sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Wilde e o ódio como rota de vida

Após o escândalo de seu relacionamento homossexual, o escritor irlandês Oscar Wilde foi julgado e condenado à prisão por dois anos. Enquanto estava na prisão escreveu "De profundis" (Das profundezas), uma carta endereçada ao Lord Alfred Douglas (apelidado Bosie), seu amante. 
Wilde se sentia abandonado por Bosie, que não lhe escrevera nenhuma linha durante os dois anos de cárcere, e, na carta reflete sobre a qualidade do relacionamento entre os dois. Segundo os relatos de Wilde, Bosie era o tipo incapaz de ficar sozinho, lhe roubava o tempo de trabalho, prejudicando sobretudo sua produção literária, e, quando contrariado, fazia cenas terríveis que deixavam Wilde esgotado.
A carta de Wilde, para além, mais do que uma exposição de seu relacionamento intenso, é uma reunião de avaliações do autor sobre algumas das melindrosas experiências humanas, no caso dele, sobretudo aquelas advindas de suas emoções e vivências fora e dentro da prisão. Wilde faz reflexões de seu modo de preparação para lidar com a "culpa da prisão", que estava certo que a sociedade impiedosamente lhe lançaria em sua saída do cárcere; e uma análise, uma reconsideração motivada pela experiência e o isolamento da prisão, de suas próprias conclusões sobre um número de conceitos humanos: sobre o que é o amor, a religião, a razão, o ódio, a tristeza, a compaixão, o indivíduo, as leis, entre tantos outros.
"De profundis" é um verdadeiro documento da confrontação de Wilde com a sua própria personalidade; e com personalidades: dela com Bosie, da de Bosie ele/e com ele mesmo; deles com o pai e a mãe de Bosie, e de algumas figuras canônicas e padrões de comportamento humano da História, como Jesus Cristo. 
Wilde, ao longo do texto, comenta de sua vontade de que a Bosie, a carta, ao final da leitura, sirva de autoconhecimento. Não de modo diferente, ela deste modo lhe servira. Esse pedido é oportuno e, não à toa, a posfaciadora da edição da epístola publicada pela Editora Tordesilhas, Munira Mutran, revela que, para muitos críticos, "De profundis" ficou considerada a autobiografia do autor no gênero da confissão. 
É um texto que nos transmite a sensação de que cada frase gestada, custou uma viagem ao mais profundo de si e uma confrontação franca e séria com as emoções e situações. É um texto de nobreza espiritual e da maior elevação humana. Imperdível!
Selecionei dele, uma passagem em que Wilde apresenta o amor e o ódio como duas rotas de vida à escolha do ser humano, e aponta a escolha de Bosie por viver a vida acomodada no sentimento de ódio para com todos - para com ele mesmo, para com os outros e para com as situações de vida; o que lhe faz ser ressentido com tudo, um frequente criador de polêmicas ocas, um amante da luxúria e atrás de se perder cada dia em um vício novo. Enfim, por causa de optar viver pelo ódio, Bosie é deixado ser levado por uma vida tosca e continuamente se torna mais baixo como ser humano.
O trecho mostra como uma opção por odiar pode significar tornar os objetivos de um vida mesquinhos e se tornar pior como pessoa: cultivar apenas pobres interesses e paralisar uma vida inteira, interromper o advento de suas possibilidades plurais, enriquecedoras e boas. Wilde define o sentimento, perverso, do ódio, como uma das mais grandiosas atrofias que pode acontecer a uma vida humana que lhe faz opção. 
Em contrapartida, oferecendo um lampejo de frescor, traz uma bonita reflexão sobre o amor, como um modo de vida rico, vivo, compartilhado, expansivo, autêntico, alegre, jovem; que permite àqueles que lhe optam, desfrutarem de tudo isso, e ainda serem capazes de ter compaixão, atenção e humanidade para/pelos os outros. É o amor o sentimento da beleza por excelência. Está, do mesmo modo que o ódio, acessível ao alcance de uma escolha.
Por fim, em um outro momento posterior da carta, o autor também comenta sobre a opção de vida pelo amor, e a sua opção de vida pelo amor mesmo diante da experiência do cárcere. É belíssima a passagem! - mas, essa, fica de convite para espiarem o livro.

"Sim, sei que me amava. Independentemente de como fosse sua conduta em relação a mim, sempre achei que no fundo você de fato me amava. [...] Mas, como eu mesmo, conhecera uma terrível tragédia em sua vida, embora de caráter inteiramente oposto da minha. Quer saber qual era? Era a seguinte. Em você, o Ódio sempre foi mais forte do que o amor. O ódio a seu pai tinha tal estatura que sobrepujava, subvertia e eclipsava inteiramente seu amor por mim. Não havia o menor embate entre os dois, ou muito pouco: tal a dimensão de seu ódio e a forma monstruosa como crescia. Você não percebeu que não há espaço para ambas as paixões na mesma alma. Elas são incapazes de conviver nessa morada belamente esculpida. O Amor é alimentado pela imaginação, por meio da qual nos tornamos mais sábios do que somos: pela qual, podemos compreender os outros em suas relações reais, assim como ideais. Apenas o que é belo, e belamente concebido, pode alimentar o amor. Mas o ódio é alimentado por qualquer coisa. [...]
O Ódio cega as pessoas. Você não tinha consciência disso. O Amor consegue ler o que está escrito na mais remota estrela; mas o Ódio o cegou de tal modo que você era incapaz de enxergar além do jardim estreito, murado e estiolado pela luxúria de seus desejos ordinários. Sua terrível falta de imaginação, o único defeito realmente fatal de seu caráter, foi resultado apenas do Ódio que o habitava. Sutil e silenciosamente, e em sigilo, o ódio corroeu sua natureza, assim como o líquen consome a raiz de um salgueiro qualquer, até o ponto em que você não podia mais enxergar nada além de seus mais pobres interesses e seus mais mesquinhos objetivos. Aquela faculdade em você que o Amor poderia ter fomentado, o Ódio a envenenou e paralisou. O Ódio lhe concedeu cada pequena coisa que almejou. Ele foi um mestre indulgente para você. Assim é, na verdade, com todo aquele que se põe ao seu serviço. [...]

O Ódio, você ainda está por descobrir, é, intelectualmente falando, a Eterna Negação. Considerado do ponto de vista das emoções, é uma forma de Atrofia, e destrói tudo mais a não ser ele mesmo."


Oscar Wilde. "De profundis". Trad. Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Alaúde Editorial/ Tordesilhas, 2014, p. 53-61.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Coletânea de guardanapos

    Passando por um corredor da Livraria Cultura, atraiu-me os olhos um livro sozinho sobre uma estante, em formato gráfico de guardanapo e com uma frase em letra de forma e pouco esgarranchada sobre um fundo rosa choque: "Liberdade na vida é ter um amor para se prender".
      Na dupla face, o título: "Minha coleção de guardanapos", Fabrício Carpinejar.
     Abaixo do título mesmo, uma introdução/apresentação do próprio Carpinejar sobre a própria obra, fazendo um (merecido) elogio aos guardanapos: elevando o seu status de objeto exclusivo de etiqueta de mesa, para um artigo dos compositores artísticos e da literatura "mais apressada" e tanto nascida quanto gestada em um espaço físico menos formal.
     Enchendo de graciosidade e rica função o tal papel quadrado, Carpinejar declara: "Guardanapo é o manto dos poetas e dos músicos. É o papel mais apressado, mais à mão, para anotar uma ideia ou memorizar uma rima". "Selecionei oitenta frases prediletas que se debruçam sobre os revezes do relacionamento e a busca por ser feliz".
    Leitura a se fazer em minutos, a coletânea dos guardanapos de Carpinejar produz-nos a experiência de um contato aprazível com uma parcela (o guardanapo) do que e no que, a tempo, conseguiu-se que ficasse retido das aventuras desamorosas e amorosas de algum caso em um recinto qualquer; ou mesmo, de um momento particular de insight sobre as vivências de relacionamentos.
   Igual ao tom e ao formato gráfico da primeira frase enunciada na capa e se alterando apenas em outras cores chamativas e coloridas o fundo das frases, Carpinejar ora prosa ora versa em frase curta e tom informal.
    Fiz uma pequena seleção de sua coletânea de guardanapos e a transcrevo aqui - matando (porém, não dispensando, pelo contrário, conclamando à apreciação) o criativo projeto gráfico da editora Belas Letras - e também as demais frases de Carpinejar:

- "A paixão transtorna, o amor transforma".

- "Paixão é não saber. Quando se sabe é amor".

- "Aquela vontade
danada de andar
de mãos dadas
durante o dia
e de pés dados
durante a noite".

- "Fidelidade não é somente estar com o outro, mas desejar estar com o outro."

- "Enquanto dormes,
eu sonho contigo."

- "Seduzir é perguntar
sabendo as respostas"

-"Explicar um amor
é se enredar
ainda mais nele."

- "No amor não se enxerga o que está perto".

- "O amor constante
ilumina como uma vela.
O amor espalhafatoso
destrói como um incêndio".

- "O amor sempre muda as regras para a gente nunca aprender a jogar".

- "Não me obedeça -
amor é transgressão".

- "O amor que você aceita nem sempre é o amor que você precisa e está longe de ser o amor que você merece".

- "A gente não cansa de amar, a gente cansa de não ser amado".

- "Tristeza que se repete é ressentimento".

- "Sempre acharemos que o outro está estranho quando não faz o que desejamos".

- "Toda separação é um ensaio frustrado: você decora um monólogo e enfrenta um diálogo".

- "Se o coração está inteiro é que nunca amou. Coração partido é de quem realmente se dividiu".

- "A melhor reconciliação é a feita antes mesmo de brigar".

- "É só acreditar que o amor é terno e ele termina. É só acreditar que o amor terminou e ele recomeça".

- "Fazer tudo para agradar é o caminho mais rápido para a rejeição".

- "Se alguém me achar, devolva-me".

- "Você somente se escuta
quando é amado, você
somente percebe o seu
valor se é amado.
Precisamos do amor até
para conhecer a própria
solidão."

domingo, 3 de dezembro de 2017

Stoner

         É sempre bom descobrir nos enredos dos livros da Rádio Londres o tema do encontro do homem com ele mesmo; seguir com um personagem o seu processo particular de tomada de consciência do próprio lugar no mundo. 
          É recorrência das publicações da editora, o tema, e aparece de diversas formas em obras-primas de autores pouco populares. 
          Há umas semanas terminei de ler "Stoner", de John Williams. Atualmente leio - o mo-nu-men-tal! - "Tirza", de Arnon Grunberg; e também já espero ansiosa para conhecer em seguida, o "Minotauro", de Benjamin Tammuz. Tornei-me e estou uma fã das publicações da Rádio Londres! 
      Abaixo deixo um trecho do "Stoner", quando o protagonista - Stoner -, dá notas sobre este mencionado momento de autoconsciência. 
Passou meio século de vida, Stoner tem a constatação do que esperou e o que obteve, o que realizou e não, o que, enfim, as coisas foram, e as expectativas que ele teve delas. 
        Com ele, damo-nos conta: ao fim de uma vida, o homem não obtém muito mais que isso: uma maior consciência das próprias experiências, e de si mesmo. É com o que ficamos.


"Quisera a amizade e a intimidade da amizade que pudessem confortá-lo na aventura da existência. Tivera dois amigos, um deles morrera insensatamente antes de poder conhecê-lo melhor, o outro agora recuara tão remotamente entre as fileiras dos vivos que...
Quisera a unicidade e a serena indissolubilidade do casamento. Tivera essa também, e não soubera o que fazer com ela, e a deixara morrer. Quisera amor. E tivera amor, e renunciara a ele, deixara-o ir para o caos da potencialidade. Katherine, ele pensou, "Katherine".
E quisera ser professor, e se tornara um. Mas sabia, sempre soubera, que na maior parte de sua vida tinha sido um professor medíocre. Sonhara com uma espécie de integridade, uma espécie de pureza imaculada, mas encontrara a banalidade e a força destrutiva da superficialidade. Aspirara à sabedoria e, no fim de longos anos, encontrara a ignorância. E o que mais?, ele pensou. O que mais?
O que você esperava?, perguntou a si mesmo.
[...]
O que você esperava?, pensou ele.
[...]
Sentiu que acordara de um longo sono e estava revigorado. Era o fim da primavera ou começo do verão, mais provavelmente começo do verão, pela aparência das coisas. [...] O ar estava espesso e pesado, um peso que juntava os odores suaves da grama, das folhas e das flores, misturando-os e mantendo-os suspensos. Ele respirou de novo, profundamente; ouviu o ruído de sua respiração e sentiu a doçura do verão congregar-se em seus pulmões.
E sentiu também, com aquela respiração, algo que se deslocava dentro dele, no fundo, e ao se deslocar, fazia parar alguma outra coisa, fixando sua cabeça de um jeito que ela não conseguia mais se mexer. Depois a sensação passou, e ele pensou: então é assim que é.
[...]
Recomeçou a respirar, mas havia algo diferente dentro dele que não conseguia definir. Sentiu que estava esperando alguma coisa, uma espécie de conhecimento, mas lhe parecia que tinha todo o tempo do mundo.
[...]
O que você esperava?, ele pensou de novo.
[...]
Agora mal lembrava que estivera pensando em fracasso, como se isso tivesse alguma importância. Parecia-lhe que pensamentos assim eram mesquinhos, indignos do que a sua vida tinha sido. [...]
Uma suavidade o envolveu, e uma languidez se insinuou em seus membros. Uma sensação de sua própria identidade lhe veio com uma força súbita, e ele sentiu o poder dela. Ele era ele mesmo, e ele sabia quem tinha sido."

John Williams. "Stoner". Trad. Marcos Maffei. Rio de Janeiro: Rádio Londres, 2015. pp. 302-305.

sábado, 25 de março de 2017

"Pós-capitalismo"

            Iniciei a leitura de Pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro de Paul Mason, autor natural de Leigh, Inglaterra. O livro já tem se prefigurado uma leitura fundamental. Pós-capitalismo discute a presente falência do capitalismo e do neoliberalismo no cenário global; realiza um panorama da vida atual pautada na tecnologia da informação - e em que medida as redes contribuíram para a dissolução das instituições do capitalismo; e revela, por fim, as contradições existentes nos projetos políticos atuais em, de um lado (predominantemente de direita), esforçar-se em manter o projeto falido neoliberal, e, de outro (predominantemente de esquerda), aspirar suprimi-lo por completo. As revelações de Mason objetivam lançar coordenadas mais precisas para as rotas que pessoas, movimentos e partidos têm empreendido atualmente.
            Em sua "Introdução", o autor é peremptório: "as tecnologias que criamos não são compatíveis com o capitalismo". A informática "tem a tendência espontânea de dissolver mercados, destruir propriedade e romper a relação entre trabalho e salários". Mason explica que toda uma subcultura de negócios emergiu nos últimos dez anos, e hoje, "territórios inteiros de vida econômica estão começando a se mover num ritmo diferente. Moedas paralelas, bancos de tempo, coletivos e espaços autogeridos proliferam, quase despercebidos pela profissão econômica, e frequentemente como resultado direto do esfalecimento de velhas estruturas depois da crise de 2008".
        Mason cita três impactos da nova tecnologia nos últimos 25 anos que foram/têm sido/são responsáveis pelas contínuas abolição do capitalismo e a insurreição do pós-capitalismo. "Primeiro", explica ele, "a informática reduziu a necessidade de trabalho, obscuresceu as fronteiras entre trabalho e tempo livre, afrouxando a relação entre trabalho e salários; segundo, os bens de informação estão corroendo a capacidade do mercado de formar preços corretamente. Isso porque os mercados se baseiam na escassez, ao passo que a informação é abundante. O mecanismo de defesa do sistema é formar monopólios numa escala vista nos útimos duzentos anos - no entanto, eles não podem durar; terceiro, estamos assistindo à ascensão espontânea de produção cooperativa: estão aparecendo bens, serviços e organizações que não mais respondem aos ditames do mercado e da hierarquia gerencial. O maior produto de informação do mundo - a Wikipédia - é feito por 27 mil voluntários, de graça, abolindo o comércio de enciclopédias e privando a indústria publicitária de uma receita anual estimada em 3 bilhões de dólares." A informática estabeleceu a produção cooperativa, e essa rota é para fora do sistema de mercado.
          Paul Mason estima que embora esse perurso já venha se cumprindo de algum modo, atualmente o pós-capitalismo coexiste com o sistema de mercado, e é bem possível que isso perdure por décadas ainda. Ele argumenta: "a transição envolverá o Estado, o mercado, e a produção colaborativa que está fora do mercado". Para vencer a fossa neoliberal e aos poucos irmos adotando um novo sistema de vida, Mason defende a urgência de um novo projeto. É necessário um novo projeto pós-capitalista, mas não (ou, pelo menos, não somente) mais, com as propriedades neoliberais ou radicalmente opostas a essas - do modo como os dois polos dos partidos políticos continuam anacronicamente a reivindicar em queda de força.
              Mason revela as fraturas existentes em ambas as posições e no projeto neoliberal como um todo."O neoliberalismo é a doutrina de mercados sem controle: ele diz que o melhor caminho para a prosperidade é indivíduos buscando o interesse próprio, e o mercado é o único meio de expressar esse interesse. Ele diz que o Estado deve ser pequeno; que a especulação financeira é boa; que a desigualdade é boa; que o estado natural da humanidade é ser uma horda de individuos sem escrúpulos, competindo uns com os outros. Seu prestígio repousa em feitos tangíveis: nos últimos 25 anos, o neoliberalismo suscitou o maior surto de desenvolvimento que o mundo já conheceu e desencadeou um progresso exponencial em tecnologias centrais de informação. Mas, no processo, ele reavivou uma desigualdade próxima à situação de cem anos atrás e agora originou uma situação de luta pela sobrevivência". Por outro lado, "o objetivo da velha esquerda era a destrução forçada dos mecanismos de mercado. A força seria exercida pela classe trabalhadora, fosse na urna eleitoral ou nas barricadas. A alavanca seria o Estado. A oportunidade seria propiciada por frequentes episódios de colapso econômico. Em vez disso, ao longo dos últimos 25 anos, foi o projeto da esquerda que entrou em colapso. O mercado destruiu o plano; o individualismo substituiu o coletivismo e a solidariedade; a força de trabalho expandida massivamente no mundo parece um "proletariado", mas não mais pensa e age como um." Estamos diante de um fato já incontornável "a tecnologia criou uma nova rota de saída, que os remanescentes da velha esquerda têm de abraçar ou morrer" e os neoliberais admitir a falência - portanto, improcedência - do sistema. Estamos diante da necessidade de reconfiguração dos projetos.
                 Para Paul Mason, "não é mais de um plano que precisamos, mas de um projeto modular"; "o projeto do mundo pós-capitalista, como no caso dos softwares, pode ser modular. Diferentes pessoas podem trabalhar nele em lugares diversos, a velocidades distintas, com relativa autonomia em relação umas às outras". "Temos que nos basear em micromecanismos, não em programas de diretrizes; tem que funcionar espontaneamente." Ele justifica a eficiência desse plano: "a principal contradição hoje é entre a possibilidade de criar bens e informações livres e um sistema de monopólios, bancos e governos tentando manter as coisas privadas, escassas e comerciais. Tudo se resume à refrega entre rede e hierarquia, entre velhas formas de sociedade moldadas em torno do capitalismo e novas formas de sociedade que prefiguram o que vem em seguida".
              Sem tomar partido, Paul Mason argumenta pela necessidade de "um projeto coerente baseado na razão, na evidência e em esquemas testáveis; um projeto que esteja de acordo com a história econômica e seja sustentável em termos do nosso planeta". Pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro é um livro no qual o seu autor realiza o mesmo exercício dos intelectuais autores das fições utópicas do gênero literário-político da utopia. Tal qual outrora seus maiores expoentes ingleses, autor e obra põe a questão: "por que deveríamos, na qualidade de seres inteligentes, deixar de formar um retrato da vida ideal, da sociedade perfeita?". Como imortalizado por Eduardo Galeano, as formulações utópicas são indispensáveis porque seu papel de formular projetos faz o sistema caminhar. Ler, debater e projetar saídas, revelando os erros atuais, são atividades indispensáveis para irmos na direção de uma ordem de mundo melhor.
              A revelação das contradições das diferentes condutas que pessoas, partidos políticos e movimentos sociais estão assumindo nesse contexto de falência do neoliberalismo e institucionalização de um novo 'organum civil' pautado nas redes, as implicações possíveis (ou mais previsíveis) disso, é uma tarefa de enorme relevância, e está, no livro, cheia de alguma ou outra contribuição para se formular novas coordenadas para o futuro.
                    Está aí uma obra utópica moderna. Esta aí uma boa e proveitosa leitura!

Livro: Paul Mason. Pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro. Trad. José Geraldo Couto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. 

sábado, 18 de março de 2017

Criação animal industrial: a carne "podre"

                 O que é ter a hegemonia do mercado da carne!... Li inúmeras matérias, em diferentes canais midiáticos, sobre a polêmica do dia: a comercialização de carnes alcunhadas "podres". A maioria, propositalmente, deixou omissos nas siglas BRF e JBS, os nomes das empresas pelas quais respondem popularmente, e se virou como pôde, para diminuir o choque horrorizante das revelações incontornáveis. Pois, se não sabem, fiquem sabendo que, senão todas e as maiores indústrias de carne, aquelas mais consumidas e populares participam do comércio de animais doentes. O frigorífero BRF é dono das marcas Sadia e Perdigão, e o JBS, da Seara, Swift, Big Frango e Friboi (quem ficaria de fora?!). O envolvimento das maiores etiquetas de consumo revela que: a carne que a maioria do brasileiro consome regularmente é carne "podre". 
            Mas não se engane também achando que isso é um defeito da indústria ou dos orgãos de supervisão alimentar do país. De acordo com um dos estudos mais sérios existentes sobre criação animal industrial (e desde 2011 com tradução brasileira e versão em livro pela Rocco, intitulado "Comer Animais", do norte-americano Jonathan Safran Foer), essa é a realidade da criação industrial (sobretudo aviária) de todos os grandes centros hoje. 
              A polêmica do dia me aludiu à questão séria da criação animal industrial. Trouxe à mente as sérias revelações de Froer, que toca tanto na questão da qualidade da carne, como da relação com as contaminações e patogenias humanas modernas - muitas indecifráveis. Gostaria de compartilhá-las. 
             A partir delas, se verá que o problema está longe de ser algo ocasional ou local; toma parte da questão seríssima, há muito problema de sustentabilidade mundial de pauta prioritária - embora, ainda muito dissimulada por causa dos lobbys e da hegemonia mercantil, como o da industria farmacêutica - da criação animal industrial.
       Voz a mais um daqueles mártires da informação honesta e estudada, mas sufocada pela hegemonia das grandes corporações.


J. Safran Froer em "Comer Animais":
"No início do século XX, os animais ainda eram em grande escala criados em fazendas e ranchos mais ou menos da mesma maneira de sempre - e como a maioria das pessoas continua a imaginar que sejam. Não havia ocorrido ainda aos fazendeiros tratar os animais vivos como se estivessem mortos. [...] 
Em 1923, na Península Delmarva (que compreende os estados de Delaware-Maryland-Virginia), um pequeno e quase cômico incidente aconteceu com uma dona de casa de Oceanville, Celia Steele, e deu início à indústria aviária moderna e à aberração global da criação intensiva. Steele, que cuidava do pequeno bando de galinhas de sua família, contou ter recebido uma encomenda de quinhentas galinhas em vez das cinquenta que havia requisitado. Em vez de se livrar delas, decidiu experimentar manter as aves num local fechado durante o inverno. Com a ajuda dos recém-descobertos suplementos alimentares, as aves sobreviveram, e o arco das experimentações de Steele continuou. Em 1926, ela possuía dez mil aves, em 1953, 250 mil. (Em 1930, o tamanho médio dos bandos ainda era de apenas 23).
Apenas dez anos depois da descoberta de Steele, a Península Delmarva era a capital mundial da criação de aves. O Condado de Sussex, em Delaware, hoje produz, por ano, mais de 250 mil aves destinadas ao abate, quase o dobro do que qualquer outro condado no país. A produção de aves é a principal atividade econômica da região e a principal fonte de sua poluição. (O nitrato contamina um terço de todos os lenções d'água das áreas agrícolas de Delmarva). [...]
Em 1946, a indústria aviária voltou os olhos à genética e, como a ajuda da USDA, lançou um concurso para a "Galinha do Futuro", a fim de criar uma ave que produzisse mais carne de peito com menos alimentação. [...] Os anos 1940 também viram a introdução de drogas à base de sulfa e antibióticos na alimentação das galinhas, o que estimulava o crescimento e controlava as doenças causadas pelo confinamento. Regimes alimentares e de drogas foram progressivamente desenvolvidos em conjunto com as novas "galinhas do futuro". Na década de 1950, já não havia mais uma "galinha", mas duas distintas - uma para ovos, outra para carne.
A própria genética das aves, tanto quanto sua alimentação e ambiente, era agora manipulada para produzir quantidades excessivas de ovos (poedeiras) ou de carne, especialmente de peito (de corte). [...] Essas alterações genéticas das galinhas não foram uma mudança entre outras: determinaram como as aves poderiam ser criadas. Com as novas alterações, as drogas e o confinamento eram usados não apenas para aumentar os lucros, mas porque as aves já não poderiam mais ser "saudáveis" ou até mesmo sobreviver sem eles. 
Pior do que isso, essas aves geneticamente grotescas não passaram a ocupar apenas uma fatia da indústria - são agora praticamente as únicas galinhas criadas para consumo. Havia, no passado, dezenas de diferentes raças de galinhas criadas nos EUA (Jersey Giants, New Hampshire, Plymouth Rock), todas elas adaptadas ao ambiente da região. Agora temos galinhas industriais.
Nas décadas de 1950 e 1960, empresas aviárias começaram a atingir uma completa integração vertical. Possuíram o 'pool' genético (hoje, duas companhias são donas de três quartos da genética de todas as galinhas de corte no planeta), as próprias aves (os fazendeiros só cuidavam delas, como conselheiros num acampamento), as drogas necessárias, a comida, o abate, o processamento e as marcas disponíveis no mercado. Não eram apenas as técnicas que haviam mudado: a biodiversidade foi substituída pela uniformidade genética, departamentos universitários de criação de animais se tornaram departamentos de ciência animal, um negócio outrora dominado por mulheres era agora tomado pelos homens, e fazendeiros competentes foram substituídos por funcionários assalariados, trabalhando sob contrato. [...]
A criação industrial foi mais um evento do que uma inovação. Agentes de segurança ocuparam os pastos, sistemas de confinamento intensivo com múltiplas fileiras se ergueram onde antes estavam os estábulos, e animais modificados geneticamente - aves que não podiam voar, porcos que não tinham condições de sobreviver do lado de fora, perus que não conseguiam se reproduzir naturalmente - substituíram o outrora familiar elenco do terreiro. [...]
É difícil visualizar a magnitude de 33 mil aves num mesmo ambiente. Não precisa ver por si mesmo, nem sequer fazer as contas, para entender que as coisas por ali ficam bastante amontoadas. Em suas Normas para o Bem-Estar Animal, o National Chicken Council (Associação Nacional do Frango) indica a densidade de criação apropriada de oito décimos de um pé quadrado por ave. É isso o que uma das principais organizações representantes dos produtores de frango considera bem-estar animal, o que nos mostra o quão completamente cooptadas as ideias do que seja bem-estar se tornaram - e por que não podemos confiar nos rótulos que vêm de todos os lugares, exceto de uma terceira fonte confiável.
Vale a pena parar aqui por um instante. Embora muitos animais vivam com bem menos, vamos partir do pressuposto de menos de um pé quadrado. Tente visualizar. (É improvável que algum dia você veja pessoalmente o interior de uma granja, mas há muitas imagens na internet se a sua imaginação precisa de ajuda.) Pegue uma folha A4 para impressora e imagine uma ave adulta, com formato semelhante ao de uma bola de futebol americano com patas, de pé sobre a folha de papel. Imagine 33 mil desses retângulos numa grade. (Frangos de corte nunca ficam em gaiolas e nunca em vários níveis. ) Agora, coloque a grade dentro de paredes sem janelas, com um ventilador no teto. Insira nesse cenário sistemas de alimentação (guarnecida com drogas), água, aquecimento e ventilação. Isso é uma granja. [...]
Algo entre 1% e 4% dessas aves morrerão retorcendo-se em convulsões devido à síndrome da morte súbita, uma doença quase desconhecida fora de criação intensiva. Outra doença induzida por essas granjas industriais, em que o excesso de fluidos enche a cavidade corporal, a ascite, mata ainda mais (5% das aves do mundo). Três a cada quatro aves terão algum grau de defeito ao caminhar, e o senso comum sugere que sentem dor crônica. Uma a cada quatro terá tantos problemas ao caminhar que não há dúvidas de que sentirá dor. [...] Desnecessário dizer que aves comprimidas, deformadas, drogadas e com estresse demais num lugar fechado, imundo e forrado de excrementos não vivem em situação muito saudável. Além das deformidades, danos aos olhos, cegueira, sangramento interno, infecção bacteriana dos ossos, vértebras deslocadas, patas e pescoços tortos, doenças respiratórias e sistema imunológico enfraquecidos são problemas frequentes e duradouros em granjas industrias. Estudos científicos e registros do governo sugerem que praticamente todas as galinhas (mais de 95%) acabaram infectadas pela E. coli (um indicador de contaminação fecal), e entre 39 e 75% delas ainda continuarão infectadas na comercialização. Cera de 8% das aves têm infecção por salmonela. Entre 70 e 90% são infectadas por outro patógeno potencialmente mortal, o campilobacter. Banhos de cloro são comumente usados para remover o muco, o odor e as bactérias.
Claro, os consumidores talvez percebam que o sabor de suas galinhas não anda muito bom - e como poderia um animal entupido de drogas, doente e contaminado por merda ter gosto bom? - mas "caldos" e soluções salinas serão nelas injetados, colocados de algum modo, no interior de seus corpos, para deixá-los com o que passamos a considerar o aspecto, o cheiro e o gosto de galinha. (Um estudo recente da Costumer Reports descobriu que produtos feitos com carne de galinha e de peru, muitos deles rotulados como 'naturais', "continham de 10 a 30% de seu peso em caldo, condimentos ou água.)
Falei com numerosos funcionários responsáveis por apanhar os frangos, pendurá-los e matá-los que descreveram aves vivas e conscientes indo para o tanque de escaldamento. Já que fezes na pele e nas penas terminam nos tanques, as aves saem cheias de patógenos que podem ter inalado ou absorvido através da pele (a água quente dos tanques ajuda a abrir os poros).
Depois que as cabeças das aves são arrancadas e seus pés removidos, máquinas as abrem com uma incisão vertical e removem suas entranhas. A contaminação com frequência acontece nessa etapa, já que as máquinas de alta velocidade comumente rasgam os intestinos das aves, liberando fezes para o interior da cavidade corporal. No passado, inspetores do USDA tinham que condenar qualquer ave com qualquer tipo de contaminação fecal. Mas, há cerca de trinta anos, a indústria aviária convenceu o USDA a reclassificar fezes para poder continuar usando esses evisceradores mecânicos. [...] "A cada semana", relata um inspetor USDA, "milhões de galinhas com pus amarelo escorrendo, manchadas por fezes verdes, contaminadas por bactérias nocivas ou prejudicadas por infecções pulmonares e cardíacas, tumores cancerígenos ou problemas de pele são enviadas aos consumidores." 
O que descrevi não é excepcional. Não é o resultado de trabalhadores masoquistas, de maquinário defeituoso ou de "maçãs podres". É a regra. Mais de 99% de todas as galinhas vendidas por sua carne vivem e morrem desse jeito. 
Os vírus atuais da gripe aviária, da gripe suína ou os da gripe espanhola de 1918 não são a verdadeira influenza - não a influência subjacente -, mas apenas seu sintoma.
Poucos de nós ainda acreditam que as pandemias são criações de forças ocultas. Será que devemos considerar a contribuição de cinquenta bilhões de aves adoentadas e drogadas - primordial de todos os vírus dessas gripes - uma influência subjacente que impulsiona a criação de novos patógenos que atacam os humanos? E quanto aos quinhentos milhões de porcos com sistema imunológico comprometido, mantidos em confinamento?
Em 2004, um grupo de especialistas mundiais em doenças zoonóticas emergentes se reuniu para discutir as possíveis relações entre todos esses animais de criação, comprometidos e doentes, e as explosões pandêmicas. [...] A primeira preocupação é mais geral, sobre a relação entre criações industriais e "todos os tipos" de patógenos, como novas variedades de campilobacter, salmonela ou E. coli. A segunda preocupação de saúde pública, é mais específica: os humanos estão favorecendo as condições para a criação do superpatógeno de todos os superpatógenos: um vírus híbrido, que poderia provocar mais ou menos uma repetição da gripe espanhola de 1918. 
Não é possível rastrear todos os casos de doenças transmitidas por alimentos, mas, quando conhecemos a origem, ou "veículos de transmissão", em sua esmagadora maioria é um produto animal. [...] De acordo com um estudo publicado na Consumer Reports, 83% de toda a carne de frango (incluindo marcas sem antibióticos e orgânicas) estão infectadas por campilobacter ou por salmonela no momento da compra. [...]
Da próxima vez que uma amigo tiver uma súbita gripe - que muitas vezes é descrita como "gripe estomacal" -, faça algumas perguntas. Seria a doença de seu amigo uma daquelas "gripes de 24 horas" que vêm e vão rapidamente, com vômito ou diarreia seguidos de alívio? O diagnóstico não é tão simples assim, mas a resposta a essa pergunta é sim, seu amigo provavelmente nem chegou a ter uma gripe - provavelmente estava entre os 76 milhões de casos de doenças transmitidas por alimentos que os CDC estimam ocorrerem. Seu amigo não "pegou uma doença"; é mais provável que "tenha comido" uma doença. E tudo indica que essa doença foi gerada nas criações industriais.
A criação de aves geneticamente uniformes e propensas a doenças sob condições de superpopulação, estresse, ambientes infestados de fezes e artificialmente iluminados promove o crescimento e a mutação de patógenos. O "custo da eficiência crescente", conclui o relatório, é o aumento do risco global de doenças."

Jonathan Safran Foer. Comer animais. Trad. Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. 
(uma seleção realizada entre as páginas 110 a 145)