sábado, 25 de março de 2017

"Pós-capitalismo"

            Iniciei a leitura de Pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro de Paul Mason, autor natural de Leigh, Inglaterra. O livro já tem se prefigurado uma leitura fundamental. Pós-capitalismo discute a presente falência do capitalismo e do neoliberalismo no cenário global; realiza um panorama da vida atual pautada na tecnologia da informação - e em que medida as redes contribuíram para a dissolução das instituições do capitalismo; e revela, por fim, as contradições existentes nos projetos políticos atuais em, de um lado (predominantemente de direita), esforçar-se em manter o projeto falido neoliberal, e, de outro (predominantemente de esquerda), aspirar suprimi-lo por completo. As revelações de Mason objetivam lançar coordenadas mais precisas para as rotas que pessoas, movimentos e partidos têm empreendido atualmente.
            Em sua "Introdução", o autor é peremptório: "as tecnologias que criamos não são compatíveis com o capitalismo". A informática "tem a tendência espontânea de dissolver mercados, destruir propriedade e romper a relação entre trabalho e salários". Mason explica que toda uma subcultura de negócios emergiu nos últimos dez anos, e hoje, "territórios inteiros de vida econômica estão começando a se mover num ritmo diferente. Moedas paralelas, bancos de tempo, coletivos e espaços autogeridos proliferam, quase despercebidos pela profissão econômica, e frequentemente como resultado direto do esfalecimento de velhas estruturas depois da crise de 2008".
        Mason cita três impactos da nova tecnologia nos últimos 25 anos que foram/têm sido/são responsáveis pelas contínuas abolição do capitalismo e a insurreição do pós-capitalismo. "Primeiro", explica ele, "a informática reduziu a necessidade de trabalho, obscuresceu as fronteiras entre trabalho e tempo livre, afrouxando a relação entre trabalho e salários; segundo, os bens de informação estão corroendo a capacidade do mercado de formar preços corretamente. Isso porque os mercados se baseiam na escassez, ao passo que a informação é abundante. O mecanismo de defesa do sistema é formar monopólios numa escala vista nos útimos duzentos anos - no entanto, eles não podem durar; terceiro, estamos assistindo à ascensão espontânea de produção cooperativa: estão aparecendo bens, serviços e organizações que não mais respondem aos ditames do mercado e da hierarquia gerencial. O maior produto de informação do mundo - a Wikipédia - é feito por 27 mil voluntários, de graça, abolindo o comércio de enciclopédias e privando a indústria publicitária de uma receita anual estimada em 3 bilhões de dólares." A informática estabeleceu a produção cooperativa, e essa rota é para fora do sistema de mercado.
          Paul Mason estima que embora esse perurso já venha se cumprindo de algum modo, atualmente o pós-capitalismo coexiste com o sistema de mercado, e é bem possível que isso perdure por décadas ainda. Ele argumenta: "a transição envolverá o Estado, o mercado, e a produção colaborativa que está fora do mercado". Para vencer a fossa neoliberal e aos poucos irmos adotando um novo sistema de vida, Mason defende a urgência de um novo projeto. É necessário um novo projeto pós-capitalista, mas não (ou, pelo menos, não somente) mais, com as propriedades neoliberais ou radicalmente opostas a essas - do modo como os dois polos dos partidos políticos continuam anacronicamente a reivindicar em queda de força.
              Mason revela as fraturas existentes em ambas as posições e no projeto neoliberal como um todo."O neoliberalismo é a doutrina de mercados sem controle: ele diz que o melhor caminho para a prosperidade é indivíduos buscando o interesse próprio, e o mercado é o único meio de expressar esse interesse. Ele diz que o Estado deve ser pequeno; que a especulação financeira é boa; que a desigualdade é boa; que o estado natural da humanidade é ser uma horda de individuos sem escrúpulos, competindo uns com os outros. Seu prestígio repousa em feitos tangíveis: nos últimos 25 anos, o neoliberalismo suscitou o maior surto de desenvolvimento que o mundo já conheceu e desencadeou um progresso exponencial em tecnologias centrais de informação. Mas, no processo, ele reavivou uma desigualdade próxima à situação de cem anos atrás e agora originou uma situação de luta pela sobrevivência". Por outro lado, "o objetivo da velha esquerda era a destrução forçada dos mecanismos de mercado. A força seria exercida pela classe trabalhadora, fosse na urna eleitoral ou nas barricadas. A alavanca seria o Estado. A oportunidade seria propiciada por frequentes episódios de colapso econômico. Em vez disso, ao longo dos últimos 25 anos, foi o projeto da esquerda que entrou em colapso. O mercado destruiu o plano; o individualismo substituiu o coletivismo e a solidariedade; a força de trabalho expandida massivamente no mundo parece um "proletariado", mas não mais pensa e age como um." Estamos diante de um fato já incontornável "a tecnologia criou uma nova rota de saída, que os remanescentes da velha esquerda têm de abraçar ou morrer" e os neoliberais admitir a falência - portanto, improcedência - do sistema. Estamos diante da necessidade de reconfiguração dos projetos.
                 Para Paul Mason, "não é mais de um plano que precisamos, mas de um projeto modular"; "o projeto do mundo pós-capitalista, como no caso dos softwares, pode ser modular. Diferentes pessoas podem trabalhar nele em lugares diversos, a velocidades distintas, com relativa autonomia em relação umas às outras". "Temos que nos basear em micromecanismos, não em programas de diretrizes; tem que funcionar espontaneamente." Ele justifica a eficiência desse plano: "a principal contradição hoje é entre a possibilidade de criar bens e informações livres e um sistema de monopólios, bancos e governos tentando manter as coisas privadas, escassas e comerciais. Tudo se resume à refrega entre rede e hierarquia, entre velhas formas de sociedade moldadas em torno do capitalismo e novas formas de sociedade que prefiguram o que vem em seguida".
              Sem tomar partido, Paul Mason argumenta pela necessidade de "um projeto coerente baseado na razão, na evidência e em esquemas testáveis; um projeto que esteja de acordo com a história econômica e seja sustentável em termos do nosso planeta". Pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro é um livro no qual o seu autor realiza o mesmo exercício dos intelectuais autores das fições utópicas do gênero literário-político da utopia. Tal qual outrora seus maiores expoentes ingleses, autor e obra põe a questão: "por que deveríamos, na qualidade de seres inteligentes, deixar de formar um retrato da vida ideal, da sociedade perfeita?". Como imortalizado por Eduardo Galeano, as formulações utópicas são indispensáveis porque seu papel de formular projetos faz o sistema caminhar. Ler, debater e projetar saídas, revelando os erros atuais, são atividades indispensáveis para irmos na direção de uma ordem de mundo melhor.
              A revelação das contradições das diferentes condutas que pessoas, partidos políticos e movimentos sociais estão assumindo nesse contexto de falência do neoliberalismo e institucionalização de um novo 'organum civil' pautado nas redes, as implicações possíveis (ou mais previsíveis) disso, é uma tarefa de enorme relevância, e está, no livro, cheia de alguma ou outra contribuição para se formular novas coordenadas para o futuro.
                    Está aí uma obra utópica moderna. Esta aí uma boa e proveitosa leitura!

Livro: Paul Mason. Pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro. Trad. José Geraldo Couto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. 

sábado, 18 de março de 2017

Criação animal industrial: a carne "podre"

                 O que é ter a hegemonia do mercado da carne!... Li inúmeras matérias, em diferentes canais midiáticos, sobre a polêmica do dia: a comercialização de carnes alcunhadas "podres". A maioria, propositalmente, deixou omissos nas siglas BRF e JBS, os nomes das empresas pelas quais respondem popularmente, e se virou como pôde, para diminuir o choque horrorizante das revelações incontornáveis. Pois, se não sabem, fiquem sabendo que, senão todas e as maiores indústrias de carne, aquelas mais consumidas e populares participam do comércio de animais doentes. O frigorífero BRF é dono das marcas Sadia e Perdigão, e o JBS, da Seara, Swift, Big Frango e Friboi (quem ficaria de fora?!). O envolvimento das maiores etiquetas de consumo revela que: a carne que a maioria do brasileiro consome regularmente é carne "podre". 
            Mas não se engane também achando que isso é um defeito da indústria ou dos orgãos de supervisão alimentar do país. De acordo com um dos estudos mais sérios existentes sobre criação animal industrial (e desde 2011 com tradução brasileira e versão em livro pela Rocco, intitulado "Comer Animais", do norte-americano Jonathan Safran Foer), essa é a realidade da criação industrial (sobretudo aviária) de todos os grandes centros hoje. 
              A polêmica do dia me aludiu à questão séria da criação animal industrial. Trouxe à mente as sérias revelações de Froer, que toca tanto na questão da qualidade da carne, como da relação com as contaminações e patogenias humanas modernas - muitas indecifráveis. Gostaria de compartilhá-las. 
             A partir delas, se verá que o problema está longe de ser algo ocasional ou local; toma parte da questão seríssima, há muito problema de sustentabilidade mundial de pauta prioritária - embora, ainda muito dissimulada por causa dos lobbys e da hegemonia mercantil, como o da industria farmacêutica - da criação animal industrial.
       Voz a mais um daqueles mártires da informação honesta e estudada, mas sufocada pela hegemonia das grandes corporações.


J. Safran Froer em "Comer Animais":
"No início do século XX, os animais ainda eram em grande escala criados em fazendas e ranchos mais ou menos da mesma maneira de sempre - e como a maioria das pessoas continua a imaginar que sejam. Não havia ocorrido ainda aos fazendeiros tratar os animais vivos como se estivessem mortos. [...] 
Em 1923, na Península Delmarva (que compreende os estados de Delaware-Maryland-Virginia), um pequeno e quase cômico incidente aconteceu com uma dona de casa de Oceanville, Celia Steele, e deu início à indústria aviária moderna e à aberração global da criação intensiva. Steele, que cuidava do pequeno bando de galinhas de sua família, contou ter recebido uma encomenda de quinhentas galinhas em vez das cinquenta que havia requisitado. Em vez de se livrar delas, decidiu experimentar manter as aves num local fechado durante o inverno. Com a ajuda dos recém-descobertos suplementos alimentares, as aves sobreviveram, e o arco das experimentações de Steele continuou. Em 1926, ela possuía dez mil aves, em 1953, 250 mil. (Em 1930, o tamanho médio dos bandos ainda era de apenas 23).
Apenas dez anos depois da descoberta de Steele, a Península Delmarva era a capital mundial da criação de aves. O Condado de Sussex, em Delaware, hoje produz, por ano, mais de 250 mil aves destinadas ao abate, quase o dobro do que qualquer outro condado no país. A produção de aves é a principal atividade econômica da região e a principal fonte de sua poluição. (O nitrato contamina um terço de todos os lenções d'água das áreas agrícolas de Delmarva). [...]
Em 1946, a indústria aviária voltou os olhos à genética e, como a ajuda da USDA, lançou um concurso para a "Galinha do Futuro", a fim de criar uma ave que produzisse mais carne de peito com menos alimentação. [...] Os anos 1940 também viram a introdução de drogas à base de sulfa e antibióticos na alimentação das galinhas, o que estimulava o crescimento e controlava as doenças causadas pelo confinamento. Regimes alimentares e de drogas foram progressivamente desenvolvidos em conjunto com as novas "galinhas do futuro". Na década de 1950, já não havia mais uma "galinha", mas duas distintas - uma para ovos, outra para carne.
A própria genética das aves, tanto quanto sua alimentação e ambiente, era agora manipulada para produzir quantidades excessivas de ovos (poedeiras) ou de carne, especialmente de peito (de corte). [...] Essas alterações genéticas das galinhas não foram uma mudança entre outras: determinaram como as aves poderiam ser criadas. Com as novas alterações, as drogas e o confinamento eram usados não apenas para aumentar os lucros, mas porque as aves já não poderiam mais ser "saudáveis" ou até mesmo sobreviver sem eles. 
Pior do que isso, essas aves geneticamente grotescas não passaram a ocupar apenas uma fatia da indústria - são agora praticamente as únicas galinhas criadas para consumo. Havia, no passado, dezenas de diferentes raças de galinhas criadas nos EUA (Jersey Giants, New Hampshire, Plymouth Rock), todas elas adaptadas ao ambiente da região. Agora temos galinhas industriais.
Nas décadas de 1950 e 1960, empresas aviárias começaram a atingir uma completa integração vertical. Possuíram o 'pool' genético (hoje, duas companhias são donas de três quartos da genética de todas as galinhas de corte no planeta), as próprias aves (os fazendeiros só cuidavam delas, como conselheiros num acampamento), as drogas necessárias, a comida, o abate, o processamento e as marcas disponíveis no mercado. Não eram apenas as técnicas que haviam mudado: a biodiversidade foi substituída pela uniformidade genética, departamentos universitários de criação de animais se tornaram departamentos de ciência animal, um negócio outrora dominado por mulheres era agora tomado pelos homens, e fazendeiros competentes foram substituídos por funcionários assalariados, trabalhando sob contrato. [...]
A criação industrial foi mais um evento do que uma inovação. Agentes de segurança ocuparam os pastos, sistemas de confinamento intensivo com múltiplas fileiras se ergueram onde antes estavam os estábulos, e animais modificados geneticamente - aves que não podiam voar, porcos que não tinham condições de sobreviver do lado de fora, perus que não conseguiam se reproduzir naturalmente - substituíram o outrora familiar elenco do terreiro. [...]
É difícil visualizar a magnitude de 33 mil aves num mesmo ambiente. Não precisa ver por si mesmo, nem sequer fazer as contas, para entender que as coisas por ali ficam bastante amontoadas. Em suas Normas para o Bem-Estar Animal, o National Chicken Council (Associação Nacional do Frango) indica a densidade de criação apropriada de oito décimos de um pé quadrado por ave. É isso o que uma das principais organizações representantes dos produtores de frango considera bem-estar animal, o que nos mostra o quão completamente cooptadas as ideias do que seja bem-estar se tornaram - e por que não podemos confiar nos rótulos que vêm de todos os lugares, exceto de uma terceira fonte confiável.
Vale a pena parar aqui por um instante. Embora muitos animais vivam com bem menos, vamos partir do pressuposto de menos de um pé quadrado. Tente visualizar. (É improvável que algum dia você veja pessoalmente o interior de uma granja, mas há muitas imagens na internet se a sua imaginação precisa de ajuda.) Pegue uma folha A4 para impressora e imagine uma ave adulta, com formato semelhante ao de uma bola de futebol americano com patas, de pé sobre a folha de papel. Imagine 33 mil desses retângulos numa grade. (Frangos de corte nunca ficam em gaiolas e nunca em vários níveis. ) Agora, coloque a grade dentro de paredes sem janelas, com um ventilador no teto. Insira nesse cenário sistemas de alimentação (guarnecida com drogas), água, aquecimento e ventilação. Isso é uma granja. [...]
Algo entre 1% e 4% dessas aves morrerão retorcendo-se em convulsões devido à síndrome da morte súbita, uma doença quase desconhecida fora de criação intensiva. Outra doença induzida por essas granjas industriais, em que o excesso de fluidos enche a cavidade corporal, a ascite, mata ainda mais (5% das aves do mundo). Três a cada quatro aves terão algum grau de defeito ao caminhar, e o senso comum sugere que sentem dor crônica. Uma a cada quatro terá tantos problemas ao caminhar que não há dúvidas de que sentirá dor. [...] Desnecessário dizer que aves comprimidas, deformadas, drogadas e com estresse demais num lugar fechado, imundo e forrado de excrementos não vivem em situação muito saudável. Além das deformidades, danos aos olhos, cegueira, sangramento interno, infecção bacteriana dos ossos, vértebras deslocadas, patas e pescoços tortos, doenças respiratórias e sistema imunológico enfraquecidos são problemas frequentes e duradouros em granjas industrias. Estudos científicos e registros do governo sugerem que praticamente todas as galinhas (mais de 95%) acabaram infectadas pela E. coli (um indicador de contaminação fecal), e entre 39 e 75% delas ainda continuarão infectadas na comercialização. Cera de 8% das aves têm infecção por salmonela. Entre 70 e 90% são infectadas por outro patógeno potencialmente mortal, o campilobacter. Banhos de cloro são comumente usados para remover o muco, o odor e as bactérias.
Claro, os consumidores talvez percebam que o sabor de suas galinhas não anda muito bom - e como poderia um animal entupido de drogas, doente e contaminado por merda ter gosto bom? - mas "caldos" e soluções salinas serão nelas injetados, colocados de algum modo, no interior de seus corpos, para deixá-los com o que passamos a considerar o aspecto, o cheiro e o gosto de galinha. (Um estudo recente da Costumer Reports descobriu que produtos feitos com carne de galinha e de peru, muitos deles rotulados como 'naturais', "continham de 10 a 30% de seu peso em caldo, condimentos ou água.)
Falei com numerosos funcionários responsáveis por apanhar os frangos, pendurá-los e matá-los que descreveram aves vivas e conscientes indo para o tanque de escaldamento. Já que fezes na pele e nas penas terminam nos tanques, as aves saem cheias de patógenos que podem ter inalado ou absorvido através da pele (a água quente dos tanques ajuda a abrir os poros).
Depois que as cabeças das aves são arrancadas e seus pés removidos, máquinas as abrem com uma incisão vertical e removem suas entranhas. A contaminação com frequência acontece nessa etapa, já que as máquinas de alta velocidade comumente rasgam os intestinos das aves, liberando fezes para o interior da cavidade corporal. No passado, inspetores do USDA tinham que condenar qualquer ave com qualquer tipo de contaminação fecal. Mas, há cerca de trinta anos, a indústria aviária convenceu o USDA a reclassificar fezes para poder continuar usando esses evisceradores mecânicos. [...] "A cada semana", relata um inspetor USDA, "milhões de galinhas com pus amarelo escorrendo, manchadas por fezes verdes, contaminadas por bactérias nocivas ou prejudicadas por infecções pulmonares e cardíacas, tumores cancerígenos ou problemas de pele são enviadas aos consumidores." 
O que descrevi não é excepcional. Não é o resultado de trabalhadores masoquistas, de maquinário defeituoso ou de "maçãs podres". É a regra. Mais de 99% de todas as galinhas vendidas por sua carne vivem e morrem desse jeito. 
Os vírus atuais da gripe aviária, da gripe suína ou os da gripe espanhola de 1918 não são a verdadeira influenza - não a influência subjacente -, mas apenas seu sintoma.
Poucos de nós ainda acreditam que as pandemias são criações de forças ocultas. Será que devemos considerar a contribuição de cinquenta bilhões de aves adoentadas e drogadas - primordial de todos os vírus dessas gripes - uma influência subjacente que impulsiona a criação de novos patógenos que atacam os humanos? E quanto aos quinhentos milhões de porcos com sistema imunológico comprometido, mantidos em confinamento?
Em 2004, um grupo de especialistas mundiais em doenças zoonóticas emergentes se reuniu para discutir as possíveis relações entre todos esses animais de criação, comprometidos e doentes, e as explosões pandêmicas. [...] A primeira preocupação é mais geral, sobre a relação entre criações industriais e "todos os tipos" de patógenos, como novas variedades de campilobacter, salmonela ou E. coli. A segunda preocupação de saúde pública, é mais específica: os humanos estão favorecendo as condições para a criação do superpatógeno de todos os superpatógenos: um vírus híbrido, que poderia provocar mais ou menos uma repetição da gripe espanhola de 1918. 
Não é possível rastrear todos os casos de doenças transmitidas por alimentos, mas, quando conhecemos a origem, ou "veículos de transmissão", em sua esmagadora maioria é um produto animal. [...] De acordo com um estudo publicado na Consumer Reports, 83% de toda a carne de frango (incluindo marcas sem antibióticos e orgânicas) estão infectadas por campilobacter ou por salmonela no momento da compra. [...]
Da próxima vez que uma amigo tiver uma súbita gripe - que muitas vezes é descrita como "gripe estomacal" -, faça algumas perguntas. Seria a doença de seu amigo uma daquelas "gripes de 24 horas" que vêm e vão rapidamente, com vômito ou diarreia seguidos de alívio? O diagnóstico não é tão simples assim, mas a resposta a essa pergunta é sim, seu amigo provavelmente nem chegou a ter uma gripe - provavelmente estava entre os 76 milhões de casos de doenças transmitidas por alimentos que os CDC estimam ocorrerem. Seu amigo não "pegou uma doença"; é mais provável que "tenha comido" uma doença. E tudo indica que essa doença foi gerada nas criações industriais.
A criação de aves geneticamente uniformes e propensas a doenças sob condições de superpopulação, estresse, ambientes infestados de fezes e artificialmente iluminados promove o crescimento e a mutação de patógenos. O "custo da eficiência crescente", conclui o relatório, é o aumento do risco global de doenças."

Jonathan Safran Foer. Comer animais. Trad. Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. 
(uma seleção realizada entre as páginas 110 a 145)

terça-feira, 14 de março de 2017

Para educar crianças a igualdade e diferença

      Para educar crianças feministas, da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie é simplesmente formidável! 
            O breve livro, subtitulado manifesto, se originou da troca de uma carta entre Chimamanda e uma amiga. A autora conta que por ter se manifestado publicamente sobre o feminismo, a sua amiga achou que ela poderia ser uma conselheira especialista para lhe recomendar o que devia fazer para criar sua filha como feminista; então, lhe pediu sugestões. Chimamanda lhe respondeu em missiva, enumerando 15 tópicos essenciais. Suas sugestões, de 1 a 15, renderam um livro formidável, diria mais: indispensável, porque é uma conversa sobre como bem formar um indivíduo. 
           A ideia imediata evocada no primeiro contato com o livro é de que ele faria a recomendação de uma educação para o feminismo ou feminista, na qual se exaltaria o sexo feminino, o tomaria vitimizado, ou faria a supervalorização da mulher, ou algo do tipo. No entanto, isso não tem procedência; é inexistente. O que nele contêm são prescrições para a boa educação do individuo, fazendo apelo para a educação da igualdade e para a compreensão da diferença.
          O conselho de abertura do manifesto de Chimamanda, sua premissa ou pedra fundamental, é a igualdade de valores, e, seu arremate, a aprendizagem da diferença: "Nossa premissa feminista é: eu tenho valor. Eu tenho igualmente valor. Não "se". Não "enquanto". Eu tenho igualmente valor. E ponto final". Depois: "Ensine-lhe sobre a diferença. Torne a diferença algo comum. Torne a diferença normal [...] para ser humana e prática. Porque a diferença é a realidade de nosso mundo. [...] Ensine-lhe a nunca universalizar seus critérios ou experiências pessoais. [...] Esta é a única forma necessária de humildade: a percepção de que a diferença é normal". 
          Seus conselhos ainda são para a mãe educar a filha para "ter o gosto pelos livros", "questionar a linguagem", para "ser honesta e expor suas opiniões". Chimamanda aposta nas opiniões e nas sensatas argumentações para se constituírem tanto nos instrumentos de contestação das desigualdades, quanto para instaurarem a igualdade e a compreensão da diferença. 
Sua mensagem é grandiosa, ampla, cabível a, qualquer e todo, indivíduo. Seu manifesto é reação e ação. É para educar crianças a aspirarem ser indivíduos questionadores e defensores da igualdade. Indispensável.
      Depois de ler um livro, sempre ficamos em mente com passagens marcantes. Compartilho aquelas que mais me impressionaram de Para educar crianças feministas.

- " 2. Dividam igualmente a criação. "Igualmente" depende, claro, de ambos, e vocês vão dar um jeito nisso, prestando atenção às necessidades de cada um. [...] Por favor, abandone a linguagem da ajuda. Ao dizermos que os pais estão "ajudando", o que sugerimos é que cuidar dos filhos é território materno, onde os pais se aventuram corajosamente a entrar. Não é. Você consegue imaginar quantas pessoas seriam hoje mais felizes, mais equilibradas e contribuiriam mais com o mundo se os pais tivessem tido presença ativa durante a infância delas?" (p. 20)
- "3. Ensine a ela que "papeis de gênero" são totalmente absurdos. Nunca lhe diga para fazer ou deixar de fazer alguma coisa "porque você é menina". [...] Se não empregarmos a camisa de força do gênero nas crianças pequenas, daremos a elas espaço para alcançar todo o seu potencial. Por favor, veja Chizalum como indivíduo. Não como uma menina que deve ser de tal ou tal jeito. Veja seus pontos fortes e seus pontos fracos de maneira individual. Não a meça pelo que uma menina deve ser. Meça-a pela melhor versão de si mesma." (p. 21 e 26)
-"5. Ensine-lhe o gosto pelos livros. A melhor maneira é pelo exemplo informal. Se ela vê você lendo, vai entender que a leitura tem valor. [...] Os livros vão ajudá-la a entender e questionar o mundo, vão ajudá-la a se expressar, vão ajudá-la em tudo o que ela quiser ser - chefs, cientistas, artistas, todo mundo se beneficia das habilidades que a leitura traz. Não falo de livros escolares. Falo de livros que não têm nada a ver com a escola: autobiografias, romances, histórias. Se nada mais der certo, pague-a para ler. Dê uma recompensa. (p. 34)
- "6. Ensine Chizalum a questionar a linguagem. A linguagem é o repositório de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossos pressupostos. [...] Ensine Chizalum a questionar os homens que só conseguem sentir empatia pelas mulheres dentro de uma rede de relações, e não como indivíduos humanos iguais. [...] Diga a Chizalum que as mulheres, na verdade, não precisam ser defendidas e reverenciadas; só precisam ser tratadas como seres humanos iguais. Há uma conotação de superioridade na ideia de que as mulheres precisam ser "defendidas e reverenciadas" por ser mulheres. Isso me faz pensar em cavalheirismo, e a premissa do cavalheirismo é a fragilidade feminina." (p. 35 e 39)
-"8. Ensine Chizalum a não se preocupar em agradar. A questão dela não é se fazer agradável, a questão é ser ela mesma, em sua plena personalidade, honesta e consciente da igualdade humanadas outras pessoas. [...] Por favor, nunca imponha essa pressão à sua filha. Ensinamos as meninas a serem agradáveis, boazinhas, fingidas. E não ensinamos a mesma coisa aos meninos. É perigoso. Muitos predadores sexuais se aproveitam disso. Muitas meninas ficam quietas quando são abusadas, porque querem ser boazinhas. Muitas meninas passam tempo demais tentando ser "boazinhas" com pessoas que lhes fazem mal. Muitas meninas pensam nos "sentimentos" de seus agressores. Esta é a consequência catastrófica de querer agradar. Temos um mundo cheio de mulheres que não conseguem respirar livremente porque estão condicionadas demais a assumir formas que agradem aos outros. 

Então, em vez de ensinar a Chizalum a ser agradável, ensine-a a ser honesta. E bondosa. E corajosa. Incentive-a a expor suas opiniões, a dizer o que realmente sente, a falar com sinceridade. E então elogie quando ela agir assim. Elogie principalmente quando ela tomar uma posição que é difícil ou impopular, mas que é sua posição sincera." (p. 48 e 49)

-"13. Romances irão acontecer, então dê apoio. [...] Não estou dizendo para você ser "amiga" dela. O que digo é que você seja uma mãe com quem ela pode falar de tudo.

Ensine a ela que amar não é só dar, mas também pegar. Isso é importante porque damos às meninas pistas sutis sobre a vida delas - ensinamos que um grande elemento de sua capacidade de amar é sua capacidade de se sacrificar. Não ensinamos isso aos meninos.
Ensine-lhe que, para amar, ela precisa se entregar emocionalmente, mas que também deve esperar receber.
Penso que o amor é a coisa mais importante da vida. De qualquer espécie, da maneira que você o definir, mas para mim, em termos gerais, o amor é ser grandemente valorizado por outro ser humano e dar grande valor a outro ser humano. Mas por que ensinamos apenas metade do mundo a dar esse valor?" (p. 69, 70, 71)

-"15. Ensine-lhe sobre a diferença. Ensine-lhe que seus critérios valem apenas para ela e não para as outras pessoas. [...] Por favor, note que não estou sugerindo que você crie sua filha para "não julgar", coisa que se diz muito hoje em dia e que me preocupa um pouco. O sentimento geral por trás da ideia é bom, mas "não julgar" pode facilmente significar "não ter opinião sobre coisas nenhuma" ou "eu guardo minhas opiniões para mim". Assim, em vez disso, o que desejo a Chizalum é o seguinte: que ela seja cheia de opiniões, e que suas opiniões provenham de uma base bem informada, humana e de uma mente aberta. 
Que ela tenha saúde e felicidade. Que ela tenha a vida que quiser ter." (p. 78 e 79).


Chimamanda Ngozi Adichie. Para educar crianças feministas: um manifesto. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Cia das Letras, 2017.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

"... o imponderável também faz a História"

"A minha primeira aula na Economia foi uma palestra com professores ilustres, dois ex-ministros da Fazenda, um ex-presidente do Banco Central, um senador da República e uma estrela do meio, várias vezes cotada para vários cargos públicos, mas que preferia o mundo acadêmico. Ela era uma altruísta: lecionar. Casada com um que já foi do governo e tocava uma empreitada herdada. Casal-modelo que dava festas que saíam em colunas sociais, nas quais recebia prêmios Nobel em visita ao Brasil. Eram surpreendentemente de esquerda, o que alimentava o charme da dupla: a ponte entre o PIB e as centrais sindicais, a negociação em momentos de crise. Ambos de família quatrocentona. Hippies na juventude. Com mestrado na Califórnia, no auge da contracultura, fizeram manifestações contra a Guerra do Vietnã e o escambau. Eram cultos e informais. Foi-nos dito na aula inaugural Ela encerrou o debate homenageando o marido. Ela o amava. Sem ele, sua vida teria sido um vaso sem flor. Isso foi dito. Não parecia mais uma aula, mas um programa de TV, em que casais disputam prêmios. Paixão é piegas.

Ela deu aulas para mim no primeiro semestre: Clássicos do Pensamento Econômico. Era séria. Sempre de vestido preto Elegante. Pontualíssima. Exigia atenção. E tinha um método próprio. Falava exatos 30 minutos, nem mais, nem menos. Depois, abria para a classe. Fazia perguntas e esperava as respostas, emendando-as com mais pensamentos. Afirmava que a participação em aula era o que mais contava na avaliação. Indicava muitos textos a serem analisados na aula seguinte. E os alunos ficavam empolgados com aquela professora dedicada e famosa, que perdia o seu precioso tempo com calouros da graduação. Virou uma rebelião de egos, alunos querendo dizer coisas inteligentes mais do que os outros, sobrepondo-se, exibindo-se, uma competição em torno do pensamento econômico. Meus colegas eram de um outro mundo. Vestiam-se como se estivessem na reunião de uma diretoria de banco. Os meninos, de terno e gravata. As meninas, formais. Aquela faculdade cheirava a tergal. Muitos eram membros da nata da burguesia paulistana. Os que não eram, fingiam que eram, podiam não ter um puto, mas estavam lá, fazendo amigos, contatos futuros. Bem, generalizei. Havia a turma do contra. Pequena. Eu? Sei lá.

Fui morar na Crusp, em que moravam os alunos de baixa renda. E eu me encaixava neste perfil, já que vinha de pais separados e família mal de finanças. Continuava a trabalhar como boy para o meu avô. E era quase seu único funcionário. Perdia clientes à medida que sua idade avançava. Estava para falir também. Faltava pouco para o fim do semestre quando Clara Braga - sim, este era o nome da tal -, ao final de uma aula, fez um balanço da participação dos alunos até reparar num nome, o meu. Falou o meu nome em público, Luiz, perguntando quem era. Estranho, porque ela sabia de cor os nomes de todos os outros. Ela disse isso. Levantei o braço me apresentando. Ela disse:
"Que estranho, eu... Achei que sabia o nome de todos. Você é meu aluno?"
A classe riu. Era ignorado por aquela classe. Simples. Para provocar, ou sei lá, me vestia aos trapos e com cores que não se combinavam, andava descabelado e com barba por fazer. Me evitavam. E eu não fazia a menor questão de ter amigos ou contatos lá dentro. Era dos poucos que não participaram das atividades de boas-vindas aos calouros. E e vestia aos trapos para um protesto solitário contra aquele ambiente que deveria desenvolver o pensamento e as relações com o mundo
"Classe, não ria. Desculpa, rapaz, mas bem... O senhor não participou das aulas. Reparei que... Vocês sabem, a participação é importante."
"Tudo bem."
"Eu devia ter reparado antes. Luiz... Desculpa. E agora? O senhor não tem avaliação, corre o risco de perder o semestre."
"Tudo bem."
"Como, tudo bem? O senhor estará reprovado."
"Tudo bem", devolvi, sincero.
"É o sujeito do 'tudo bem'."
A classe, macaca, riu.
"A senhora não precisa me humilhar na frente dos outros."
Ficou séria. A classe a imitou.
"Não leve para o pessoal, estamos numa relação de troca, é importante o aluno se habituar com as relações de trabalho, esperam de vocês no mercado a atuação constante e a participação, uma voz nas decisões. Foi-se o tempo em que as empresas contratavam burocratas. Elas querem, agora, opiniões criativas de todos."
"Desculpe, mas levei para o pessoal. A senhora traz a bagagem de seus conflitos pessoais para a aula. Sua vida, como a de todos, é pautada por eles. Ou a senhora acorda de manhã e só pensa nos pensamentos econômicos?"
"Então, vamos ouvi-lo. É a sua chance de obter alguns pontos na avaliação, é..."
"...Luiz. Este é o problema de sua aula. Meus colegas não falam porque estão realmente interessados no debate ou curiosos. Falam para obter uma nota boa, passar de ano."
A classe protestou. Quem é este cara?! Cale a boca, bicho! Clara esperou a balbúrdia diminuir e me disse:
"O senhor tem o direito de falar. Vamos, não o escutei durante o curso."
"É para ser sincero ou para agradá-la e obter pontos?"
"Isto é com o senhor, fique à vontade."
Fiquei alguns instantes em silêncio.
"Ser sincero é difícil?", perguntou.
"Olho para você, desculpe, para a senhora e pergunto: ela é sábia, culta, prevenida, ela também é vaidosa, veste-se bem, está de preto, sempre de preto, cor triste, porque o preto absorve todas as luzes e não as reflete, guarda para si. Por que a senhora não quer refletir luz?"
Um silêncio absoluto caiu. Ninguém respirou. Respondeu:
"É irrelevante. Existem a ciência, as forças que controlam o mundo, o poder, e os sujeitos desta ordem não são ligados à decisão de um indivíduo somente, mas a uma ideologia , a um grupo, a uma ideia, um pensamento."
"Quer dizer que o fato de a senhora não emanar cores não interfere no rumo de sua vida, de suas decisões, e suas decisões não têm a menor importância num mundo organizado pelas ideias?"
"Minha intimidade não lhe interessa."
"Que pena."
"Por quê?"
"Está interessada na minha opinião. Está vendo? Isto é legítimo. Mas a autoridade pesou. É assim a nossa relação. A senhora manda, eu obedeço. A senhora não revela o seu íntimo, mas eu, sim, devo responder por quê."
"Nosso trabalho é entender os pensamentos econômicos. As desavenças sociais, os conflitos de interesses, as desigualdades e a intolerância são marcas de grupos que lutam por sua identidade."
"Para a senhora, a luz das cores é sectária?"
"Que saco!", ela disparou, surpreendentemente.
Bufou e olhou o relógio. Tudo bem, eu nem estava defendendo uma ideia, apenas provocava. Escutavam-se os ponteiros do relógio girando. Tudo bem. Me levantei e disse:
"Me desculpe."
Peguei minhas coisas e, antes de sair, mandei:
"Pelo menos, a senhora agora sabe o meu nome."

[...]

Crusp, uma festa sem fim, mas eu passava a maior parte do tempo lendo e estudando no quarto. Era a primeira vez que eu tinha o meu canto. Queria ficar nele até esgotar o silêncio e a privacidade. Lia de tudo, o tempo todo. Nada dos livros indicados pelo departamento. Lia romances. E se caía na minha mão uma teoria, eu lia como se fosse um romance. Isso durou meses. Às vezes, lia dois livros ao mesmo tempo. Às vezes, três. As bibliotecas da USP e o Crusp eram a horta da minha melancolia. Não precisa se encantar por isso. Nem me elogiar. Quem lê assim, trancado num quarto imundo, é porque está deprimido. E foi nele que escrevi a carta:

"Querida professora Clara Braga. Espero que goste deste livro. Bem, a senhora já deve ter lido Hamlet. Esta é uma boa tradução. Desculpe as bobagens que falei na sua última aula. Serei reprovado. Paciência. Mas deixo aqui minhas dúvidas. Roma teria deixado de escravizar o Egito se seu imperador não sentisse uma irresistível atração e fascínio pela rainha do inimigo? Estranho. Roma escravizou todo o Mediterrâneo, mas não o reino de Cleópatra. Poder e afeto não estão ligados? Há várias maneiras de ler a História. Gosto da maneira shakespeariana: as guerras são desencadeadas por amor, ódio, ciúmes. Quando o príncipe da Dinamarca pergunta 'ser ou não ser', ela não está pensando apenas no trono que foi usurpado ou como ser por direito o herdeiro, mas ter poderes para exercê-lo. Acredito que esta pergunta se refere a algo mais amplo. Estar ou não estar vivo? Sonhar ou se acomodar? Ir ou ficar? Agir ou se retrair? Lutar ou ceder? Dilemas do dia-a-dia. Existe ciência nos pensamentos econômicos. Mas deve haver poesia na ciência. E o imponderável também faz a História. Não me sinto ambientado em suas aulas. Nem em seu departamento. A senhora me fez um grande bem. Vou largar esta faculdade e partir pra outra. Vou sonhar, ir, agir, lutar. Vou ser. Muito obrigado.
Luiz"

Deixei a carta com uma cópia de Hamlet em seu escaninho. Hamlet, que patético... Fui à Reitoria pedir transferência para outro departamento, o de História. Foi-me dito que eu teria de esperar, continuar a frequentar as aulas da Economia e ter boas notas. Só no final do ano eu seria transferido ou não. Mas não poderia abandonar a universidade, deveria ter presença nas aulas, nem ser reprovado. Tudo bem. Ficar, acomodar-se, retrair-se, ceder temporariamente. Não ser. Poderia adiantar algumas matérias que também faziam parte do currículo da História. Clássicos do Pensamento Econômico.

Hamlet? É, esta é a cultura de um sujeito metido a culto de 18 anos. Lia os clássicos apenas. E me sentia o sujeito mais erudito da Terra. Sem sequência, comparações. Eu lia os latino-americanos. E dois Dostoiévski, dois Kafka, dois Camus (estes caras estavam na moda), três Shakespeare, três Machado, um Flaubert, um Thomas Mann, Divina Comédia, Fausto, O vermelho e o Negro, Guerra e paz, alguns Balzac, Virginia Woolf e Clarice Lispector, li Walter Benjamin, Borges, Grande sertão:veredas, Os sertões (pulando a primeira parte). Macunaíma. Oswald e Lima Barreto eu tinha lido no colégio. Nelson Rodrigues li, com prefácio de Sábato Magaldi. Antonio Candido. Li os beats. Descobri Fitzgerald, mas me apaixonei por Hemingway. Li Racine. Meu avô não lia muito, mas gostava de comprar livros bonitos. Roubei alguns deles. Ele tinha aquela coleção Prêmio Nobel, exemplares de ganhadores do Nobel, li todos, na sequência. Minha erudição era profunda como uma frigideira, era sem método, era aparente. Citar Hamlet. Que vergonha... 

Sim, fui à próxima aula de Clara Braga, a estrela do pensamento econômico. Sentei na primeira fila. Entrou solenemente, como sempre, ser superior, segura, vaidosa. Estava de preto. Mas com um lenço vermelho grande no pescoço. Deu sua aula como sempre, falando por 30 minutos e, depois, abrindo para a classe. Me ignorou. Completamente. Como sempre. Seus alunos favoritos continuaram a tagarelar. Estava tudo como sempre. Mas, ao final, ela não saiu apressada, como sempre. Sentada, observando os alunos saírem. Alguns traçaram ainda as últimas considerações. Demorei a sair. Conversa com dois alunos, quando passei bem perto de sua mesa. Nem me viu. Tudo bem.
Eu estava no corredor e escutei atrás de mim os inconfundíveis passos de Clara Braga, salto alto, apressada, dividir com outros suas conclusões sobre tantos pensamentos. Econômicos. Retardei minha caminhada para ficarmos lado a lado. Então, escutei:
"Achei que tinha desistido do curso."
"É, desisti."
"E vai fazer o quê?"
"Está curiosa?"
"Claro. Fui responsabilizada por tirar um economista do mercado."
"O mercado... É assim que vocês nos vêem, mais um para o mercado?"
"Você entendeu o que eu quis dizer. E se faz de vítima. Está tentando conflitar com o mundo?"
Diziam o mesmo de Hamlet. Até descobrirem que ele tinha a verdade nas mãos."
"O que causou uma grande desgraça ao seu reino. Qual verdade você quer revelar?"
"Você pinta as unhas do pé?"
Não respondeu. Caminhamos, mudos. Fora do prédio, virou à direita. Fiquei parado, observando se afastar."

Marcelo Rubens Paiva. Malu de bicicleta. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003. pp. 52-60.  

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Sobre escrever, por Stephen King

              Desde que havia lido a mais uma das excelentes resenhas de Lívio Soares sobre o livro Sobre a escrita: a arte em memórias de Stephen King, havia ficado instigada a conhecer essa obra, que, então, seria o primeiro livro que conheceria do escritor norte-americano. No entanto, na ocasião em que li a resenha do Lívio, não fui em busca do livro, apenas anotei para fazer a busca. Outro dia, por acaso, em uma boa conversa sobre King com Welliton - um adorável e recente amigo e colega de casa, doutorando em Bioinformática -, conversamos sobre os livros de King (de quem Welliton é leitor) e lembramos dessa obra Sobre a escrita. Na conversa, Welliton não apenas foi enfático em me garantir que eu iria gostar da obra, como em afirmar que ele achava que ela me seria inclusive útil, para o atual estado e estágio de trabalho com o meu doutorado: a redação da tese. Com uma solicitude imensa, Welliton foi ao seu quarto, buscou o livro e o pôs em minhas mãos. Como tenho meus misticismos com obras recomendadas pessoalmente - e, neste caso, posta sobre as minhas mãos - tal qual se o livro viesse me buscar, e não como é o mais comum, eu a ele -, no mesmo dia, apressei-me a iniciar a leitura. Logo me envolvi com a obra (exceto com o primeiro capítulo inteiro, que comecei, não gostei, e não quis insistir em ler. Pulei para o segundo, e daí comecei a minha leitura do livro) e tirei muitos, inestimáveis, ensinamentos dela. Por essas razões, sou muito grata ao Welliton por ter me emprestado o seu livro; e a ele deixo um agradecimento especial pelo empréstimo da obra.
               Sobre a escrita de King é um livro imprescindível - por muitos aspectos e para variados escritores; isto é, para escritores não apenas de textos de ficção, mas para todas as pessoas que precisam se valer do ofício da escrita em alguma ou outra situação. É um livro, antes de mais nada, sobre o exercício da escrita. Portanto, de como essa atividade se realiza - ou pode ser realizada de forma mais avisada. 
          King, cumprindo imediatamente o esperado de um título como o que deu a sua obra, dá algumas enormes e valiosas lições sobre o ato da escrita. Mas, ele não as fornece como procedimentos, como se - tal como muitos ainda creem - para se escrever bem, e ser bem-sucedido com textos, existissem fórmulas mágicas as quais recorrer. King, já de início, por exemplo, postula como regra principal do bom texto e da conduta de excelência de um bom escritor, uma fórmula generalizada e ampla. Sua regra de ouro do bom texto é: "ler muito e escrever muito". 
         Em seguida, Stephen King atém-se a revelar certas armadilhas (e nos convence, através de bons exemplos, como são incontestáveis!) para um bom texto. Ele irá defender, por exemplo, que, geralmente um autor de boas descrições usa mais a voz ativa no texto, e dispensa os advérbios e a voz passiva, para conseguir o envolvimento de seu leitor. Segundo ele, a boa obra seria aquela repleta de boas descrições, e essa  definiria-se por: ser "o que transforma o leitor em um participante sensorial da história". Em uma ótima frase, King sumariza a sua opinião afirmando: "O Dumbo não precisava da pena, a mágica estava nele".
       O próprio King, por ele mesmo, em mais de uma passagem de "Sobre a escrita", cumpre a sua capacidade pessoal de escrever bem, e prova conseguir que o seu leitor se torne um participante sensorial de sua narrativa. Uma dessas passagens é muito bem representada quando King narra o estado de imensa dificuldade de recuperar a sua familiaridade com a escrita e a rotina diária de escrever. Após ter sido atropelado por um furgão, em uma tarde, quando fazia sua caminhada habitual na orla de uma estrada do interior dos EUA, e, sem as mínimas condições para conseguir fazer seu trabalho de escritor, como por exemplo, ficar sentado por longo período de tempo, ele fica meses sem escrever.
         Em uma viva (e, a meu ver: belíssima!) passagem sobre o início (ou retomada) da escrita, King consegue dar a dimensão do quão árdua e, na maioria dos casos, marcada por episódios de exaustão, constitui, em realidade, a tarefa da boa escrita; e também, o quão fugaz, é sempre a conquista do estágio de maturidade e excelência de um texto. King enfatiza o quanto escrever é um ato impossível de ser dissociado da prática diária, o quanto requer perseverança na maior parte do tempo e o quanto é marcado por pré-estágios complicados - ou, um "momento tenebroso que vem antes do começo".
        Para aqueles que pretendem se iniciar no ofício, ou mesmo para aqueles que esse ofício é um ganha pão e constantemente estão enfrentando os distanciamentos e retomadas (alô, colegas acadêmicos!), o relato especifico desse episódio do retorno às tarefas de Stephen King é interessantíssimo - se, não diria, compartilhando o próprio efeito benéfico que teve sobre mim a leitura dele, alentador e encorajador ao mesmo tempo. Sua leitura funciona como uma "carta de autorização" - para me valer do próprio termo usado pelo escritor para caracterizar a parte final de seu livro. Acabamos as últimas páginas do livro, quase repetindo em mantra a imperiosa afirmação final de King: "você pode, você deve e, se tomar coragem para começar, 'você vai' [escrever]".
         O episódio de como foi o processo de retorno, bem como a importância que teve (em mais uma situação de sua vida, diz ele!) a figura de sua mulher para ajudá-lo a novamente acionar o ponto de partida após o longo afastamento dos textos por causa do acidente, é este do trecho abaixo:

[...] Eu não queria mais voltar ao trabalho. Estava sentindo muita dor, não conseguia dobrar o joelho direito e era obrigado a usar um andador. Não me imaginava sentado atrás de uma mesa por muito tempo, nem mesmo de cadeiras de rodas. Por causa de meu quadril destroçado, sentar por mais de quarenta minutos era uma tortura, e por mais de uma hora e quinze minutos, impossível. Além disso, o próprio livro parecia mais intimidador do que nunca - como eu escreveria sobre diálogos e personagens, ou sobre como conseguir um agente, quando a coisa mais importante de meu mundo era o intervalo até a próxima dose de oxicodona?
Ao mesmo tempo, eu sentia que tinha chegado a um daqueles momentos de encruzilhada em que não há mais alternativas. Eu já tinha enfrentado muitas situações terríveis antes, e a escrita me ajudara a superá-las - me ajudara a esquecer de mim por pelo menos alguns momentos. Talvez ela me ajudasse outra vez. Parecia ridículo pensar que funcionaria, dado o nível de dor e a incapacidade física que eu sentia, mas uma voz no fundo de minha cabeça, ao mesmo tempo paciente e implacável, me dizia, como na letra de "Time Has Come Today" [O tempo chegou hoje], dos Chambers Brothers, que a hora era aquela. Eu poderia desobedecer à voz, mas era muito difícil desdenhar dela.
Por fim, foi Tabby quem deu o voto de Minerva, como tantas vezes fez em momentos cruciais de minha vida. Gosto de pensar que fiz o mesmo por ela, de tempos em tempos, porque, para mim, um dos pilares do casamento é dar o voto de Minerva quando o outro não consegue decidir o que fazer.
Minha mulher é a pessoa mais propensa a dizer que estou trabalhando demais, que é hora de diminuir o ritmo, desgrudar desse maldito PowerBook por um minuto, Steve, dar um tempo. Quando disse a ela, naquela manhã de julho, que achava melhor voltar ao trabalho, eu esperava um sermão. Em vez disso, ela me perguntou onde eu queria escrever. Respondi que não sabia, que nem havia pensado no assunto.
Ela havia pensado, então disse:
- Posso colocar uma mesa para você no quartinho dos fundos, fora da copa. Tomadas não faltam, dá para colocar seu Mac, a impressora e um ventilador.
O ventilador seria necessário, com certeza - o verão estava muito quente, e no dia em que voltei a trabalhar a temperatura na rua era de 35 graus. O quartinho dos fundos não estava muito mais fresco.
Tabby levou algumas horas para organizar as coisas e, naquela tarde, às quatro, ela me empurrou cozinha afora até chegar à recém-construída rampa para cadeira de rodas que dava no quartinho. Ela me fizera um maravilhoso ninho ali: laptop e impressora conectados lado a lado, abajur de mesa, manuscrito (com as notas do mês anterior cuidadosamente colocadas em cima), canetas, materiais de referência. No canto da mesa estava um porta-retratos com a foto do nosso filho caçula, que ela tirara no início do verão.
- Está tudo certo?
- Maravilhoso - respondi, e a abracei. Estava mesmo maravilhoso. Maravilhoso como ela.
A Tabitha Spruce, de Oldtown, Maine, que eu conhecia sabia quando eu estava trabalhando demais, mas também sabia que, às vezes, era o trabalho que me libertava. Ela me posicionou na mesa, me deu um beijo na testa e depois me deixou ali para descobrir se eu ainda tinha alguma coisa a dizer. No fim das contas, eu tinha, um pouco, mas sem a compreensão intuitiva de minha mulher de que sim, era hora, não sei se algum de nós jamais teria comprovado.
A primeira sessão de escrita durou uma hora e quarenta minutos, de longe o maior período que eu passei sentado desde o dia em que fora atropelado pelo furgão de Smith. Quando acabei, eu pingava suor e estava exausto demais até para me sentar direito na cadeira de rodas. A dor no quadril era quase apocalíptica. E as primeiras quinhentas palavras foram singularmente aterrorizantes - era como se eu nunca tivesse escrito nada na vida. Todos os velhos truques pareciam ter me abandonado. Fui de uma palavra à outra como um homem muito velho que procura o caminho por uma linha de pedras úmidas em zigue-zague. Não houve inspiração naquela tarde, só uma teimosa determinação e a esperança de que as coisas melhorariam se eu perseverasse. 
Tabby me trouxe uma Pepsi - gelada, doce e gostosa - e, enquanto eu bebia, olhei em volta e tive que rir, apesar da dor. Eu tinha escrito Carrie, a estranha e 'Salem na lavanderia de um trailer alugado. O quartinho nos fundos de nossa casa em Bangor lembrava tanto o velho lugar que me fez sentir quase como se eu tivesse dado uma volta completa.
Não houve nenhuma grande mudança naquela tarde, a não ser o pequeno milagre que advém de qualquer tentativa de se criar algo. Tudo o que sei é que as palavras começaram a sair mais rápido, depois de algum tempo, e depois ainda mais rápido. Meu quadril ainda doía, mas as dores começaram a ficar um pouco mais distantes. Eu comecei a ficar acima delas. Não havia qualquer sentimento de euforia, nenhuma agitação - não naquele dia -, mas uma sensação de dever cumprido que era quase tão boa quanto. Eu perseverei, e isso foi tudo. O momento mais tenebroso vem sempre antes do começo. 
Depois, as coisas só podem melhorar.

              7

Para mim, as coisas melhoraram. Passei por mais duas operações na perna desde aquela primeira tarde abafada no quartinho dos fundos, tive uma onda de infecções bastante grave e continuo a tomar uns cem comprimidos por dia, mas o fixador externo já se foi e eu continuo a escrever. Em alguns dias, a escrita é um caminho longo e muito sombrio. Em outros - cada vez mais, à medida que minha perna começa a se recuperar e minha mente se reacostuma à velha rotina -, eu sinto aquela alegre agitação, aquele sentimento de ter encontrado e colocado no papel as palavras certas. É como decolar com um avião: você está no chão, no chão ... e, de repente, está subindo, andando em um tapete mágico de ar, senhor de tudo o que vê. Escrever me faz feliz, porque nasci para isso. Ainda não recobrei toda a energia - consigo fazer da metade do que costumava fazer em um dia -, mas tenho o suficiente para me levar até o fim deste livro, e sou grato por isso. A escrita não salvou minha vida - fui salvo pela competência do dr. David Brown e pelo amor e o cuidado de minha mulher -, mas continua a fazer o que sempre fez: transformar minha vida em um lugar mais luminoso e agradável. 
A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita serve para despertar, melhorar e superar. Para ficar feliz, ok? Ficar feliz. Parte deste livro - talvez grande demais - trata de como aprendi a escrever. Outra parte considerável trata de como escrever melhor. O restante - talvez a melhor parte - é uma carta de autorização: você pode, você deve e, se tomar coragem para começar, você vai. Escrever é mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. A água é de graça. Então beba. 
Beba até ficar saciado.

KING, Stephen.  Sobre a escrita: a arte em memórias. Trad. Michel Teixeira. Rio de Janeiro: Objetiva [Suma de Letras], 2015, pp. 226-229.