Marcos Siscar, professor no departamento de Teoria Literária do IEL/Unicamp (Instituto de Estudos da Linguagem), no dia 29 de março, lançou o seu mais recente livro, chamado Poesia e Crise (Editora da Unicamp, 360 páginas, R$60 reais). Na mesma semana, o Jornal da Unicamp publicou uma entrevista com o professor, na qual ele mencionou algumas das questões discutidas no seu livro e outras convergentes.
Uma delas, que inclusive resulta no título da obra, diz respeito ao “discurso da crise”. Siscar, ao responder a inevitável pergunta do entrevistador, a se a poesia está ou não em crise, afirma que este é o tema do seu livro, e que, apesar dos desafios contemporâneos para a publicação, veiculação e leitura deste gênero, ele continua lendo poesia com grande interesse.
A resposta é pouco fácil de ser benquista, entre outras razões, por se ter em consideração o espaço particular e profissional de um professor de literatura (e também autor de alguns poemas), que tem, não só por prazer, mas, por ofício acadêmico, reavivar a leitura do gênero. Neste caso, a crise parece ficar pouco impossível de ser inteiramente consentida – não que eu queira insistir na afirmação de alguns poetas e jornalistas de que a poesia está em crise. No caso, no que se refere à minha opinião, a crise da poesia sempre existiu - e existirá, como em qualquer época isso é discutido-, o que a vai determinar (ou não) é a capacidade de tornar a poesia uma experiência perceptível para as pessoas. A poesia prescinde de viáveis formas de se ter contato com ela. Isso representa a crise para mim. É certo, por exemplo, o debate sobre as razões históricas e sociológicas do início da escassez da poesia, como alguns exemplificam pela evasão dos poemas dos jornais. Só que isso não é o bastante para exemplificar uma crise, a meu ver. Ao mesmo tempo em que a poesia abandona os jornais, ela encontra mídias alternativas mais usadas (após as mudanças em toda a história da comunicação), como é a internet, embora esta seja, sem dúvida, a também grande responsável pelo distanciamento das pessoas da sensibilidade poética. Mas, desde muito tempo sabemos que o que se refere à internet está ligado a uma questão de seleção, de saber usá-la. Ela pode ser, por exemplo, também um instrumento de aproximação das pessoas para com a experiência poética (por que não seria?). Por isso insisto em acreditar e afirmar que a crise da poesia está nos meios de tornar a poesia uma experiência, para o que não é imprescindível (nem dispensável) o poema, pois como sugere belamente Octávio Paz (na obra O Arco e a Lira, por exemplo), a poesia não está só no poema. Ele é uma das vias para se contactar-se a ela. Portanto, a experiência poética precede a busca pelo poesia e, consequentemente, o seu resultado oferece o fim da crise, mesmo em meio a tantas circunstâncias históricas.
E, para retornar ao Siscar, ele vai defender que o que mais existe é o “discurso da crise”: “tento mostrar que o discurso faz parte da situação, por assim dizer, e que, ao fazer parte, também a modifica”. Para ele, “os poetas, nos seus poemas ou na sua crítica, têm apontado periodicamente a falência ou o desaparecimento do gênero poético, diante da emergência de valores inconciliáveis com a atitude artística. O resultado desta observação é que, dos pós-românticos aos decadentistas, das vanguardas e seus diversos espasmos à discussão contemporânea, cada geração atualiza a seu modo a ideia de que a poesia estivesse acabando ali”. Conclusão que tira após notar a convergência entre os resultados da exegese dos primórdios da poesia moderna e a reflexão sobre o estado contemporâneo da poesia, especialmente no Brasil.
Mesmo que algumas das suas argumentações, em certos momentos, assinalem para o inaceitável, ele propõe, na entrevista, além (e talvez mais) do que o tema da poesia e da crise, discussões pertinentes e áridas sobre a questão dos cânones literários - e o papel da universidade sobre eles; a relação, atualíssima, da poesia com o jornalismo e com a tecnologia; e a sempre incômoda questão do ensino de literatura. Por gostar da reflexão que os assuntos propõem, sobremaneira pelas respostas que ele dá, transcrevo algumas das melhores (julgamento pessoal) perguntas e respostas divulgadas pelo JU (Jornal da Unicamp).
JU: Na apresentação do livro, o senhor assinala que “o discurso poético é aquele que não apenas sente o impacto dessa crise, não apenas deixa ler em seu corpo as marcas da violência característica da época, mas que, a partir dessas marcas, nomeia a crise – a indica, a dramatiza como sentido do contemporâneo”. Quais são os efeitos mais deletérios dessa mimetização?
Não quero negar que existe uma “crise”, pois é assim que, muitas vezes os artistas e os observadores do contemporâneo sentem a situação dita “moderna”. Esse sentimento é mesmo, mais do que admissível, crucial para entender o sentido de nossa arte e de nossa literatura. Mas achar que a arte e a literatura são apenas “expressão” desse mal-estar é ignorar fundamentalmente sua própria constituição. [...] A poesia é uma das grandes responsáveis pela caracterização, pela explicação e pela formalização desse sentimento de crise, que tem versões conhecidas na filosofia, na psicanálise, na economia política. [...] Creio que a poesia dispõe-se a chamar a atenção, de modos variados, para as contradições de que participamos, históricas ou afetivas; não só não as evita, como faz dessas contradições um “drama”, agravando na ordem do sensível, do afetivo, aquilo que aparentemente nos rodeia.
JU: Não raro a academia é vista como incapaz de descortinar e analisar novos cenários por estar aprisionada a cânones. O senhor concorda?
Corro o risco de ser acusado de argumentar em causa própria, mas acho que nesse campo é preciso ser muito direto: a “academia” é um dos raros lugares em que se pode de fato analisar novos cenários. Não tenho conhecimento de nenhum outro lugar institucional onde se discuta tão abertamente, com critérios e com rigor, o estado contemporâneo da cultura e da sociedade. A própria ideia de que somos prisioneiros de nossos cânones provém de dentro da universidade. A universidade é um espaço cuja natureza é poder suportar sua própria crítica e se renovar a partir dela. [...] A pluralidade e a diferença de opiniões são uma riqueza e não um déficit. [...] Há, é claro, e isso faz parte da crítica interna da universidade (a qual sua concepção lhe dá não apenas o direito, mas o dever), muitos “ritmos”: coisas que demoram mover-se, mais do que deveriam, que se escoram nos hábitos e em valores não problematizados; e há coisas que querem mover-se rápido demais, sem conseguir avaliar que interesses estão em jogo no deslocamento. Saber em que categoria devemos colocar, por exemplo, a questão do “cânone” (que nada mais é do que a questão dos currículos e das prioridades da universidade) é o próprio objeto da discussão e não a expressão de uma “incapacidade”. A questão envolve não apenas o conteúdo das disciplinas, mas o próprio destino delas.
JU: Nesse contexto (de discussão da relação da poesia com o jornalismo e do mercantilismo que eventualmente surge desta relação), a internet tem poder de fogo para substituir os chamados “jornalões”?
[...] A própria poesia, embora pretenda estar nos lugares mais avançados do aproveitamento da tecnologia, na verdade, como um todo, depende muito pouco dela. É um gênero econômico e tecnologicamente marginal, o que lhe dá pouca atenção do “mercado”, mas muita liberdade para afirmar suas próprias prioridades.
JU: Qual a sua avaliação do ensino de literatura hoje no país?
Tenho muita preocupação com as discussões sobre o assunto, sobretudo em termos de elaboração de currículos, das quais nem sempre participam os profissionais de literatura. [...] As ênfases na formação de “mão-de-obra” (no lugar da formação de cidadãos) e nos meios de aprendizagem (em detrimento dos conteúdos específicos), embora tenham razão de ser, a partir de ângulos específicos, tendem a deixar à margem a formação do cidadão, como homem de sua cultura, ainda que cosmopolita. A literatura e a tradição literária não são apenas mais um registro da nossa língua; sua riqueza de elaboração da nossa situação, quer seja seja de brasileiros ou de humanos, é inestimável, tanto como memória histórica quanto como capacidade ativa de construção de imaginário.
Fonte: Jornal da Unicamp. Campinas, 28 de março a 3 de abril de 2011, p. 5 a 7.