquanto pessoa, sou convicta de que ela teve uma vida de trabalhos muito edificantes para o homem, conduzida com o compromisso sério com uma responsabilidade humana - a começar pela sua dedicação à educação infantil, à fundação e manutenção de bibliotecas, além claro, de seu ofício de escritora-poetisa, que, entre tantos atributos, também se prestou seriamente à história lírica de nosso país. 
                          Acho a Cecília uma mulher linda, linda em feições e intenções. Sou leitora incansável de sua obra. Com saudade dela, do seu jeito muito meigo, inteligente, feminino, encantador, poeta e bonito, vim deixar essa entrevista sua, um retrato (de faces lindas, entretanto! - contrário ao poema, rsrs) de sua pessoa.

“Tenho um vício terrível” — me confessa Cecília Meireles, com ar de quem acumulou setenta pecados capitais. “Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.” “Em pequena (eu era uma menina secreta, quieta, olhando muito as coisas, sonhando) tive tremenda emoção quando descobri as cores em estado de pureza, sentada num tapete persa. Caminhava por dentro das cores e inventava o meu mundo. Depois, ao olhar o chão, a madeira, analisava os veios e via florestas e lendas. Do mesmo jeito que via cores e florestas, depois olhei gente. Há quem pense que meu isolamento, meu modo de estar só (quem sabe se é porque descendo de gente da Ilha de São Miguel em que até se namora de uma ilha pra outra?), é distância quando, na realidade, é a minha maneira de me deslumbrar com as pessoas, analisar seus veios, suas florestas.”

Cecília é carioca. Nasceu em novembro, dia de S. Florêncio (filha de Matilde e Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil), em Haddock Lobo, na Rua São Luís. Seriam quatro irmãos, mas nunca chegaram a ser dois sequer, porque, mal nascia um, o outro já tinha morrido. Só ficou Cecília. Perdeu a mãe com três anos e meio, tendo sido criada pela avó, Jacinta Garcia Benevides, da Ilha de São Miguel, Açores, descendente de gente que andou do lado do Infante D. Henrique. A ela dedica Cecília:


Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído...
No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
Modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.


Cecília Meireles: Minha primeira escola foi a Estácio de Sá, que depois passou a Escola Normal, onde me formei. Olhando para trás me sinto uma criança extremamente poética. Em casa de meu padrinho, Louzada, onde brincava, sempre silenciosa e observando-a, via estátuas, pinturas, coleções de pequeninos, objetos e leques em vitrinas, coisas que me levaram a fazer o “Inventário Lírico”.


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Cecília Meireles: Vovó era uma criatura extraordinária. Ex­tremamente religiosa, rezava todos os dias. E eu perguntava: “Por quem você está rezando?” “Por todas as pessoas que sofrem.” Era assim. Rezava mesmo pelos desconhecidos. A dignidade, a elevação espiritual de minha avó influíram muito na minha maneira de sentir os seres e a vida.

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?


Cecília Meireles: Uma das coisas que mais me encantavam em minha vida de infância era o eco que vivia em casa de minha avó. Eu vivia procurando o meu eco. Mas tinha vergonha de perguntar. Recolhida, tímida, deslumbrada, me debruçava no mistério das palavras e do mundo. Queria saber, mas tinha imenso pudor de confessar minha ignorância.


Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.


Cecília Meireles: Terminada a Escola Normal, fui lecionar o primário, ainda com um jeito de menina, num sobrado da Avenida Rio Branco. Ali, na mesma sala, havia duas turmas e duas professoras, a metade voltada para cada lado. Pois as crianças, vendo-me quase tão menina quanto elas, viraram quase todas para mim. Sempre gostei muito de ensinar. Trabalhei na Escola Deodoro, ali junto ao relógio da Glória. Fui professora de Literatura da Universidade do Distrito Federal. Criei a primeira biblioteca infantil, ali onde era o Pavilhão Mourisco. Criança que não tivesse onde ficar podia encontrar o livro que lhe faltava, coleção de selos, moedas, jogos de mesa, sonhos, histórias e as explicações de professoras prontas e atentas. Acabou, depois de quatro anos, mas frutificou em São Paulo onde hoje existe até biblioteca infantil para cegos. Também ensinei História do Teatro na Fundação Brasileira. O resto da minha atividade didática está nas conferências em que sempre procuro transmitir algo.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.


Cecília Meireles: Você sabe que eu tenho muito medo da literatura que é só literatura e que não tenta comunicar?


Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.


Cecília Meireles: Vivo constantemente com fome de acertar. Sempre quase digo o que quero. Para transmitir, preciso saber. Não posso arrancar tudo de mim mesma sempre. Por isso leio, estudo. Cultura, para mim, é emoção sempre nova. Posso passar anos sem pisar num cinema, mas não posso deixar de ler, deixar de ouvir minha música (prefiro a medieval), deixar de estudar, hindi ou o hebraico, compreende?


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Cecília Meireles: Casei com vinte anos. Tenho três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda. As três são bibliotecárias mas a minha biblioteca não está fechada. Maria Fernanda você conhece como atriz, não é mesmo? As três têm em comum uma bondade comovente mas são de temperamentos completamente diferentes. Tenho cinco netos. Viúva, casei em 1940 com Heitor Grilo, um homem admirável pela sua extraordinária fé no ser humano, em sua ânsia de tudo elevar. Basta dizer a você que, nesta primeira e única doença que tive e que me segurou cinco meses, ele não arredou pé, um momento de carinho, gesto e palavra prontos, apesar de suas inúmeras responsabilidades e ocupações. Conheci-o quando fui entrevistá-lo certa vez. Depois... nunca mais o entrevistei. Entendemo-nos até calados.

No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.


Cecília Meireles: Estudei canto e violino. Abandonei. Era preciso ganhar a vida e poesia se pode criar até numa viagem de bonde. Mesmo nas reuniões em que muita gente discutia eu era capaz de me ausentar em meu mundo e construir. Aos poucos pude criar a minha Ilha de Nanja, a São Miguel transfigurada pelo sonho. Acho linda a continuidade humana através da poesia. Só viajo com a Bíblia. A Bíblia é uma biblioteca. Tem tudo: história, poesia, religião. Já disse que, se tivesse que escolher o meu livro para uma ilha deserta, levaria a Bíblia. Ou um dicionário.


Minha esperança perdeu seu nome...
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.


Cecília Meireles: Mas comigo aconteceu uma coisa deliciosa, deixe-lhe contar. Neste Natal eu estava doente em São Paulo. Pois bem. Ao voltar para esta minha casa (Cecília vive ao lado do bondinho que sobe pro Corcovado) encontrei cartões de gente de todos os cantos do mundo que se lembrou de mim. De todas as raças e religiões. Todos unidos pelo Natal. E o mais curioso é que eu olhava um cartão e outro e dizia comigo mesma: “Fulano talvez não combine com Beltrano, mas eu servi de elo entre os dois. A mim eles escreveram!” Me fez um bem enorme aquele meu Natal atrasado!

Na quermesse da miséria,
fiz tudo o que não devia:
se os outros se riam, ficava séria;
se ficavam sérios, me ria.


Cecília Meireles: Se eu inventei palavras? Não. Isto nunca me preocupou. No inventar há um certa dose de vaidade. “In­ventei. É meu”. O que me fascina é a palavra que descubro, uma palavra antiga abandonada e que já pertenceu a tanta gente que a viveu e sofreu! No “Romanceiro do Rio de Ja­neiro”, que estou preparando para o IV Centenário, procuro usar, em cada capítulo, a linguagem da época.


Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...


Cecília Meireles: Tenho amigos em toda parte. Mas sou feito o Drummond que é tão amigo quase sem a presença física. Esse meu jeito esquivo é porque eu acho que cada ser humano é sagrado, compreende? Eu sou uma criatura de longe. Não sei se me querem mas eu quero bem a tanta gente! Sou amiga até dos mortos. Amiga de muita gente que nem conheci. Você não imagina quanta gente eu levo ao meu lado. E fico emocionada quando penso como uma criatura só recebe tanto de tantos lados, de tantas pessoas, de tantas gerações!


Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.


Cecília Meireles: Tenho pena de ver uma palavra que morre. Me dá logo vontade de pô-la viva de novo. “Solombra”, meu novo livro, é uma palavra que encontrei por acaso e que é o nome antigo de sombra. Era o título que eu buscava e a palavra viveu de novo.


Que procuras? Tudo. Que desejas? — Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão. 




Cecília Meireles: Cada lugar aonde chego é uma surpresa e uma maneira diferente de ver os homens e coisas. Viajar para mim nunca foi turismo. Jamais tirei fotografia de país exótico. Viagem é alongamento de horizonte humano.  Na Índia foi onde me senti mais dentro de meu mundo interior. As canções de Tagora, que tanta gente canta como folclore, tudo na Índia me dá uma sensação de levitar. Note que não visitei ali nem templos nem faquires.  O impacto de Israel também foi muito forte. De um lado, aqueles homens construindo, com entusiasmo e vibração, um país em que brotam flores no deserto e cultura nas universidades. Por outro lado, aquela humanidade que vem à tona pelas escavações. Ver sair aqueles jarros, aqueles textos sagrados, o mundo dos profetas. Pisar onde pisou Isaías, andar onde andou Jeremias ... Visitar Nazaré, os lugares santos! A Holanda me faz desconfiar de que devo ter parentes antigos flamengos. Em Amsterdã, passei quinze dias sem dormir. Me dava a impressão de que não estava num mundo de gente. Parecia que eu vivia dentro de gravuras. Quanto a Portugal, basta dizer que minha avó falava como Camões. Foi ela quem me chamou a atenção para a Índia, o Oriente: “Cata, cata, que é viagem da Índia”, dizia ela, em linguagem náutica, creio, quando tinha pressa de algo, chá-da-Índia, narrativas, passado, tudo me levava, ao mesmo tempo à Índia e a Portugal.


Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Cecília Meireles: A babá Pedrina me contava a história do Palácio de Louça Vermelha. Eu achava que devia ser muito fresco viver num palácio assim e, em menina, já estava pronta a transformar um jarro imenso que havia em casa em palácio, quando, querendo escondê-lo de meus sonhos, de tanto procurarem lugar para ocultá-lo, o partiram em mil pedaços. 


Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
— vê que nem te peço alegria.


Cecília Meireles: Viagens, folclore e idiomas são uma espécie de constante em minha vida. Comprei livros e discos de hebraico. Estudei hindi, sânscrito. O desejo de ler Goethe no original me obrigou a estudar alemão. Não estudo idiomas para falar, mas para melhor penetrar a alma dos povos.  
        
Cecília conhece uma meia dúzia de línguas mais.     

 
Cecília Meireles: Meus amigos, é curioso, ou vivem longe ou estão distantes. Minha casa já é contramão.  Gosto de estudar o que me dá conhecimento melhor das pessoas, do mundo, da unidade. Por meio dos idiomas e do folclore, vejo até que ponto somos todos filhos de Deus. A passagem do mundo mágico para o mundo lógico me encanta.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.


Cecília Meireles: Nunca esperei por momento algum na vida. Vou vivendo todos os momentos da melhor maneira que posso. Quero realizar coisas, não para ser a autora, mas para dar-me, para contribuir em benefício de alguém ou de alguma coisa. Quando adoeci e tinha que repousar uma hora depois do almoço, ficava calculando quanto poema deixava de escrever, quanta coisa linda deixava de ler e conhecer naquelas horas perdidas. Mas aprendi também a renunciar. Não tenho poema predileto. Ainda não o escrevi. A intenção é que é perfeita. Às vezes, um poema viaja comigo muito tempo sem ser escrito. Se não lhe dou muita importância, vai embora. Tenho muita pena dos poemas que não escrevo. E também muita dos que escrevo.


E minha alma, sem luz nem tenda,
passa errante, na noite má,
à procura de quem me entenda
e de quem me consolará...


Cecília Meireles: A juventude de hoje? Acho que são meninos que não têm tempo de crescer. Saltam do apartamento fechado para a calçada de mil solicitações, sem armadura, sem objetivo, sem a necessária religiosidade. A vida passa a ser uma coisa zoológica. Muitos crescem zoologicamente. Inventam modas, mas como não têm essência de verdade, as modas não pegam. As frustrações crescem. Felizmente muitos se realizam apesar de tudo. Cada geração acredita que traz uma nova voz e uma nova mensagem.


Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.


Cecília Meireles: A arte abstrata? Nós, pouco a pouco, vamos caminhando para o subentendido, não é? A arte abstrata é uma alusão. Você constrói dentro de si. Muita gente faz coisas com nomes concretos que geram um mundo abstrato e vice-versa.


Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.


Cecília Meireles: Tenho, nos lugares mais diferentes, amigos à minha espera. Você já reparou que, entre centenas, em cada país, nós temos sempre aquela pessoa, que, sem mesmo saber, espera por nós e, quando nos encontra, é para sempre? Por isso é que eu gosto tanto de viajar, visitar terras que ainda não vi e conhecer aquele amigo desconhecido que nem sabe que eu existo, mas que é meu irmão antes de o ser.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Cecília Meireles: Educação, para mim; é botar, dentro do indivíduo, além do esqueleto de ossos que já possui, uma estrutura de sentimentos, um esqueleto emocional. O entendimento na base do amor.

Em prosa Cecília dá lições de grandeza. Vejam como descreve o barquinho Elenita: “parece uma nuvenzinha a correr por um espelho”. E o “Anjo da Noite”: “À noite o mundo é bonito, como se não houvesse desacordos, aflições, ameaças. Há muitos sonhos em cada casa. O gato volta apressado, com certo ar de culpa”. “Chuva com Lembranças”: “Começaram a cair uns pingos de chuva. Tão leves e raros que nem as borboletas ainda perceberam”. Outro: “Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa de jardim zoológico”.

Cecília Meireles: Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul onde costumava pousar um pombo branco. Nos dias límpidos o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e me sentia completamente feliz.
Mas houve épocas em que a janela abria para um canal em que oscilava um barco carregado de flores. Outras em que se abria para um terreiro, sobre uma cidade de giz, para um jardim que parecia morto. Outras vezes abre a janela e encontra um jasmineiro em flor, nuvens espessas ou crianças que vão para a escola, pardais que pulam pelo muro, gatos, borboletas, marimbondos, um galo que canta, um avião que passa. E Cecília se sente completamente feliz. E conclui:  “Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim”.

Olho para Cecília encolhida em sua poltrona, iluminando a penumbra do canto da sala. Vejo-a tão menina olhando o solo e descobrindo na madeira floresta e lendas, deslumbrada de azul! Uma ilha cercada de pontes por todos os lados. Pontes para a ternura, pontes para a poesia, pontes para a alma de cada um. E olhando-a assim, poesia ela mesma, tão alta e tão pura, percebo porque continua a ser a garotinha à procura do eco, correndo por todos os cantos e por todos os deslumbramentos, sem poder recolher o eco da própria voz: nós somos o seu eco, cantamos o seu canto, sem que ela perceba; somos todos um pouco habitantes de sua Ilha de Nanja “onde as crianças brincam com pedrinhas, areia, formigas”. “Solombra”, a última obra de Cecília, quer dizer só sombra. Cecília, para nós. é só luz.  

Disponível online em: http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/a-ultima-entrevista-de-cecilia-meireles

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Oratório de Santa Maria Egipcíaca

PREFÁCIO

A autora

        A autora confessa-se uma enamorada do Flos Sanctorum. Há temperamentos insatisfeitos com as simples grandezas terrenas, que, em geral, se detêm na fronteira do heroísmo. Para esses, não parece impossível que o esforço humano consiga ultrapassar esse horizonte, e atinja o mundo longínquo da santidade. São esses temperamentos que facilmente seguem a rota da lenda, invertendo-a, vivendo-a ou pelo menos caminhando por ela. É muito difícil, em certos casos, separar-se o histórico do lendário. O Flos Sanctorum é uma região de transfigurados, aprazível de percorrer, com seus inumeráveis exemplos de esperança. 
         Falo da autora em primeiro lugar porque um dos seus sonhos de adolescente foi escrever um Oratório do Apóstolo São Paulo. Mas São Paulo é tão veementemente histórico que a menina que estudou música pelo desejo de dar forma ao seu sonho, diante das responsabilidades que tinha a enfrentar, deteve-se, com moderação e humildade.
             O Pequeno oratório de Santa Clara e o Romance de Santa Cecília escritos muito mais tarde a dar notícia de seus passeios pelo Flos Sanctorum - mas cerca de dez anos, quando se ocupava do teatro de bonecos, a autora programara uma série de esboços dramáticos, de que pouco a pouco se vem desincumbindo, todos eles referentes a episódios do Flos Sanctorum.

O poema

               A história de Santa Maria Egipcíaca chama a atenção dos leitores de vidas de santos quase sempre pelo episódio da travessia do rio, pela versão de ter a santa pago a passagem com seu corpo, movida pelo ardente desejo de ir a Jerusalém. É, na verdade, um episódio de impressionante grandeza. Mas, em outra versão, Santa Maria Egipcíaca, instalada em Alexandria desde a adolescência, e levando vida impura (que um estudo da época e do lugar ajudaria a compreender), não teria feito esse ajuste por inspiração mística, mas, ao contrário, com o fim de tentar com a sua sedução os peregrinos que a Jerusalém se dirigiam para as festas da Santa Cruz.
           À autora, não é esse episódio - embora reconhecendo a força do imprevisto que ele encerra - o que mais impressiona. O que impressiona é a sua própria santidade. Sem martírio, sem milagres, sem coisas extraordinárias a não ser a sua levitação sobre as águas, o leão final que lhe abre a cova no deserto e a cobre de terra, Santa Maria Egipcíaca é a penitente. Seu problema é "interior", seu "martírio", seu "milagre" como sua glória decorrem nesse tempo oculto da alma, esse lugar oculto. A "voz" que no poema parece uma advertência divina pode ser o seu próprio instinto de santidade em luta com circunstâncias que lhe impõem um comportamento contraditório. E quando a pecadora Maria acorda energicamente para uma vida nova, acorda "por si mesma", por sentir seus passos pesados e sua voz indigna. (Claro que não queremos nem defender para ela uma posição de orgulho nem tratar do problema da Graça).
           Foi dentro dessa perspectiva, pois, que o poema se formou. Se ele por si não o deixa claro, a autora gostaria de acentuar aqui a sua intenção: o processo de transformação da pecadora. A clareza da sua consciência no Mal e no Bem. Sob o nítido céu do Egito, quase se vê desenhada como um triângulo essa vida singular, límpida e geométrica na sua edificação. Talvez mesmo o ápice desse triângulo não esteja no deserto, onde a penitência desliza em miragens de um passado que se desmorona com certa felicidade melancólica. Talvez o ápice esteja na Terra Santa, na irrecusável conversão. E não sei que elo íntimo associa esse instante de Maria Egipcíaca ao instante análogo na vida de Saulo em Damasco - mas talvez a autora confusamente o sentisse, ao cuidar da Santa, tendo um dia sonhado cuidar do Apóstolo.
      A autora reconhece não só sua inexperiência em composições dramáticas como, especialmente neste caso, a dificuldade em dar forma "exterior" a um drama tão íntimo e arcaico. Mas seu propósito não foi fazer história nem propriamente teatro - mas um poema que, perdida a forma narrativa, assume a forma representada, e pode, talvez, converter-se em espetáculo. Sobretudo porque a autora o sentiu "musicalmente", construído nessa harmonia do acontecimento - que lhe afigura exato como um teorema.
         Talvez a linguagem usada seja um pouco excessiva: quem sabe, porém, como falaria essa adolescente impetuosa que deixa a família para levar tão perigosa vida em Alexandria; e se propõe seduzir os peregrinos que vão à Terra Santa; e "sente" tão profunda vergonha diante de Deus que, antes dos quarenta anos, escolhe o deserto e o silêncio, e é enterrada por um leão? Nesse clima de exaltação talvez se possa admitir uma linguagem exaltada. A autora reconhece tudo isso e muito mais - e pede desculpas de não ter podido fazer melhor - como desejaria.
                                                                                                    Cecília Meireles 


[...]
MARIA EGIPCÍACA
Fala    Senhor, Senhor, Senhor, eu sou Maria,
            aquela do porto de Alexandria,
            que desde menina vivo dedicada 
            a amar quem passa pela cidade.
            Como posso cantar para a Eternidade,
            se a minha vida é só para breves instantes?
            E como poderei amar a Divindade,
            se apenas mortais têm sido os meus amantes?
            Senhor, eu não sou romeira nem peregrina, 
            eu sou a que fugiu de casa, quando era menina,
            a que era tão leve, tão bela e graciosa
            que nem a palmeira, que nem a brisa, que nem a rosa.
            Não posso mais levantar meu rosto para o rosto
            daqueles que deixei desesperados de desgosto,
            como o levantarei para tua Face, que é divina?
           Senhor, não posso dar um passo para frente!
           Sinto nos pés a força de uma severa corrente
           e não consigo acompanhar toda essa gente
           que canta seus hinos diante de Ti ajoelhada...
           Mas eu amei quando pude, amei por amar, mais nada.
           Deixe-me ir para trás, ao menos, para o deserto,
           aprender o que está errado e o que está certo,
           e voltarei, talvez, se conseguir um dia chegar perto
           de Ti, Senhor, e iluminada!

VOZ MÍSTICA
Canta  Vai para esse deserto que escolheste, penitente,
             e abre teu coração à luz Onipotente
            que desce em silêncio dos quatro horizontes.
            Banha-te nessas douradas fontes,
            e aquele grande fogo que consumia 
            tua vida em Alexandria,
            verás cair de teu corpo como um vestido encarnado,
            e estarás para sempre perfeita e livre do vil pecado!


                                    IV. Cenário do deserto

VOZ DESCRITIVA
Fala   E Maria levou uns cinquenta anos sozinha
          em penitência pelo deserto.
          Nada mais possuía, nada mais tinha
         além de seu velho corpo, pela cabeleira coberto.
         Um pobre corpo como no inverno a cepa da vinha.
         Os 4 Evangelhos sobre os 4 ventos
         vinham trazer-lhe seus ensinamentos.
         E nem comia nem bebia,
         Maria de Alexandria,
         nem acordava nem dormia,
         e sua vida estava suspensa
         entre o alto céu e a ânsia imensa,
         alimentada só por um celeste rossio.
         E às vezes caminhava por cima das águas do rio.

[...]
VOZ DESCRITIVA
Canta  Zósimo passava 
            pelo deserto
           quando viu um vulto que se aproximava.

[...]
MARIA EGIPCÍACA
Canta  Zósimo, grava na tua memória
            os quatro instantes da minha história:
            a menina enganada,
            a pecadora reclinada,
            a romeira subitamente esclarecida,
            e esta que morre e só na morte encontra a vida.
[...].


MEIRELES, Cecília. Oratório de Santa Maria Egipcíaca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, pp. 58-69.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cântico

 XXVI

O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste breve,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...


MEIRELES, Cecília. Cânticos. 3 ed. São Paulo: Moderna, 2003. p. 61.


P.S.: Considero o livro Cânticos, da Cecília Meireles, o mais belo entre todos os seus. Grande parte desta minha atribuição, repousa no fato de os poemas deste livro possuírem, todos, uma sutil e, ao mesmo tempo, intensa espiritualidade. Cecília poetiza o sublime. Faz isso ainda advertindo o homem, com seu jeito cadente e leve, sobre as agruras mundanas e a essência divina.
Como falávamos em experiência poética na postagem anterior, fica a oportunidade de vivê-la com este poema, que é muito mais poesia.