domingo, 30 de outubro de 2011

Clube da Esquina





Hoje foi dia de saudade do Clube da Esquina. Na minha recordação saudosa, resgatei algumas músicas e conferi uma entrevista que o Charles Gavin (ex- Titãs) fez com a turma de músicos no seu programa O som do vinil, veiculado no Canal Brasil. Como na maioria dos casos as entrevistas com músicos são muito espontâneas e divertidas, e através delas é possível conhecer mais das experiências e histórias deles, compartilho com vocês a agradável conversa do Charles Gavin com os músicos do Clube da Esquina - ver o vídeo da entrevista logo abaixo.

O LP de 72 do Clube é o meu favorito. E nele, no "Lado Dois", a faixa 5 é a famosa "Clube da esquina 2", composta pelo Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges e, no "Lado Quatro", a faixa 3 é a "Trem de doido", composta por Lô Borges e Márcio Borges. Gosto muito dessas músicas. A primeira delas, a "Clube da Esquina 2", também foi interpretada pelo Flávio Venturini, quem é amigo da turma. A versão do Venturini é muito bonita e para lembrar sucessos do Clube, deixo a faixa 5 na voz dele e a faixa "Trem de doido"- vídeos após a entrevista.

Saudade da música desse grupo de mineiros! 










Fragmentos (7)

Foto de uma das cenas do filme E La Nave Va (Itália, 1983, Fellini).


Você fala sempre de minha voz.
Mas, por vezes, tenho quase a certeza que não é minha.


Eu sou uma garganta, 
um diafragma,
um sopro.


Não sei de onde vem a voz.


Sou só um instrumento 
Uma simples moça, 
que até tem medo desta voz,
porque toda a vida 
me obrigou a fazer o queria.


[Fala citada da falecida Edmea Tetua, cantora lírica personagem do filme E La Nave Va (Itália, 1983) de Federico Fellini. Durante toda a história, uma tripulação de cantores de ópera estão levando as cinzas de Edmea à ilha de Erimo. Na oportunidade, recordam-se das interpretações feitas pela cantora e das suas relações com a muito admirada Edmea].

Poemas (1)

                       LXIX                                                                                        LXIX


Di donne io vidi una gentile schiera                           Vi umas damas em gentil fileira
questo Ognissanti prossimo passato,                        (Dia de Todos os Santos passado)
e una ne venia quasi imprimiera,                               e vinha uma delas como primeira,
veggendosi l'Amor dal destro lato.                            tendo o Amor à direita, do seu lado.


De gli occhi suoi gittava una lumera,                        Tinha o lume nos olhos por bandeira,
la qual parea un spirito infiammato;                         parecendo um espírito incendiado;
e i' ebbi tanto ardir, ch'in la sua cera                         tive a audácia de olhar a luz inteira
guarda', [e vidi] un angiol figurato.                           e nela vi um anjo figurado.


A chi era degno donava salute                                    E ela saudava a quem o merecesse
co gli atti suoi quella benigna e piana,                    em forma delicada e mais-que-humana,
e 'mpiva 'l core a ciascun di vertute.                         como se o Bem a eles concedesse.


Credo che de lo ciel fosse soprana,                            Talvez fosse do céu a soberana,
e venne in terra per nostra salute:                            que para nos salvar a nós descesse:
là 'nde'è beata chi l'è prossimana.                             de amor quem vai com ela se engalana.


ALIGHIERI, Dante. Dante: Lírica. Trad. Jorge Wanderley. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996, pp. 100-101.

domingo, 16 de outubro de 2011

Entrevista com Zygmunt Bauman

Semanalmente, a CPFL, empresa de distribuição de energia do interior de São Paulo, através do seu programa CPFL Cultura, oferece eventos culturais em Campinas, cuja programação pode ser conferida neste site. Palestras, debates, apresentações de música erudita, teatro e cinema são algumas das atrações proporcionadas pela companhia. 

Essas atrações, na sua dominante maioria, são relacionadas aos assuntos e problemáticas da chamada pós-modernidade. Por essa razão, em julho deste ano, a CPFL Cultura fez uma entrevista com uma das referências indispensáveis dos comentadores das questões do mundo contemporâneo, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. A equipe do programa viajou até Leeds, na Inglaterra, e entrevistou Bauman na sua casa. Na oportunidade, o sociólogo falou sobre o universo das redes sociais, da democracia e dos limites nos quais os laços humanos chegam nesta época da "flexibilização cada vez maior das relações", como caracterizou o próprio Bauman, autor de já dois títulos relacionados a essa temática: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos e 44 Cartas ao Mundo Líquido Moderno

Abaixo, a entrevista com Zygmunt Bauman.

  

sábado, 15 de outubro de 2011

Fragmentos (6)




    Agora raciocinemos no que você fala de minha influência sobre você. Em última análise tudo é influência neste mundo. Cada indivíduo é fruta de alguma coisa. Agora, tem influências boas e tem influências más. Além do mais se tem que distinguir entre o que é influência e o que é revelação da gente própria. Muitas vezes um livro revela pra gente um lado nosso ainda desconhecido. Lado, tendência, processo de expressão, tudo. O livro não faz que apressar a apropriação do que é da gente. Digo isso pra você se sossegar nesse ponto. Eu sofri muito com isso, Drummond. Via em mim influências dos outros, queria tirá-las e ficava sem nada. Mas aquela frase da Pauliceia não saiu ao atá, não. "Sinto que o meu copo é grande demais e ainda bebo no copo dos outros." Não tem dúvida que você faz coisa da mesma categoria que a minha. Ora, mesma categoria implica uma identidade qualquer. O que carece é você não ver influência nessa identidade, mas resultância da mesma categoria. Se os meus exemplos declancharam alguma coisa em você, se lembre sempre que você nunca me olhou com mimetismo nem servilismo graças-a-Deus, porém me critica, me pesa, escolhe e ama o que é também seu. Amor, no sentido geral, isto é, isento de sexualidade, é uma questão de espelho. Este mundo está cheio de Narcisos. Nós todos. Sobre influência ainda queria escrever páginas. Só digo isto. Fuja dos processos muito pessoais de exteriorização dos outros. Nunca fuja de influências espirituais. Elas nos determinam a nossa categoria, desde que criticadas. Se você já tem coragem de escrever "de repentemente" tão brasileiramente, lembre que isso não é meu nem de ninguém, é brasileiro. Eu, adverbiando por demais na Pauliceia, inconscientemente segui uma tendência muito auriverde. "Parisanatolefrance" não gosto. Isso sim pela extravagância pode cheirar mário-de-andrade. Quanto a você começar a se interessar por coisas brasileiras, se lembre que eu não fui nem sou o primeiro nacionalista da nossa literatura. Eu se tenho algum mérito é que em vez de pregar só, fazer idealismo, fazer teoria, tal qual Gonçalves Dias, tal qual Graça Aranha, fazer regionalismo, tal qual Veríssimo ou Lobato, agi prático, não prego faço, pelo muito de brasil que eu tenho desta merda de Brasil. Se lembre daquele passo do meu artigo sobre Osvaldo (Revista do Brasil) em que eu dizia isso e disse bem.
    Você me desculpe eu falar tanto de mim. Mas eu não posso tirar exemplo da vida dos outros. E também por vaidade não gosto de fazer proselitismo. Então pros mais amigos me conto. Eles que meçam a alma deles pela minha. E se eduquem e se engrandeçam mais do que eu. Sem humildade: isso é uma coisa bem fácil. E depois com os da nossa casa eu não sou o escritor Mário de Andrade. Sou o aluno Mário de Andrade que também aprendo. Como sou mais velho resolvi já algumas equações. Então, mostro não o resultado, mas como fiz elas. E depois, Drummond, quando a gente se liga assim numa amizade verdadeira tão bonita, é gostoso ficar junto do amigo, largado, inteirinho nu. As almas são árvores. De vez em quando uma folha da minha vai avoando poisar nas raízes da de você. Que sirva de adubo generoso. Com as folhas da sua, lhe garanto que cresço também. 

(Parte de uma das cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade)


ANDRADE, Mário de. A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: Record, 1988, pp. 44-45.

À Aldous Huxley e H. G. Wells






Cérebro Eletrônico
Compositor: Gilberto Gil

O cérebro eletrônico faz tudo,
Faz quase tudo
Mas ele é mudo.

O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda.

Só eu posso pensar
Se Deus existe
Só eu.
Só eu posso chorar
Quando estou triste
Só eu.

Eu cá com meus botões
De carne e osso
Eu falo e ouço
Eu penso e posso.

Eu posso decidir
Se vivo ou morro por que
Porque sou vivo
Vivo pra cachorro e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
No meu caminho inevitável para a morte.

Porque sou vivo
Sou muito vivo e sei
Que a morte é nosso impulso primitivo e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus olhos de vidro.