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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Perspicácia

Perspicácia, René Magritte, 1936.


Algo que me interessa nas pinturas do René Magritte é a inversão da lógica própria dos eventos e também, por consequência, o lidar com fatos inesperados. Magritte opta pela a não representação do evidente e esperado, colocando na tela o que vem além de uma cena ou o que lhe está e/ou é oculto. 
Certa vez, comentando o seu famoso quadro "Carta Branca (1965)", aquele da amazona que passa a cavalo entre as árvores, provocando um efeito visível-invisível, ele disse: "Coisas visíveis podem ser invisíveis. Se alguém cavalga por um bosque, a princípio o vemos, depois não, contudo, sabemos que está lá. A amazona oculta as árvores e estas ocultam-na também. Todavia, os nossos poderes de pensamento abrangem tanto o visível quanto o invisível. Eu faço uso da pintura para tornar os pensamentos visíveis."

O quadro acima joga com essas noções de visível-invisível e inesperado. Um pintor está olhando um ovo, mas, ao contrário de fielmente representá-lo - como poderia ser esperado -, pinta um pássaro. A cena, numa demonstração metalinguística, mostra o ofício do artista. Este é quem toma o real (visível) apenas como motivo para criação da obra - resultado que suscitará (ou será) a visão do invisível. Neste caso, o trabalho do artista nem seria com ter o real como objeto de arte, mas como, quase exclusivamente, o seu motivo. Motivo é diferente de objeto. O objeto pressupõe uma retratação fiel, o motivo não, ele é apenas o ponto de partida para outro retrato, diverso. 

Num outro contexto vi esta pintura. Ela está como capa de uma revista acadêmica (MORUS - Utopia e Renascimento, 2009) dedicada à compilação de trabalhos que discutem o tema da utopia. A pintura fez uma grande representação do que a utopia vem a ser. Ela é o mesmo que olhar o real, mas numa perspectiva mais apurada, e enxergar-lhe outro, até  num (suposto) estado avançado que o próprio pássaro sugere, pois que, tudo indica, será o que virá após o ovo. (Parênteses: espaço para humor: isso, é lógico, se não nos enlouquecermos a tentar chegar à solução do que vem primeiro: ovo ou a galinha. E também se eu não dispor a minha opinião de que sempre primeiro existirá o criador antes da criatura). 

Fato é: utopista ou artista - no fundo não tem muita diferença-, tomam o real como Magritte o sugeriu na tela: a ser algo que não é evidente, esperado, visível. No mais, os dois conhecem o autêntico sentido de perspicácia - como é o próprio nome do quadro-, que repousa grandemente em conceber o real como outro, como lugar de convivência do visível-invisível, e, acima de tudo, como possibilidade.n

sábado, 16 de abril de 2011

Anatomia da Melancolia e da Utopia

Dois conceitos problemáticos, o de utopia e o de melancolia, podem apresentar relações muito próximas. Se entendermos a utopia como uma tentativa distanciada e lúcida de esboçar um modelo a partir do qual será possível analisar, ou quem sabe, modificar a realidade - aqui compreendendo todos os sistemas econômicos, políticos, sociais e éticos -veremos que ela está intimimamente vinculada à história e não se define pela arbitrária e fantasiosa criação de povos e sistemas sociais. A utopia nasce da insatisfação do sujeito para com os sistemas socias vigentes e pelo desejo e a esperança de vê-los outros. Nessa mesma medida, o estado melancólico -também resultado de insatisfação e de distanciamento do real- pode vir a provocar o desejo de alteração do atual e desarrazoado estado das coisas.  

Vita Fortunati (professora de Literatura Inglesa na Universidade de Bologna), num artigo chamado Utopia and Melancholy: an intriguing and secret relationship (publicado na Revista Morus: utopia e renascimento, nº 2, 2005, Unicamp), como claramente expõe no título do seu trabalho, aproxima os dois conceitos (o de utopia e o de melancolia), e num momento do seu texto pega emprestada a interpretação de Walter Benjamin para a imagem Angelus Novus de Paul Klee a fim de "ler" o desenho Melancholia I de Albrecht Dürer. Como o desenho de Dürer (1471-1528, pintor e ilustrador alemão) e a leitura de Vita e Benjamin (misturadas na citação abaixo) são coincidentes e interessantes, bem como ainda, belos, apresento-os respectivamente:


Melancholia I, Albrecht Dürer, 1514.

In Dürer's work the angel is surrounded by the tools of active life, a square, a wheel, a plane, some nails, a hammer, a saw, and pincers; a glass-hour is behind him, an immobile sphere can be seen beneath. The angel of melancholia symbolizes the typus acediae and embodies the human condition  of transience along with man's inability to accept it, after he has experienced the loss of the sense of time. Klee's Angelus Novus is regarded by Benjamin as the icon of the melancholic attitude man feels towards history. The angel is fixed because he has lost the capability of attributing sense to the events of the past; the only possibile escape is not offered by a projection towards the future, but by utter estrangement from his own world, and deep nostalgia for a reality that can but be attained as unreal. In this respect we can understand why Benjamin considers the massive use of quotations in modern art as both the sign of nostalgia for and erasure of the past, since the act itself of retrieving history, by means of selected fragments of it, actually undermines its aura. 

FORTUNATI, Vita.  "Utopia and Melancholy: an intriguing and secret relationship". In Revista Morus: utopia e renascimento. nº 2, 2005. p. 149 e 150.