quinta-feira, 28 de abril de 2011

Aterciopelados



Aterciopelados é o nome de uma dupla colombiana de rock alternativo surgida nos anos 1990. Composta pelo baixista Hector Buitrago e a vocalista Andrea Echeverri, o duo segue um dos principais critérios de composição musical de outras bandas do gênero: buscar a aproximação dos sons característicos do rock acrescentados aos estilos típicos da região de origem dos compositores. Assim, eles misturam suas raízes latino-americanas ao rock, produzindo um som bastante refinado e novo.

Com melodias para os que gostam do mais puro e pesado rock até os que curtem um misto de folk e reggae com rock, os Aterciopelados levam, muitas vezes, em letras de poucas palavras, mensagens de caráter social bem lemas da época do movimento hippie e das gerações de rock dos anos 80 e 90, ou seja, mensagens que incluem críticas às injustiças políticas, aos direitos femininos e apelo à observação da questão ambiental. A diferença para algumas das bandas que trataram dos mesmos assuntos estará na exposição menos explosiva e mais disposta a retomar temas singelos, quase ingênuos, como, para citar apenas um exemplo, o amor de alma gêmea.

O último CD lançado pela dupla foi chamado de Río (Nacional Records, 2008) e me pareceu um dos mais belos. Selecionei duas músicas dele ("Vals"- para mim a mais bonita, e "Río") e uma música ("Complemento") do penúltimo disco, o Oye (Nacional Records, 2006), a fim de que possam conhecê-los. Hector e Andrea já têm 10 discos, sendo o último reconhecido pelo prêmio Best Rock Alternative Album (Latin) 2010; e a banda já foi mencionada pelas famosas revistas Time Magazine e Rolling Stone como uma dupla com habilidade de estilo. Só para completar os detalhes sobre a dupla, uma notícia: Andrea participou da faixa "Tudo vai ficar bem" do álbum "Daqui Pro Futuro" do Pato Fu.

Todas as músicas do último álbum da dupla me chamaram a atenção pela maestria de unir belos sons, mas não deixarei de lembrar de Vals pela poesia simples da canção e da letra; de Complemento pelo belo e criativo vídeo-clip e de Río pela melodia alegre. Vejam-nas abaixo, respectivamente:




Bailemos este vals, atravesemos paredes,
bailemos este vals, démosle vuelta a las estrellas,
y pintar nuestra pareja, de todos los colores,
Bailemos este vals, al ritmo de las esferas,
bailemos este vals, que en tempo lento navega,
y pintar nuestra pareja, de aromáticas flores,
Danzando al son, de un nuevo sol, en perfección,
en expansión
Y marco el paso, un dulce abrazo, coreografías,
en tu regazo
Bailemos este vals, atravesemos... colores
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Complemento


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Río


sábado, 16 de abril de 2011

Anatomia da Melancolia e da Utopia

Dois conceitos problemáticos, o de utopia e o de melancolia, podem apresentar relações muito próximas. Se entendermos a utopia como uma tentativa distanciada e lúcida de esboçar um modelo a partir do qual será possível analisar, ou quem sabe, modificar a realidade - aqui compreendendo todos os sistemas econômicos, políticos, sociais e éticos -veremos que ela está intimimamente vinculada à história e não se define pela arbitrária e fantasiosa criação de povos e sistemas sociais. A utopia nasce da insatisfação do sujeito para com os sistemas socias vigentes e pelo desejo e a esperança de vê-los outros. Nessa mesma medida, o estado melancólico -também resultado de insatisfação e de distanciamento do real- pode vir a provocar o desejo de alteração do atual e desarrazoado estado das coisas.  

Vita Fortunati (professora de Literatura Inglesa na Universidade de Bologna), num artigo chamado Utopia and Melancholy: an intriguing and secret relationship (publicado na Revista Morus: utopia e renascimento, nº 2, 2005, Unicamp), como claramente expõe no título do seu trabalho, aproxima os dois conceitos (o de utopia e o de melancolia), e num momento do seu texto pega emprestada a interpretação de Walter Benjamin para a imagem Angelus Novus de Paul Klee a fim de "ler" o desenho Melancholia I de Albrecht Dürer. Como o desenho de Dürer (1471-1528, pintor e ilustrador alemão) e a leitura de Vita e Benjamin (misturadas na citação abaixo) são coincidentes e interessantes, bem como ainda, belos, apresento-os respectivamente:


Melancholia I, Albrecht Dürer, 1514.

In Dürer's work the angel is surrounded by the tools of active life, a square, a wheel, a plane, some nails, a hammer, a saw, and pincers; a glass-hour is behind him, an immobile sphere can be seen beneath. The angel of melancholia symbolizes the typus acediae and embodies the human condition  of transience along with man's inability to accept it, after he has experienced the loss of the sense of time. Klee's Angelus Novus is regarded by Benjamin as the icon of the melancholic attitude man feels towards history. The angel is fixed because he has lost the capability of attributing sense to the events of the past; the only possibile escape is not offered by a projection towards the future, but by utter estrangement from his own world, and deep nostalgia for a reality that can but be attained as unreal. In this respect we can understand why Benjamin considers the massive use of quotations in modern art as both the sign of nostalgia for and erasure of the past, since the act itself of retrieving history, by means of selected fragments of it, actually undermines its aura. 

FORTUNATI, Vita.  "Utopia and Melancholy: an intriguing and secret relationship". In Revista Morus: utopia e renascimento. nº 2, 2005. p. 149 e 150.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Um pouco de Clarice Lispector

Curiosa e coincidentemente, na semana passada, ouvi falar muito de Clarice Lispector. Não só amigos (especialmente o Ismael e a Ana Amélia) tocaram no seu nome e mencionaram trechos de suas obras, como também estive às voltas com uma biografia recentemente lançada da escritora, escrita por Nádia Battella Gotlib (São Paulo: Edusp, 2009). Isso me inspirou a vontade de transcrever qualquer fragmento clariciano.

Sem querer tecer exaustivos comentários sobre os trechos a citar e sobre a obra como um todo da Clarice, gostaria apenas de ressaltar uma das características mais interessantes -na minha opinião-, possível de ser extraída da literatura dela: o sempre espanto e prazer pela descoberta, seja ela de que natureza for. Se até onde li Clarice me fosse pedida uma palavra que resumisse e definisse os seus textos, diria ser a palavra "descoberta". Acrescentaria também que a experiência de ler Clarice é a do enveredar-se por conhecidos ou recônditos universos, a desembocar no deparado mundo nunca conhecido. 

Os trechos escolhidos fazem parte da obra  Aprendendo a viver (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004) e neles, ela, sem querer, como sempre alegava não querer, fala dela mesma, ou seja, fala da suas experiências sobre a vida, sem intenção de escrever algum enredo: tenta empreender a tarefa de decifrar os incompreensíveis mistérios particulares do eu. O resultado, vindo de uma escritora, só poderia ser literatura.

Então, ficam os trechos, acompanhados de fotos (das quais desconheço a autoria, mas, enfim, belíssimas) da, também bela, Clarice Lispector:



 
 “Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.




 “Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
       Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

 

 “Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”

P. S.: (Já está virando hábito o "P. S"...)
Recomendo este site oficial da Clarice, onde se pode, além das informações corriqueiras, ler algumas correspondências que ela recebeu dos escritores Fernado Sabino, Manuel Bandeira e Drummond, por exemplo,  bem como escutar dois livros dela, o A via crucis do corpo, declamado pelo Antonio Fagundes e Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, declamado por Beth Goulart. Eu indico o site e os audiolivros.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cântico

 XXVI

O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste breve,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...


MEIRELES, Cecília. Cânticos. 3 ed. São Paulo: Moderna, 2003. p. 61.


P.S.: Considero o livro Cânticos, da Cecília Meireles, o mais belo entre todos os seus. Grande parte desta minha atribuição, repousa no fato de os poemas deste livro possuírem, todos, uma sutil e, ao mesmo tempo, intensa espiritualidade. Cecília poetiza o sublime. Faz isso ainda advertindo o homem, com seu jeito cadente e leve, sobre as agruras mundanas e a essência divina.
Como falávamos em experiência poética na postagem anterior, fica a oportunidade de vivê-la com este poema, que é muito mais poesia.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Poesia & Crise


Marcos Siscar, professor no departamento de Teoria Literária do IEL/Unicamp (Instituto de Estudos da Linguagem), no dia 29 de março, lançou o seu mais recente livro, chamado Poesia e Crise (Editora da Unicamp, 360 páginas, R$60 reais). Na mesma semana, o Jornal da Unicamp publicou uma entrevista com o professor, na qual ele mencionou algumas das questões discutidas no seu livro e outras convergentes.
Uma delas, que inclusive resulta no título da obra, diz respeito ao “discurso da crise”. Siscar, ao responder a inevitável pergunta do entrevistador, a se a poesia está ou não em crise, afirma que este é o tema do seu livro, e que, apesar dos desafios contemporâneos para a publicação, veiculação e leitura deste gênero, ele continua lendo poesia com grande interesse.
A resposta é pouco fácil de ser benquista, entre outras razões, por se ter em consideração o espaço particular e profissional de um professor de literatura (e também autor de alguns poemas), que tem, não só por prazer, mas, por ofício acadêmico, reavivar a leitura do gênero. Neste caso, a crise parece ficar pouco impossível de ser inteiramente consentida – não que eu queira insistir na afirmação de alguns poetas e jornalistas de que a poesia está em crise. No caso, no que se refere à minha opinião, a crise da poesia sempre existiu - e existirá, como em qualquer época isso é discutido-, o que a vai determinar (ou não) é a capacidade de tornar a poesia uma experiência perceptível para as pessoas. A poesia prescinde de viáveis formas de se ter contato com ela. Isso representa a crise para mim. É certo, por exemplo, o debate sobre as razões históricas e sociológicas do início da escassez da poesia, como alguns exemplificam pela evasão dos poemas dos jornais. Só que isso não é o bastante para exemplificar uma crise, a meu ver. Ao mesmo tempo em que a poesia abandona os jornais, ela encontra mídias alternativas mais usadas (após as mudanças em toda a história da comunicação), como é a internet, embora esta seja, sem dúvida, a também grande responsável pelo distanciamento das pessoas da sensibilidade poética. Mas, desde muito tempo sabemos que o que se refere à internet está ligado a uma questão de seleção, de saber usá-la. Ela pode ser, por exemplo, também um instrumento de aproximação das pessoas para com a experiência poética (por que não seria?). Por isso insisto em acreditar e afirmar que a crise da poesia está nos meios de tornar a poesia uma experiência, para o que não é imprescindível (nem dispensável) o poema, pois como sugere belamente Octávio Paz (na obra O Arco e a Lira, por exemplo), a poesia não está só no poema. Ele é uma das vias para se contactar-se a ela. Portanto, a experiência poética precede a busca pelo poesia e, consequentemente, o seu resultado oferece o fim da crise, mesmo em meio a tantas circunstâncias históricas.
E, para retornar ao Siscar, ele vai defender que o que mais existe é o “discurso da crise”: “tento mostrar que o discurso faz parte da situação, por assim dizer, e que, ao fazer parte, também a modifica”. Para ele, “os poetas, nos seus poemas ou na sua crítica, têm apontado periodicamente a falência ou o desaparecimento do gênero poético, diante da emergência de valores inconciliáveis com a atitude artística. O resultado desta observação é que, dos pós-românticos aos decadentistas, das vanguardas e seus diversos espasmos à discussão contemporânea, cada geração atualiza a seu modo a ideia de que a poesia estivesse acabando ali”. Conclusão que tira após notar a convergência entre os resultados da exegese dos primórdios da poesia moderna e a reflexão sobre o estado contemporâneo da poesia, especialmente no Brasil.
Mesmo que algumas das suas argumentações, em certos momentos, assinalem para o inaceitável, ele propõe, na entrevista, além (e talvez mais) do que o tema da poesia e da crise, discussões pertinentes e áridas sobre a questão dos cânones literários - e o papel da universidade sobre eles; a relação, atualíssima, da poesia com o jornalismo e com a tecnologia; e a sempre incômoda questão do ensino de literatura. Por gostar da reflexão que os assuntos propõem, sobremaneira pelas respostas que ele dá, transcrevo algumas das melhores (julgamento pessoal) perguntas e respostas divulgadas pelo JU (Jornal da Unicamp).
JU: Na apresentação do livro, o senhor assinala que “o discurso poético é aquele que não apenas sente o impacto dessa crise, não apenas deixa ler em seu corpo as marcas da violência característica da época, mas que, a partir dessas marcas, nomeia a crise – a indica, a dramatiza como sentido do contemporâneo”. Quais são os efeitos mais deletérios dessa mimetização?
Não quero negar que existe uma “crise”, pois é assim que, muitas vezes os artistas e os observadores do contemporâneo sentem a situação dita “moderna”. Esse sentimento é mesmo, mais do que admissível, crucial para entender o sentido de nossa arte e de nossa literatura. Mas achar que a arte e a literatura são apenas “expressão” desse mal-estar é ignorar fundamentalmente sua própria constituição.  [...] A poesia é uma das grandes responsáveis pela caracterização, pela explicação e pela formalização desse sentimento de crise, que tem versões conhecidas na filosofia, na psicanálise, na economia política.   [...] Creio que a poesia dispõe-se a chamar a atenção, de modos variados, para as contradições de que participamos, históricas ou afetivas; não só não as evita, como faz dessas contradições um “drama”, agravando na ordem do sensível, do afetivo, aquilo que aparentemente nos rodeia.
JU: Não raro a academia é vista como incapaz de descortinar e analisar novos cenários por estar aprisionada a cânones. O senhor concorda?
Corro o risco de ser acusado de argumentar em causa própria, mas acho que nesse campo é preciso ser muito direto: a “academia” é um dos raros lugares em que se pode de fato analisar novos cenários. Não tenho conhecimento de nenhum outro lugar institucional onde se discuta tão abertamente, com critérios e com rigor, o estado contemporâneo da cultura e da sociedade. A própria ideia de que somos prisioneiros de nossos cânones provém de dentro da universidade. A universidade é um espaço cuja natureza é poder suportar sua própria crítica e se renovar a partir dela. [...] A pluralidade e a diferença de opiniões são uma riqueza e não um déficit. [...] Há, é claro, e isso faz parte da crítica interna da universidade (a qual sua concepção lhe dá não apenas o direito, mas o dever), muitos “ritmos”: coisas que demoram mover-se, mais do que deveriam, que se escoram nos hábitos e em valores não problematizados; e há coisas que querem mover-se rápido demais, sem conseguir avaliar que interesses estão em jogo no deslocamento. Saber em que categoria devemos colocar, por exemplo, a questão do “cânone” (que nada mais é do que a questão dos currículos e das prioridades da universidade) é o próprio objeto da discussão e não a expressão de uma “incapacidade”. A questão envolve não apenas o conteúdo das disciplinas, mas o próprio destino delas.
JU: Nesse contexto (de discussão da relação da poesia com o jornalismo e do mercantilismo que eventualmente surge desta relação), a internet tem poder de fogo para substituir os chamados “jornalões”?
[...] A própria poesia, embora pretenda estar nos lugares mais avançados do aproveitamento da tecnologia, na verdade, como um todo, depende muito pouco dela. É um gênero econômico e tecnologicamente marginal, o que lhe dá pouca atenção do “mercado”, mas muita liberdade para afirmar suas próprias prioridades.
JU: Qual a sua avaliação do ensino de literatura hoje no país?
Tenho muita preocupação com as discussões sobre o assunto, sobretudo em termos de elaboração de currículos, das quais nem sempre participam os profissionais de literatura. [...] As ênfases na formação de “mão-de-obra” (no lugar da formação de cidadãos) e nos meios de aprendizagem (em detrimento dos conteúdos específicos), embora tenham razão de ser, a partir de ângulos específicos, tendem a deixar à margem a formação do cidadão, como homem de sua cultura, ainda que cosmopolita. A literatura e a tradição literária não são apenas mais um registro da nossa língua; sua riqueza de elaboração da nossa situação, quer seja seja de brasileiros ou de humanos, é inestimável, tanto como memória histórica quanto como capacidade ativa de construção de imaginário.  

Fonte: Jornal da Unicamp. Campinas, 28 de março a 3 de abril de 2011, p. 5 a 7.