domingo, 15 de maio de 2011

Purgatório



Do engenho meu a barca as velas solta
Para correr agora em mar jucundo,
3 E ao despiedoso pego a popa volta.

Aquele reino cantarei segundo,
Onde pela alma a dita é merecida
6 De ir ao céu livre do pecado imundo.

[...]

Eis noto um velho, perto de mim posto,
Que reverência tanta merecia,
33 Que mais do pai não deve o filho ao rosto.

Nas longas barbas nívea cor saía,
Sendo na coma sua semelhante,
36 Que em dupla trança ao peito lhe caía.

A luz dos santos astros rutilante
De fulgor tanto lhe aclarava o gesto,
39 Que o vi, como se o sol lhe fosse adiante.

— “Quem sois que em contra o rio escuro e mesto
Do eterno cárcere heis fugido os laços?” —
42 Movendo as nobres plumas, disse presto.

“Quem vos guiou alumiando os passos
Para a profunda noite haver deixado,
45 Que enluta sempre os infernais espaços?

“As leis do abismo acaso se hão quebrado?
O céu dá, seus decretos revogando,
48 Que dos maus seja o meu domínio entrado?” —



Travou de mim Virgílio, me exortando
Por voz, aceno e mãos: como queria
51 Os joelhos curvei, olhos baixando.

— “De motu meu não vim” — lhe respondia — [...]


Canto I, Purgatório. 

(ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. Ebook da edição: São Paulo: Atena, 1955)







1ª parte de 3 atos musicais do Purgatório, presente na Sinfonia Dante

Franz Liszt (1811 -1886), compositor e pianista húngaro.

sábado, 14 de maio de 2011

Pina Bausch


Tive meu primeiro contato com a coreografia enérgica de Pina Bausch quando assisti, há um bom tempo, ao filme Fale com Ela (Espanha/2002) do Almodóvar. No filme é mostrada a apresentação do espetáculo chamado "Café Müller", o qual põe em ação a trama das relações lamentosas de amor entre casais como ponto de partida para discussões tais como os desencontros humanos. 

Pina Bausch, coreógrafa e dançarina alemã, tem um trabalho que se caracteriza pela junção do teatro com a dança moderna, a retratarem, sobretudo, sentimentos como o de amor e tristeza. Ela e a sua companhia, de nome Tanztheather Wuppertal, interessados em incorporar formas particulares de expressão de sentimentos, também tomaram para inspiração algumas das emoções mais fortes de culturas como a nossa (como pode ser visto no espetáculo "Água"), bem como as emoções, ainda que forçadamente reprimidas,  orientais. 

Ao que me parece, todos os espetáculos de Pina, que comumente dançava em todos as suas apresentações, tem por marca maior movimentos enérgicos, parece que sempre afeitos a mostrarem o lado mais explosivo dos sentimentos. E alguns, surpreendentemente, nem sempre se fazem acompanhados por músicas. Pina rompe com a ideia da dança clássica, na qual somente havia espaço para os movimentos, para também permitir que seus dançarinos falem e traduzam em gestos e movimentos sentimentos humanos. Segundo suas mesmas palavras: "Eu não me interesso em como fazer um movimento, mas em por quê fazê-lo." O resultado: quase um "teatro dançante".

Morrendo ao 68 anos, em junho de 2009, a coreógrafa teve sua vida e a de sua companhia contada num documentário em 3D lançado por Wim Wenders, documentário que apenas foi exibido em Berlim e sem previsão de estreia para o Brasil. E, mais recentemente, em abril deste ano, o espetáculo Ten Chi (Céu e Terra) foi exibido no teatro paulistano Alfa. Sobre ele e sobre um pouco da trajetória de Pina, coloco um vídeo organizado pelo programa Metrópolis da Cultura. Também deixo parte da apresentação "Café Müller" e o trailer do documentário do Wim Wenders.








terça-feira, 10 de maio de 2011

Fragmentos (3)

Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como "não venerar". Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar - seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos - é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio - e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.


No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.


O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas - e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.


O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.


Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.


Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. 


Este fragmento faz parte de um discurso de paraninfo proferido por David Foster Wallace, escritor norte-americano, há uns anos em Kenyon College.  

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Circo Amarillo



Hoje, em uma das ruas da Unicamp, aconteceu a belíssima apresentação circense "Experimento", do Circo Amarillo. Com apenas quatro integrantes, o espetáculo, próprio para apresentações de rua, ou seja,  somente com os instrumentos e objetos essencias para os números, contou com malabarismos, danças, equilibrismos, músicas refinadíssimas e muita conversa engraçada entre os artistas e o público. A atração durou quase uma hora e meia, ficando o tempo dividido entre os risos e aplausos da plateia - pouco numerosa -, que estava presente.

O Circo tem uma trajetória que vem desde 1997 - como pude ver no site deles - e conta com números que valorizam a espontaneidade e o contato com o público, isso por meio das falas e ações que parecem não ter sido ensaiadas ou combinadas antes, além das frequentes conversas trocadas entre eles e os espectadores e, eventualmente, os transeuntes. Por esta proposta do quarteto, hoje, particularmente, acho que ficaram satisfeitos com um acontecimento que sucedia no campus no mesmo momento do espetáculo deles: havia um aglomerado de estudantes prontos para saírem em uma passeata de reivindicação de direitos. No início, achando os artistas que a reunião dos alunos tinha mais gente que as que estavam na rua e esperavam pela apresentação deles, resolveram se misturar com os manifestantes. O resultado foi um espetáculo à parte. Os palhaços pegaram os instrumentos de alguns dos alunos, como latas, alto-falantes e apitos, e romperam todo o clima sério e autoritário de reivindicações. O grupo de estudantes acabou tendo que abandonar um pouco dos semblantes sisudos e dar risadas. Isso foi um barato. Já no número ensaiado mesmo, chamou-me a atenção um tango de um casal dançado naquele suporte que tem um fio esticado - do qual não sei o nome-, porque além de ter tido toda aquela sensação de uma situação em limite, a interação do casal, com gestos faciais e corporais, estava muito bem amoldada.

Os amarillos, que são, creio, argentinos, contam com um figurino belo, uma mescla da vestimenta burlesca do "moulin rouge" com distintivos circenses. O espetáculo é acompanhado por belíssimas composições instrumentais, com misturas que eles mesmos acabam por fazer durante os números, com trompetes, sanfonas e cornetas, além dos barulhos obtidos por garrafas de plástico e tecidos. Tudo resulta numa grande e bonita apresentação e, o melhor, num circo que prova não precisar de maltratar animais para constituir-se como atração. 

Consegui achar, pela internet, apenas um vídeo do espetáculo "Experimento". Mas, neste vídeo, o figurino, os números e os próprios atores não são todos os mesmos. É uma filmagem mais antiga e que também não está em tão boa condição, mas, através dela, é possível escutar algumas das músicas e conhecer um pouco dos números, que, pela apresentação ao vivo, constatei estarem mais elaborados.  As circunstâncias vêm sempre mostrar quão alegre e válida são essas apresentações artísticas e quão necessária é a arte como algo que entremeia nossas sobrecarregadas preocupações e ações corriqueiras. Viva o Circo Amarillo e viva também toda forma de arte!

     
                                                                 


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Fragmentos (2)

Porque, avançando os homens sempre por caminhos batidos por outros e procedendo em suas ações por imitação, mas, sem poder seguir à risca a trilha de outrem nem alcançar a virtude daquele que se imita, um homem prudente deve tomar sempre a via trilhada por homens ilustres, que foram exemplos excelentíssimos a serem imitados: e, não sendo possível ombrear-lhes a virtude, que ao menos se deixe algum vislumbre dela; e que se faça como os arqueiros sensatos, os quais, diante de um alvo demasiado distante, e conhecendo até onde vai a potência de seu arco, alçam a mira muito mais alta que o ponto de destino, não para alcançar com suas flechas tanta altura, mas para poder, com o auxílio de tão alta mira, atingir a sua meta. (p. 62)

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010. 

terça-feira, 3 de maio de 2011

Sobre a morte do Bin Laden


Quinho. Estado de Minas/ o3/05/2011 (disponível em: http://www.acharge.com.br).


John Cole. Scranton, PA. The Times. 02/05/2011 (disponível em: http://cagle.com/news/OsamabinLadenDead/4.asp).

O príncipe



Creio que boa parte das leituras que se horrorizam com O Príncipe de Maquiavel são feitas de uma forma que o próprio escritor florentino julgou inadequada para compreensão do seu objeto de análise, a política. Isso quer dizer que esta obra ainda é muito estudada pela ótica dos princípios morais e/ou religiosos, sobretudo; não sendo a política tomada como um setor particular, um sistema com regimento distinto das leis que ordenam essas últimas esferas.

Em O príncipe, Maquiavel se propõe a analisar como as organizações políticas se fundam, persistem e decaem, sobretudo pelas ações dos homens que detêm o poder. Faz isso com objetivo de, entendendo as vicissitudes modernas (da Id. Moderna) por meio do atento estudo das antigas, chegar a um tratado político que proporcione ao príncipe - o que governa lucidamente -, a faculdade de poder, ou seja, a faculdade de conduzir a política segundo as próprias leis da política. E aqui se esclarece o que me parece a concepção de poder de Maquiavel: ela é uma representação do saber agir do governante, ao contrário de ser um displicente comportamento individual egoísta – sentido atribuído à palavra hoje, até pela metamorfose que o sistema político sofreu desde a instalação do modo de vida burguês: passou de um sistema com um compromisso coletivo para um sistema com um compromisso particular, egoísta. O poder maquiavélico é o do saber comportar-se como um sensato organizador cívico.

A diferença do seu tratado para os demais produzidos na mesma época do renascimento e em tempos anteriores - como os da fase do auge da Grécia e Roma -, está no fato de Maquiavel não adotar para a política as vias do que Anthony Grafton – autor da “Introdução” desta edição lida -, chamou de os princípios éticos gerais, que é a vinculação da natureza do homem e dos propósitos do governo na busca da vida virtuosa. Ao contrário, Maquiavel buscou o retrato da política tal como ela é: este jogo onde dificilmente se pode salvar o governo sem incorrer na infâmia de alguns vícios, como a crueldade, a dissimulação, a farsa, a infidelidade, a bestialidade, entre outros; assim como também quis mostrar um jogo que não se reduz às ações más, desde que os homens desta forma não o queiram.

Maquiavel vai entender a política como entende o homem, nada medida que o homem e a organização política (por depender da ação humana) são divididos e maleáveis pela fortuna e a virtude - aqui entendida na sua mais legítima etimologia, a da virtú (ou seja, a virilidade, a ação do homem sobre o destino, a sua capacidade de agir criativamente para se livrar, mesmo que seja pouco, do que é predeterminado), isso quer dizer que os dois podem ser bons ou maus, impelidos ou não pela fortuna. Se Maquiavel enxergou os seres humanos como seres genuinamente egoístas e ambiciosos, tal fato não vem sugerir que a opinião do florentino seja a de que eles deverão agir, ou agirão, somente segundo essas características. Existe a possibilidade do reversível na ação humana, esta sobre parte da fortuna. O homem e “o príncipe”, que, como definiu certa vez Carlos Berriel (professor de "História Literária" na Unicamp), é quem atua na política, razão e ação, podendo ser o exército, o partido e/ou o próprio homem, têm que saber aonde quer chegar; ou seja, precisa-se de um projeto, e o político hábil sabe onde vai dar a história. E é a meta, neste caso política, que exigirá do homem o exercício dos seus dois possíveis lados: o da virtude (agora entendida como o antônimo de vício) e o do vício, pois que na política, segundo Maquiavel, é impossível vencer só com um, já que somente virtuoso o homem não se manterá no poder, porque isso é algo impossível na ambivalente política desde a hipótese, e, se for somente cruel, rapidamente se perderá nos seus objetivos e será linchado pelo povo – grande e constante preocupação dos políticos, já que o povo pode, sobretudo na república, sistema apoiado por Maquiavel, funcionar como o termômetro das ações políticas, pois que eles é que manterão o executor político nesta incumbência, com a ação, com o poder. Dito isso, compreende-se que para o pensador político italiano, a política é um espaço, com tempo e circunstâncias variadas, para utilização de uma e/ou outra postura humana.

A grande contribuição deste escritor renascentista florentino pareceu-me estar, maiormente, em deslegitimar a política do moralismo, e, ao mesmo tempo, bem como com maestria - sem dar ares de grande renovador, não legá-la às licenciosidades do lado maldoso humano. Na sua genial prudência, afirma: “[...] é necessário a ele [ao príncipe] não se afastar do bem, se possível, mas saber entrar no mal, se necessário”. Maquiavel, com O príncipe, a um só tempo consegue limitar o campo de ação de algumas leis inadequadas para a política, sobretudo as exclusivistas moralistas de fundo religioso, e mostrar que “saber entrar no mal” não significa, como afirma o prefaciador (Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente do Brasil) da edição consultada para esta redação, “excluir a crença em valores, nem supõe o amoralismo na ação política”. Cada esfera com suas leis. A da política permite, a um só tempo, faltar com o moralismo, mas não abandonar de vez a moral. Elucidando ainda mais este argumento, fica adequado citar esta frase de Fernando Henrique Cardoso: “Este [o estadista] não pode cingir-se a respeitar valores absolutos, terá de se haver com a responsabilidade de seus atos, mais do que com os fins nos quais crê.” (grifo meu a fim de assinalar para quem deverá responder o estadista, segundo ainda a concepção de Maquiavel). 

Embora soubesse muito bem a substância da obra de um grande estadista, FHC, -aqui fica uma polêmica opinião pessoal-, quando em governo, não soube ser um bom executor do poder, antes de qualquer coisa, por ter negligenciado uma das partes mais importantes do sistema republicano: o povo. E não que eu queira com isso defender a primazia de um governo popular, ou afirmar que a república só dá certo por meio desta qualidade de governo, mas fato é que a satisfação do povo num regime republicano ainda é a garantia de um político no poder.

Por fim, o livro de Maquiavel pode ensinar duas coisas: a executar a política, e isso para quem mais está interessado em participar ativamente deste complexo sistema, bem pode ajudar a entendê-la – para qualquer pessoa que queira falar de política. Neste último caso, boa parte dos apontamentos sobre a postura dos políticos encontradas nos jornais precisariam ser revistas, já que discutir política não é se limitar, ou mesmo partir do campo do moralismo. Assim transmitiu Maquiavel.


Edição lida: 

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010. 

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Show do Capinha Blues em Patos de Minas



Pessoal, se vocês estiverem em Patos de Minas nesta sexta-feira, dia 06/05, não deixem de conferir o show do meu estimado padrinho Capinha Blues. Será realizado às 21h, no "Rancho Sagarana", cujo endereço é:  Rua Vicentina Rodrigues, 656, bairro Jardim Panorâmico; ponto de referência: entrada Hélio Amorim, matinha PTC 2.

Conforme informado na imagem do cartaz de divulgação acima, Capinha terá por repertório musical clássicos do Reggae, Blues, MPB e Rock'n Roll, além, quem sabe, de algumas das suas composições.

Fica o convite!

domingo, 1 de maio de 2011

Fragmentos (1)

Há neste estrambótico e complicado negócio que é a vida, certos períodos estranhos em que o homem considera o universo inteiro como uma simples e enorme farsa, ainda que mal vislumbre em que pode consistir a brincadeira e tenha bastante desconfiança de que esta se realiza à sua custa. Entretanto, nada o desalenta e nada parece valer a pena enquanto está lutando. Engole todos os acontecimentos, ideias, credos e opiniões e todas as coisas duras, visíveis ou invisíveis, por mais encaroçadas que sejam; como um avestruz de poderosa digestão engole balas e pedaços de pedras. E quanto às pequenas dificuldades, preocupações, perspectivas de desastres imediatos, perigos, grandes e pequenos, tudo isso, e até a própria morte, aparecem apenas como dissimuladas, benévolas e graciosas palmadinhas nas costas, dadas pelo velho e misterioso trocista. Essa espécie de humor estranho e rebelde se apodera do homem apenas em momentos de extrema angústia e surge no meio da própria ansiedade; de modo que, o que até então parecia da maior importância, torna-se uma alternativa a mais da enorme farsa. (p. 343)

                                                                                                 *

Assim, cortando a amarra do barrilzinho impermeável de mechas, depois de muitos insucessos, Starbuck conseguiu fazer uma torcida para a lâmpada, acendeu-a e, encostando-a a um pedaço de pau qualquer, entregou-a a Queequeg, porta-estandarte dessa esperança perdida. E Queequeg, sentado, erguendo bem alto aquela luz irrisória, era o símbolo do homem sem fé que, conquanto nada mais espere, conserva ainda viva a esperança no meio do desespero. (p.342)

MELVILLE, Herman. Moby Dick. Vol. I. Trad. Berenice Xavier. São Paulo: Abril, 2010. (Clássicos Abril Coleções; v. 15)