sábado, 7 de julho de 2018

O percurso de uma visão de mundo, por Tolstói

A certa passagem de Ressurreição, romance de Tolstói, há um interessante e minudenciado percurso por uma visão de vida. É exposto como a maneira como entendemos o mundo é seletiva, e, em grande medida, também limitadora. Através da forma como enxergamos o mundo, a exposição do narrador deixa expressa: fechamos círculos sociais, adotamos uma noção de bem e mal característica, tratamos e destratamos de modos específicos cada pessoa, nos damos nosso preço e o preço de nossa profissão, e, até, selecionamos as nossas memórias! - e tudo isso, na maioria das vezes, sem muita ou exata consciência individual da atitude.

"Todas as pessoas, a fim de exercerem sua atividade, precisam considerá-la importante e boa. Por isso, qualquer que seja a sua situação, a pessoa criará necessariamente uma visão geral da vida em que a sua atividade lhe pareça importante e boa.
Pensa-se, habitualmente, que o ladrão, o assassino, o espião, a prostituta, uma vez que admitam ser a sua profissão um mal, devem envergonhar-se dela. Mas acontece exatamente o contrário. As pessoas a quem o destino ou os próprios pecados e erros colocaram numa determinada situação, por mais irregular que ela seja, criam uma visão geral da vida em que a sua situação lhes parece boa e respeitável. Para a manutenção de tal visão, conservam-se instintivamente num círculo de pessoas onde se adota a mesma noção que elas criaram a respeito da vida e do seu lugar nela. Isso nos espanta quando se trata de ladrões, que se gabam de sua habilidade, de prostitutas, que se gabam de sua devassidão, de assassinos, que se gabam de sua crueldade. Mas isso nos espanta apenas porque o círculo-ambiente dessas pessoas é restrito e, sobretudo, porque nos achamos fora dele. Porém não ocorre o mesmo fenômeno com os ricos, que se orgulham da sua riqueza, ou seja, da espoliação, ou com os chefes militares, que se orgulham do seu poderio, ou seja, da violência? Não enxergamos em tais pessoas uma noção da vida, do bem e do mal deturpada, com o propósito de justificar a sua condição, apenas porque o círculo de pessoas que adotam essas noções deturpadas é maior e nós mesmos pertencemos a ele.
Máslova também criou uma visão assim da sua vida e do seu lugar no mundo. Era prostituta, condenada aos trabalhos forçados e, apesar disso, formulou para si uma visão de mundo em que podia aprovar-se, e até orgulhar-se de sua condição, diante das pessoas. 
Tal visão de mundo consistia em que o bem mais importante para todos os homens, todos, sem exceção - velhos, jovens, estudantes, generais, instruídos, ignorantes -, era a relação sexual com mulheres atraentes e por isso todos os homens, embora fingissem estar ocupados com outros assuntos, no fundo só desejavam isso. Ela mesma - uma mulher atraente - podia satisfazer ou não satisfazer o desejo deles, por isso era uma pessoa importante e necessária. Toda a sua vida, anterior e atual, era uma confirmação do acerto daquele ponto de vista.
Ao longo de dez anos, onde quer que estivesse, começando por Nekhliúdov e pelo velho comissário de polícia rural e terminando pelos carcereiros na prisão, Máslova viu como todos os homens precisavam dela; não via e não notava os homens que dela não precisavam. E por isso o mundo inteiro lhe parecia uma congregação de pessoas possuídas pela luxúria, que a vigiavam de todos os lados e, por todos os meios possíveis - engodos, força bruta, compra, astúcia -, esforçavam-se para dominá-la.
Assim Máslova entendia a vida e, à luz dessa visão da vida, ela não só não era a última pessoa das pessoas, como era alguém muito importante. E, mais que tudo no mundo, ela prezava essa visão da vida, não podia deixar de prezá-la porque, se alterasse essa visão da vida, perderia a importância que essa visão da vida lhe atribuía entre as pessoas. E a fim de não perder sua importância na vida, Máslova mantinha-se instintivamente no círculo de pessoas que encaravam a vida exatamente como ela. Advinhando que Nekhliúdov queria levá-la para um outro mundo, opunha-se a ele, prevendo que no mundo para onde a atraía, teria de perder aquele seu lugar na vida, que lhe dava confiança e respeito próprio. Pela mesma razão, rechaçava as lembranças da mocidade e as primeiras relações com Nekhliúdov. Tais lembranças não combinavam com a sua atual visão de mundo e por isso foram completamente apagadas da sua memória, ou melhor, foram guardadas intactas em algum ponto de sua memória, tão bem trancadas, tão bem escamoteadas como as abelhas escamoteiam o seu ninho para que as larvas, que podem destruir todo o trabalho das abelhas, não tenham nenhum meio de acesso a ele. E por isso o Nekhliúdov atual era para ela não aquele homem a quem amou no passado, com um amor puro, mas apenas um cavalheiro rico, de quem podia e devia tirar proveito e com quem só podia ter as mesmas relações que tinha com todos os homens."

Liev Tolstói. Ressurreição. Trad. Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 152-154. 

Sobre "Ressurreição", romance pouco lembrado do autor, foi publicado em 1899. Um ano após sua publicação, Tolstói foi excomungado da Igreja Ortodoxa russa. O motivo, é ser possível destacar no enredo do livro, a exposição sem mesura de um conjunto de ideais da seita de cristãos dukhobors (em russo, "lutadores do espírito"), com os quais Tolstói simpatizava. Esses cristãos, simpáticos a diferentes ideais, propagavam a negação da Igreja, da Bíblia, da propriedade, do Estado, do dinheiro, e, em contrapartida, defendiam um estilo de vida radicalmente democrático, comunitário e pacificista.
Durante a vida de Tolstói, Ressurreição foi seu livro de maior repercussão,chegou a ser mais vendido do que os grandes sucessos Guerra e Paz e Ana Karênina. Contudo, por ter uma recepção pouco acolhedora no século XX, esses romances precedentes ficariam mais famosos. 
Como conta o tradutor e apresentador da edição brasileira da Cosac, Rubens Figueiredo, no tumultuado início do século XX, "Ressurreição seria taxado como romance de tese, contaminado pelo pathos moral e religioso presente nas campanhas humanitárias de Tolstói". Tal leitura do século XX eximiu muitos de lerem a obra, e ela, desde então, ficou pouco lembrada. Em já outro momento histórico, sem dívidas imediatas com eventos revolucionários de seu tempo histórico, a obra ganha outra vez espaço na literatura mundial. 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Sobre o amor e a amizade e as interposições inevitáveis, inconvenientes e bobas em meio a eles. 
De Rubem Braga, "Sobre o Amor, etc".

Sobre o Amor, etc.
Dizem que o mundo está cada dia menor.
É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.
Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremisível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.
Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz "nunca vi um céu tão bonito assim" estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura. 
Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los.
Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não tem paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor.
Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói; pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dá um prazer puro; a criança deveria correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe.
Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida.
Assim o amigo que volta de longe vem rico de muitas coisas e sua conversa é prodigiosa de riqueza: nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma loura que dizia, etc., etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio. 
Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram - e eram nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, ela se vai, e finda.

Rubem Braga. Rubem Braga: 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 2017, p. 139-141.

sábado, 24 de março de 2018

Uma carta de Caio Fernando Abreu

Terminando a leitura de "Morangos mofados", de Caio Fernando Abreu, deparo-me com mais que um bônus no final da edição da Nova Fronteira de 2015, uma inestimável surpresa: uma bonita, lúcida, "sadia" (emprestando um termo do autor) carta de Caio sobre as agruras do viver, para seu grande amigo José Márcio Penido.

Porto, 22 de dezembro de 1979

Zézim,
cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tua carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quieto e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portanto, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudointeligente.
Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): "Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace al andar."
Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz "Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya/ilusão. Ou samsara/círculo vicioso.
Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso frequentemente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranquilidade.
Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.
Você quer escrever. Certo, mas você "quer" escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que "tem" que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito/ diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de autoexorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da autoanulação: "um sentimento de glória interior". Essa expressão é fundamental na minha vida. 
Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida". Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua "trip" e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, frequentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci/conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.
Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfesável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.
E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia ler. Que não gostava mais de ler. Se não gosta de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho - e posso estar enganado - que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.
Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.
Pausa.
Quanto a mim, te falava desses dias na praia. Pois olha, acordava às seis, sete da manhã, ia pra praia, corria uns quatro quilômetros, fazia exercícios, lá pelas dez voltava, ia cozinhar meu arroz. Comia, descansava um pouco, depois sentava e escrevia. Ficava exausto. Fiquei exausto. Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se "Morangos mofados", vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra de "Strawberry fields forever" pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma - real - é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio - porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas.
Aí tomei notas, muitas notas, pra outras coisas. A cabeça ferve. Que bom, Zézim, que bom, a coisa não morreu, e é só isso que eu quero, vou pedir demissão de todos os empregos pela vida afora quando sentir que isso, a literatura, que é só o que tenho, estiver sendo ameaçada - como estava, na "Nova".
E li. Descobri que ADORO DALTON TREVISAN. Menino, fiquei dando gritos enquanto lia "A faca no coração", tem uns contos incríveis, e tão absolutamente lapidados, reduzidos ao essencial cintilante, sobretudo um, chamado "Mulher em chamas". Li quase todo o Ivan Ângelo, também gosto muito, principalmente de "O verdadeiro filho da puta", mas aí o conto-título começou a me dar sono e parei. Mas ele tem um "texto", ah, se tem. E como. Mas o melhor que li nesses dias não foi ficção. Foi um pequeno artigo de Nirlando Beirão na última IstoÉ (do dia 19 de dezembro, please, leia), chamado "O recomeço do sonho". Li várias vezes. Na primeira, chorei de pura emoção - porque ele reabilita todas as vivências que "eu" tive nesta década. Claro que ele fala de uma geração inteira, mas daí saquei, meu Deus, como sou típico, como sou estereótipo da minha geração. Termina com uma alegria total: reinstaurando o sonho. É lindo demais. É atrevido demais. É novo, sadio. Deu uma luz na minha cabeça, sabe quando a coisa te ilumina? Assim como se ele formulasse o que eu, confusamente, estava apenas tateando. Leia, me diga o que acha. Eu não me segurei e escrevi uma carta a ele dizendo isso. Não sou amigo dele, só conhecido, mas acho que a gente deve dizer. Escrevendo, eu falo pra caralho, não é?
Aqui em casa tá bom. É sempre um grande astral, não adianta eu criticar. O astral ótimo deles independe da opinião que eu possa ter a respeito, não é fantástico? A casa tá meio em obras, Nair mandou construir uma espécie de jardim de inverno nos fundos, vai ligar com a sala. Hoje estava puta porque o Felipe não vai mais fazer vestibular: foi reprovado novamente no 3º colegial. Minha irmã Cláudia ganhou uma Caloi 10 de Natal do noivo (Jorge, lembra?), e eu me apossei dela e hoje mesmo dei voltas incríveis pelo Menino Deus. Márcia tá bonita, mais adultinha, assim com um ar meio da Mila. Zaél cozinhando, hoje faz arroz com passas para o jantar. 
Povos outros, nem vi. Soube que "A comunidade" está em cartaz ainda e tenho granas pra receber. Amanhã acho que vou lá. 
Tão tão só, Zézim. Tão eu-eu-comigo, porque o meu eu com a família é meio de raspão. Tá bom assim, não tenho mais medo nenhum de nenhuma emoção ou fantasia minha, sabe como? Os dias de solidão total na praia foram principalmente sadios.
Ocê viu a "Nova"? Tá lá o seu Chico, tartamudeante, e uma foto muito engraçada de toda a redação - eu com cara de "não me comprometam, não tenho nada a ver com isso". Dê uma olhada. Falar nisso, Juan passou por aqui, eu tava na praia, falou com Nair por telefone, estava descendo de um ônibus e subindo noutro. Deixou dito que volta dia três de janeiro ou fevereiro, Nair não lembra, pra ficar, uns dias. Ficará? E nada acontecerá. Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que "desse certo", caso contrário deixaria de escrever. Pode ser. Pequenas magias. Quando terminei "Morangos mofados", escrevi embaixo, sem querer, "criação é coisa sagrada". É mais ou menos o que diz o Chico no fim daquela matéria. É misterioso, sagrado, maravilhoso.
Zézim, me dê notícias, muitas, e rápido. Eu não pensei que ia sentir tanta falta docê. Não sei quanto tempo ainda fico, mas vou ficando. Quero escrever mais, voltar à praia, fazer os documentos todos. Até pensei: mais adiante, quando já estivesse chegando a hora de eu voltar, você não queria vir? A gente faria o mesmo esquema de novo, voltaríamos juntos. A família te ama perdidamente, hoje pintaram até uns salseirinhos rápidos porque todo mundo queria ler a matéria do Chico ao mesmo tempo.

Let me take you down
cause I'm going to strawberry fields
nothing is real, and nothing to get hung about
strawberry fields forever
strawberry fields forever
strawberry fields forever


Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. "Let me take you: I'm going to strawberry fields." 
Me conta da Adélia.
E te cuida, por favor, te cuida bem. Qualquer poço mais escuro, disque 05112-33-41-97. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro. Citando Guilherme Arantes, pra terminar: "Eu quero te ver com saúde/ sempre de bom humor/ e de boa vontade."
Um beijo do
Caio

quarta-feira, 7 de março de 2018

Arte de consolo e arte de desconforto em "Blitz" de David Trueba

"Blitz" é o primeiro romance que leio da Tusquets Editores, e do escritor e cineasta espanhol David Trueba.
Beto Sanz é um arquiteto que está enfrentando o atual conhecido péssimo momento para o profissional independente que desempenha trabalho criativo: falta de espaço, salários sub-humanos, desvalorização. Participar de um concurso de Munique, para ele, recém-convidado, seria uma das poucas satisfações que um trabalho à beira da falência poderia conceder.
Em Munique, o que era para ser uma ida para expor seu projeto, se transforma em uma reviravolta em sua vida. Ele recebe um sms com uma declaração amorosa da namorada Marta, no entanto, não endereçado a ele. Marta, que havia viajado junto com Beto, havia retomado um namoro antigo com um cantor uruguaio e mantinha em segredo a relação. Em um momento de descontração em um café, tudo é trazido à tona pelo sms. 
Os dois terminam o namoro e Beto sente sua condição ainda mais desgraçada e estrangeira. Entrega-se a partir daí a dias de porre em bancos de praça, autocalúnias, e se envolve com Helga, mulher madura e solteira, que ficara responsável pela recepção do casal e também pela tradução da fala de Beto para o público alemão.
Beto tem monólogos ótimos no estado de introspecção induzido por essa circunstância; e também diálogos inteligentes com Helga. Esse momento é um dos pontos altos da narrativa. Consistem em passagens inteligentes e irreverentes especialmente por revirar tabus sociais - despontando delas, principalmente, alguns relacionados à questão do relacionamento entre duas pessoas de idades distantes. 
No entanto, outro assunto tem igual relevância e é de consideração mais urgente. Trata-se, antes de qualquer coisa, de um momento de coragem no livro. É um momento de confrontação com o fluxo do mundo. Surge no conteúdo da exposição de Beto no congresso; das intenções de sua proposta arquitetônica. 
Beto competia em um concurso na categoria "Perspectivas de Futuro", cujo mote era recriar uma intervenção paisagística, não importando se o resultado fosse factível ou razoável. "Um concurso de contos no qual, em vez de contar um conto, contávamos um jardim", nas próprias palavras do personagem. Beto projetou "um parque para adultos. Um espaço externo urbano, simples e realista. Com bancos de leitura em que alguém pudesse parar para descansar durantes alguns minutos roubados do trabalho. A principal novidade era que ele continha um bosque de ampulhetas, de escala humana, que ao serem viradas davam ao usuário um tempo de abstração."
O arquiteto, muito corajosamente, propõe a um mundo embarcado na fantasia, na artificialidade e na fuga, a redescoberta do mundo real, a paixão pela realidade concreta e humana, por mais defeituosa que seja; e uma vida cada vez mais orgânica.
No momento de sua exposição, marcada por essa sua relevante reflexão, outro arquiteto competidor, chamado Àlex Ripollés, intervém e sua fala desemboca uma discussão entre ambos bastante necessária, sobre a função e a recepção da obra artística. O que se torna um embate entre os arquitetos expõe como a virtude artística do apelo humano, de conforto quase consolo, está, senão perdida, sendo bastante desencorajada, por uma retórica da provocação sempre desconfortável e de maus-tratos ao público. 
A passagem propõe, entre outras importantes reflexões, uma oportunidade de uma reavaliação importante dos compromissos da obra artística e da responsabilidade de seu papel e de sua recepção. 
Por essas e outras, "Blitz" se afirma como um livro de leitura merecida. 
À passagem em questão:

"Àlex me olhou com uma expressão irônica em seu rosto incontestavelmente atraente quando comecei a falar. O que eu disse foi o seguinte: Não sei para que serve uma paisagem. Porque uma paisagem é um belo jardim inglês, mas também a enorme cerca para barrar imigrantes africanos em Melilla. Acho que foi Robin Lane Fox que perguntou, em uma de suas aulas em Oxford, para que servia um jardim, e ouviu uma resposta maravilhosa de um aluno: para os casais se beijarem. A vida se desenrola em vários lugares, e nossa profissão não pode evitar que esses lugares sejam associados às experiências pessoais de cada um. No mesmo parque seus filhos podem dar os primeiros passos ou seu avô morrer de um ataque cardíaco. Às vezes tento imaginar o que Olmsted pensava quando projetou os jardins do Central Park em Nova York, mas na época ele podia dar forma à grande urbe, e nós trabalhamos num momento diferente da história das cidades, trabalhamos sobre o que já está feito, recuperamos coisas. Queria que os espaços nos fizessem descobrir o mundo que existe oculto aos nossos olhos. Porque precisamos voltar a olhar para o mundo real, não embarcar na ficção, nem criar fantasias, nem continuar como fugitivos. Precisamos de um espelho que funcione como antídoto, de modo a voltarmos a nos apaixonar por nós mesmos, pela realidade concreta e humana, por mais defeituosa que seja. Eu não tinha pensado nem ensaiado a minha fala, mas me parecia correto defender a ideia da minha proposta de jardim como uma teoria geral da paisagem como referencial arcaico, talvez em desuso diante do fascínio pela tecnologia e pela engenhosidade que os outros participantes demonstraram. Não podemos permitir, prossegui, que a arquitetura e o urbanismo sejam divertidos para quem os têm por profissão e indesfrutáveis para os que terão de suportá-los. O grande avanço, o grande avanço de verdade será encontrarmos a nós mesmos novamente e descobrirmos a casa, a rua, o tempo, o amanhecer, o entardecer, o sol, as nuvens, o orgânico. Talvez eu estivesse começando a me sentir meio ridículo, mas as interrupções em que Helga traduzia para o alemão ajudavam. Renovavam as minhas forças. Sempre me lembro, continuei, de algo que ouvi acerca de Buñuel: ele falava que era ateu, que não acreditava em Deus, salvo o deus inventado pelos homens, na mentira que erguiam para se consolar. Mas que diante da ciência e da tecnologia como soluções de alta precisão para tudo, preferia, de longe, acreditar na ideia destrambelhada de Deus.
Quando terminei, Àlex Ripollés brincou a respeito da minha fala. Em alguns momentos parecia mais uma aula de religião, você realmente prefere Deus em lugar de um bom celular? Para mim tudo o que você falou parece um tratado cujo título poderia ser jardinagem como autoajuda. O público riu após Helga traduzir. Não concordo com nada, embora sinceramente tenha adorado o projeto que você apresentou no concurso, as ampulhetas para sentar em frente e ver o tempo passar. Mas, prosseguiu, nossa profissão não deve consolar o cidadão, os espaços públicos não são centros de reabilitação, nós temos que sacudir as pessoas, mexer com elas, criticar. Nunca acalmar, é justo o contrário. Temos que desafiar, agitar, bater, incomodar as pessoas. Helga traduzia quase ao mesmo tempo que Àlex falava.
Ah, é? É disso que você gosta? É esse o nosso trabalho? Vamos ver então, interrompi. Deixa eu experimentar com você, falei, e me levantei e comecei a sacudi-lo pela gola e a balançar sua cadeira com rodinhas. É isso que você acredita que temos que fazer com as pessoas, de verdade? Isso que estou fazendo agora contigo? Sabe o que eu sempre quis fazer com um filme cruel em que os personagens são humilhados e maltratados? Aplicar essa mesma disciplina ao diretor, ao roteirista."

David Trueba. "Blitz". Trad. Miguel Del Castillo. São Paulo: Planeta do Brasil/ Tusquets Editores, 2017, p. 39-41.

domingo, 4 de março de 2018

O dom-juanismo segundo Albert Camus

A terceira e última temporada de Merlí, seriado do Netflix, estreou há algumas semanas. Ficou boa tanto quanto as anteriores: contando com as saídas criativas e inteligentes do professor de Filosofia para as situações do cotidiano escolar e pessoal, e as suas desenvoltas e curiosas exposições em aula. Um dos episódios mais atraentes, para mim, foi o terceiro. Nele, Merlí menciona Albert Camus e comenta sua obra "O mito de Sísifo". Ele começa sua aula da seguinte forma: "Levamos vidas chatas, monótonas e repetitivas até que um dia nos perguntamos: 'qual o sentido da minha vida'?" Segundo ele, é justamente essa pergunta pelo sentido da vida que norteia a obra do escritor francês Albert Camus.
Para Camus, querer imprimir um sentido profundo às coisas e esperar daí que a vida tenha um sentido grandiloquente representaria o grande absurdo da existência. Segundo o escritor, a pretensão de dar sentido às coisas é o motivo por excelência da infelicidade na vida cotidiana e um indício de que ainda não aprendemos a viver. Quando paramos de pensar que há coisas que dão, ou devem ser capazes de dar sentido à vida, e, ao contrário, simplesmente aceitamos que a existência é incoerente, superficial e entediante, e deste modo deve ser encarada e também vivida, finalmente passamos a viver bem, ou, ao menos, melhor. Aquele que será capaz aceitar o absurdo da existência, viverá bem; o que confrontar essa verdade, aprenderá a viver. Eis a lição. Eis a oportunidade de repetir um pouco menos a sina de Sísifo. A exposição de Merlí me levou ao livro "O mito de Sísifo" de Albert Camus. No início da obra, Camus se vale de uma figura lendária para exemplificar alguém que aprendeu a viver. Essa figura é - inesperadamente! -, Don Juan, o famoso sedutor e mulherengo. Don Juan visto por Camus, no entanto, tem por trás desses atributos conhecidos, um modo de vida condizente com a forma de vida ideal para esta existência. Ele simultaneamente ensina e vive o que postula a frase de David Trueba no romance "Blitz": "o sentido da vida é viver seguindo o sentido da vida." Don Juan não vive esperando da vida, nem vive esperando. Fez dela uma ciência sem ilusões, sem profundidade, do agora. Don Juan não enfrenta um problema moral, não é condenado por desejo de ser santo, não vive de esperanças. Don Juan não espera ser nada, somente se apronta para viver o que está no cotidiano; vive e caminha segundo a nota do presente, o percurso ditado pelo tempo e a ocasião. Camus amplia o sentido "moral-cristão" da imagem de Don Juan mulherengo e, por isso, imoral, e explica: "seria um erro igualmente grande considerá-lo um imoralista. [...] Seduzir é sua condição. Somente nos romances as pessoas mudam de condição ou se tornam melhores. Mas pode-se dizer que ao mesmo tempo nada mudou e tudo se transformou. O que Don Juan põe em prática é uma ética da quantidade, ao contrário do santo, que tende à qualidade. A característica do homem absurdo é não acreditar no sentido profundo das coisas. [...] O tempo caminha com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo. Don Juan não pensa em "colecionar" mulheres. Esgota seu número e, com elas, suas possibilidades de vida. [...] Amar e possuir, conquistar e esgotar, e só - eis sua maneira de conhecer, de viver." A apresentação que Albert Camus faz de Don Juan, alcunhando-a "dom-juanismo" (justamente por se remeter a um modo de vida - ao modo de viver condizente com a realidade da vida), faz-nos entender Don Juan por outros olhos, olhos menos cristianizados, e mais crus, superficiais e secos, ao modo bastante consonante com a realidade.
O "dom-juanismo" de Camus é uma oportunidade de avaliação interessante sobre modos de existir, sobre uma forma melhor de viver. Sem dúvidas o capítulo vale uma leitura completa! Aqui abaixo transcrevo o trecho todo.
Antes dele ainda, contudo, uma última informação relevante e oportuna neste momento que remeto a Albert Camus: boa parte da sua obra, tanto aqueles títulos mais conhecidos - "O estrangeiro", "A peste", "A queda" -, quanto os menos - como esse "O mito de Sísifo" -, estão ganhando edições fresquinhas pela Editora Record. Quem interessar pelo autor e/ou obra(s), é um bom tempo para conhecer ambos. Ao trecho "Dom-juanismo", de "O mito de Sísifo": 2 O dom-juanismo Se amar bastasse, as coisas seriam simples. Quanto mais se ama, mais se consolida o absurdo. Don Juan não vai de mulher em mulher por falta de amor. É ridículo representá-lo como um iluminado em busca do amor total. Mas é justamente porque as ama com idêntico arroubo, e sempre com todo o seu ser, que precisa repetir essa doação e esse aprofundamento. Por isso, cada uma delas espera lhe oferecer o que ninguém nunca lhe deu. Em todas as vezes elas se enganam profundamente e só conseguem fazê-lo sentir necessidade dessa repetição. "Por fim", exclama uma delas, "te dei o amor". Não surpreende que Don Juan ria dela: "Por fim? Não" - diz ele -, "outra vez." Por que seria preciso amar raramente para amar muito? DON JUAN ESTÁ TRISTE? Não é verossímil. Quase não vou apelar para a crônica. Esse riso, a insolência vitoriosa, os pulos e o gosto pelo teatro são coisas claras e alegres. Todo ser saudável tende a se multiplicar. Don Juan também. Mas, além do mais, os tristes têm duas razões para estar tristes, eles ignoram ou eles têm esperança. Don Juan sabe e não tem esperança. Faz lembrar esses artistas que conhecem seus limites, nunca os ultrapassam e, no intervalo precário onde seu espírito se instala, possuem a maravilhosa facilidade dos mestres. E está justamente aí o gênio: a inteligência que conhece suas fronteiras. Até a fronteira da morte física, Don Juan ignora a tristeza. A partir do momento em que sabe, seu riso explode e consegue que tudo lhe seja perdoado. Foi triste no tempo em que esperou. Hoje, na boca dessa mulher, torna a encontrar o sabor amargo e reconfortante da ciência única. Amargo? Quase: essa necessária imperfeição que torna perceptível a felicidade! É um grande engano pretender ver em Don Juan um homem que se nutre do Eclesiaste. Porque, para ele, a única vaidade é a esperança de outra vida. Ele o prova, porque aposta contra o próprio céu. O lamento do desejo perdido no deleite, esse lugar-comum da impotência, não lhe pertence. Isto funciona para Fausto, que acreditou suficientemente em Deus para se vender ao diabo. O "Trapaceiro" de Tirso de Molina responde sempre às ameaças do inferno: "Que prazo grande você me dá!" O que vem depois da morte é fútil, e que longa série de dias para quem sabe que está vivo"! Fausto exigia os bens deste mundo: o infeliz só precisava estender a mão. Já era vender sua alma o fato de não saber desfrutar dela. Don Juan, pelo contrário, busca a saciedade. Se abandona uma bela mulher não é de maneira alguma porque não a deseje mais. Uma bela mulher sempre é desejável. Mas acontece que, nela, deseja outra, o que não é a mesma coisa. Esta vida o completa, não há nada pior que perdê-la. Esse louco é um grande sábio. Mas os homens que vivem de esperança se sentem pouco à vontade nesse universo onde a bondade cede seu lugar à generosidade, a ternura ao silêncio viril, a comunhão à coragem solitária. E todos dizem: "Era um fraco, um idealista ou um santo." É preciso rebaixar a grandeza que insulta. O DISCURSO DE DON JUAN provoca bastante indignação (ou a risada cúmplice que degrada aquilo que admira, assim como aquela frase que serve para todas as mulheres. Mas, para quem busca a quantidade de prazeres, só interessa a eficácia. Para que complicar as fórmulas que funcionaram bem? Ninguém, a mulher ou o homem, as ouve só ouvem a voz que as pronuncia. São a regra, a convenção e a cortesia. Elas são ditas, e depois o mais importante ainda falta fazer. Don Juan já se prepara para isso. Por que teria um problema moral? Não é condenado por desejo de ser santo, como o Mañara de Milosz. O inferno para ele é coisa provocada. Só há uma resposta para a cólera divina: a honra humana: "Sou um homem honrado", diz ele para o Comendador, "e cumpro minha promessa porque sou um cavalheiro." Mas seria um erro igualmente grande considerá-lo um imoralista. Neste sentido, ele é "como todo mundo": tem a moral de sua simpatia ou sua antipatia. Para entender bem Don Juan, é preciso referir-nos sempre ao que ele simboliza vulgarmente: o sedutor comum e o mulherengo. Ele é um sedutor comum. Com uma diferença: é consciente, e portanto é absurdo. Um sedutor que adquiriu lucidez não mudará por isso. Seduzir é sua condição. Somente nos romances as pessoas mudam de condição ou se tornam melhores. Mas pode-se dizer que ao mesmo tempo nada mudou e tudo se transformou. O que Don Juan põe em prática é uma ética da quantidade, ao contrário do santo, que tende à qualidade. A característica do homem absurdo é não acreditar no sentido profundo das coisas. Ele percorre, armazena e queima os rostos calorosos ou maravilhados. O tempo caminha com ele. O homem absurdo é aquele que não se separa do tempo. Don Juan não pensa em "colecionar" mulheres. Esgota seu número e, com elas, suas possibilidades de vida. Colecionar é ser capaz de viver do passado. Mas ele rejeita a nostalgia, essa outra maneira de esperança. Não sabe contemplar os retratos. SERÁ POR ISSO EGOÍSTA? À sua maneira, sem dúvidas. Mas, também aqui, precisamos nos entender bem. Há gente que é feita para viver e gente que é feita para amar. Don Juan, ao menos, diria isto de bom grado. Mas para escolher precisaria de um atalho. Porque o amor de que ele fala é aqui adornado com as ilusões do eterno. Todos os especialistas em paixão nos ensinam isso, não há amor eterno a não ser o contrariado. Não existe paixão sem luta. Um amor assim só termina com a última contradição, que é a morte. Você tem que ser Werther, ou nada. Aí também há várias maneiras de suicidar-se, uma das quais é a doação total e o esquecimento da própria pessoa. Don Juan, como qualquer um, sabe que isso pode ser emocionante. Mas ele é dos poucos a saber que não é o mais importante. Sabe muito bem: aqueles que são afastados de toda a vida pessoal por um grande amor talvez se enriqueçam, mas certamente empobrecem os escolhidos pelo seu amor. Uma mãe, uma mulher apaixonada têm necessariamente o coração seco, porque afastado do mundo. Um único sentimento, um único ser, um único rosto, mas tudo acaba devorado. É outro amor o que faz Don Juan estremecer, e este é libertador. Traz consigo todos os rostos do mundo e seu tremor provém de saber-se perecível. Don Juan escolheu não ser nada. Para ele, a questão é ver claro. Só chamamos de amor o que nos une a certos seres por influência de um ponto de vista coletivo gerado nos livros e nas lendas. Mas do amor só conheço a mistura de desejo, ternura e entendimento que me liga a determinado ser. Tal composto não é o mesmo em relação a outro. Não tenho o direito de revestir todas essas experiências com o mesmo nome. Isto dispensa de realizá-las com os mesmos gestos. Também aqui o homem absurdo multiplica o que não pode unificar. Assim, descobre uma nova maneira de ser que o libera tanto quanto libera o próximo. Não há amor generoso senão aquele que se sabe ao mesmo tempo passageiro e singular. São todas essas mortes e esses renascimentos que constituem para Don Juan o eixo de sua vida. É a maneira que ele tem de dar e de fazer viver. Será que se pode falar de egoísmo? PENSO AGORA EM TODOS os que desejam um castigo para Don Juan seja como for. Não apenas na outra vida, mas também nesta. Penso em todas as histórias, lendas e brincadeiras sobre Don Juan envelhecido. Mas Don Juan está preparado para isso. Para um homem consciente, a velhice e o que esta pressagia não são nenhuma surpresa. Ele é consciente dela na medida em que não oculta de si mesmo o seu horror. Em Atenas havia um templo consagrado à velhice, aonde levavam as crianças. No caso de Don Juan, quanto mais se ri dele, mais se destaca sua figura. Ele recusa, assim, a imagem que os românticos lhe atribuíram. Ninguém quer rir desse Don Juan atormentado e lastimável. Têm compaixão dele, será que o próprio céu o redimirá? Mas não se trata disso. No universo que Don Juan vislumbra, o ridículo "também" está incluído. Ser punido lhe parece normal. É a regra do jogo. E sua generosidade consiste, justamente, em ter aceito inteiramente a regra do jogo. Mas ele sabe que tem razão e que não pode tratar-se de castigo. Um destino não é uma punição. Este é o seu crime, e se entende que os homens do eterno exijam um castigo. Don Juan chegou a uma ciência sem ilusões que nega tudo o que eles professam. Amar e possuir, conquistar e esgotar, eis sua maneira de conhecer. (Tem sentido esta escolha das Escrituras, que chamam de "conhecer" o ato do amor). Na medida em que ignora, é pior inimigo deles. Um cronista informa que o verdadeiro "Trapaceiro" morreu assassinado por franciscanos que quiseram "dar fim aos excessos e impiedades de Don Juan, cujo nascimento garantia a sua impunidade." E depois proclamaram que o céu o tinha fulminado. Ninguém provou esse estranho fim. Ninguém tampouco demonstrou o contrário. Mas mesmo sem questionar se isso é verossímil, posso dizer que é lógico. Quero grifar aqui o termo "nascimento" e jogar com as palavras: o que garantia a sua inocência era viver. Só na morte ele adquiriu uma culpa, agora lendária. Que outra coisa significa o Comendador de pedra, essa fria estátua animada para castigar o sangue e a coragem que ousaram pensar? Nele se resumem todos os poderes da Razão eterna, da ordem, da moral universal, toda a grandeza externa de um Deus acessível à cólera. Essa pedra gigantesca e sem alma simboliza apenas os poderes que Don Juan sempre negou. Mas a missão do Comendador para aí. O raio e o trovão podem voltar ao céu fictício de onde foram chamados. A verdadeira tragédia se desenrola à margem deles. Não, Don Juan não morreu sob uma mão de pedra. Prefiro acreditar na bravata lendária, na risada insensata do homem sadio provocando um deus que não existe. Mas acredito, principalmente, que na noite em que Don Juan estava esperando na casa de Ana, o Comendador não apareceu e o ímpio deve ter sentido, depois de meia-noite, a terrível amargura daqueles que tiveram razão. Aceito ainda melhor o relato de sua vida que o mostra, ao final, encerrado num convento. Não é que se possa considerar verossímil o lado edificante da história. Que refúgio pedir a Deus? Mas isto representa antes a culminação lógica de uma vida totalmente impregnada de absurdo, o desenlace feroz de uma existência dedicada a alegrias sem futuro. O gozo termina aqui em ascese. É preciso entender que ambos podem ser as duas faces do mesmo desenlace. Que imagem mais assustadora desejar: a de um homem a quem seu corpo trai e que, por não ter morrido a tempo, consuma a comédia esperando o fim, cara a cara com o deus que não adora, servindo-o como serviu a vida, ajoelhado diante do vazio com os braços estendidos para um céu sem eloquência e, como ele sabe, também sem profundidade. Vejo Don Juan numa cela daqueles monastérios espanhóis perdidos numa colina. Se ele olha para alguma coisa, não é para os fantasmas dos amores passados, mas, talvez, por uma seteira ardente, para alguma planície silenciosa da Espanha, terra magnífica e sem alma onde se reconhece. Sim, é preciso fazer um alto diante dessa imagem melancólica e radiante. O fim último, esperado mas nunca desejado, o fim último é desprezível."
Albert Camus. "O mito de Sísifo". Trad. Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro: BestBolso, 2017, p. 75-81.