quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Contos (2)

O rio das Quatro Luzes

O coração é como a árvore - onde quiser volta a nascer.
                                                      (Adaptação de um provérbio moçambicano)


Vendo passar o cortejo fúnebre, o menino falou:
- Mãe: eu também quero ir em caixa daquelas.
A alma da mãe, na mão do miúdo, estremeceu. O menino sentiu esse arrepio, como descarga da alma na corrente do corpo. A mãe puxou-o pelo braço, em repreensão.
- Não fale nunca mais isso.
Um esticão enfatizava cada palavra.
- Porquê, mãe? Eu só queria ir a enterrar como aquele falecido.
- Viu? Já está falar outra vez?
Ele sentiu a angústia em sua mãe já vertida em lágrima. Calou-se, guardado em si. Ainda olhou o desfile com inveja. Ter alguém assim que chore por nós, quanto vale uma tristeza dessas?
À noite, o pai foi visitá-lo na penumbra do quarto. O menino suspeitou: nunca o pai lhe dirigira um pensamento. O homem avançou uma tosse solene, anunciando a seriedade do assunto. Que a mãe lhe informara sobre seus soturnos comentários no funeral. Que se passava, afinal?
- Eu não quero mais ser criança.
- Como assim?
- Quero envelhecer rápido, pai. Ficar mais velho que o senhor.
Que valia ser criança se lhe faltava a infância? Este mundo não estava para meninices. Porque nos fazem com esta idade, tão pequenos, se a vida aparece sempre adiada para outras idades, outras vidas? Deviam-nos fazer já graúdos, ensinados a sonhar com conta medida. Mesmo o pai passava a vida louvando a sua infância, seu tempo de maravilhas. Se foi para lhe roubar a fonte desse tempo, porque razão o deixaram beber dessa água?
- Meu filho, você tem que gostar viver, Deus nos deu esse milagre. Faça de conta que é uma prenda, a vida.
Mas ele não gostava dessa prenda. Não seria que Deus lhe podia dar outra, diferente?
- Não diga disso, Deus lhe castiga.
E a conversa não teve mais diálogo. Fechou-se sob ameaça de punição divina.
O menino permanecia em desistência de tudo. Sem nenhum portanto nem consequência. Até que, certa vez, ele decidiu visitar seu avô. Certamente ele o escutaria com maiores paciências.
- Avô, o que é preciso para se ser morto?
- Necessita ficar nu como um búzio.
- Mas eu tanta vez estou nuzinho.
- Tem que ser leve como lua.
- Mas eu já sou levinho como a ave penugenta.
- Precisa mais: precisa ficar escuro na escuridão.
- Mas eu sou tinto e retinto. Pretinho como sou, até de noite me indistinto do pirilampo avariado.
Então, o avô lhe propôs o negócio. As leis do tempo fariam prever que ele fosse retirado primeiro da vida. Pois ele falaria com Deus e requereria mui respeitosamente que se procedesse a uma troca: o miúdo falecesse no lugar do avô.
- A sério, avô? O senhor vai pedir isso por mim?
- Juro, meu filho. Eu amo de mais viver. Vou pedir a Deus.
E ficou combinado e jurado. A partir daí, o menino visitava o avô com ansiedade de capuchinho vermelho. Desejava saber se o velho não estaria atacado de doença, falho no respirar, coração gaguejado. Mas o avô continuava direito e são.
- Tem rezado a Deus, avô? Tem-Lhe pedido consoante o combinado?
Que sim, tinha endereçado os ajustados requerimentos. A troca das mortes, o negócio dos finais. Esperava deferimento, ensinado pela paciência. Conselho do avô: ele que, entretanto, fosse meninando, distraído nos brincados. Que, ainda agora, o que ele se lembrava era o mais antigo de sua existência. E lhe contou os lugares secretos de sua infância, mostrou-lhe as grutas junto ao rio, perseguiram borboletas, adivinharam pegadas de bichos. O menino, sem saber, se iniciava nos amplos territórios da infância. Na companhia do avô, o moço se criançava, convertido em menino. A voz antiga era o pátio onde ele se adornava de folguedos. E assim sendo.
Uma certa tarde, o avô visitou a casa dos seus filhos, sentou-se na sala e ordenou que o neto saísse. Queria falar, a sós, com os pais da criança. E o velho deu entendimento: criancice é como amor, não se desempenha sozinha. Faltava aos pais serem filhos, juntarem-se miúdos com o miúdo. Faltava aceitarem despir a idade, desobedecer ao tempo, esquivar-se do corpo e do juízo. Esse é o milagre que um filho oferece - nascermos em outras vidas. E mais nada falou.
- Agora já me vou - disse ele - porque senão ainda adormeço com minhas próprias falas.
- Fique, pai.
- Já assim velho, sou como o cigarro: adormeço na orelha.
Se ergueu e, na soleira, rodou como se tivesse sido assaltado por pedaço de lembrança. Acorreram, em aflição. O que se passava? O avô serenou: era apenas cansaço. Os outros insistiram, sugerindo exames.
- O pai vá e descanse com muito cuidado.
- Não é desses cansaços que nos pesam. Ao contrário, agora ando mais celestial que nuvem.
Que aquela fadiga era a fala de Deus, mensagem que estava recebendo na silenciosa língua dos céus.
- Estou ser chamado. Quem sabe, meus filhos, esta é nossa última vez?
O casal recusou despedir-se. Acompanharam o avô a casa e sentaram-no na cadeira da varanda. Era ali que ele queria repousar. Olhando o rio, lá em baixo. E ali ficou, em silêncio. De repente, ele viu a corrente do rio inverter de direcção.
- Viram? O rio já se virou.
E sorriu. Estivesse confirmando o improvável vaticínio. O velho cedeu às pálpebras. Seu sono ficou sem peso. Antes, ainda murmurou no ouvido de seu filho:
- Diga a meu neto que eu menti. Nunca fiz pedido nenhum a nenhum Deus.
Não houve precisão de mensagem. Longe, na residência do casal, o menino sentiu reverter-se o caudal do tempo. E os seus olhos se intemporaram em duas pedrinhas. No leito do rio se afundaram quatro luzências.
Da feição que fui fazendo, vos contei o motivo do nome deste rio que se abre na minha paisagem, frente à minha varanda. O rio das Quatro Luzes.


COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pp. 111-115.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O fio e as missangas

Encontro JMC sentado num banco de jardim. Está recatado, em solene solidão, como se só ali, em assento público, encontrasse devida privacidade. Ou como se aquele fosse seu recinto de toda a vida morar. Em volta, o tempo intacto, só com horas certas.
Nunca soube o seu nome por extenso. Creio que ninguém sabe, nem mesmo ele. As pessoas chamam-no assim, soletrando as iniciais: jota eme cê.
Saúdo-o, em inclinação respeitosa. Ele ergue os olhos como se a luz fosse excessiva. Um subtil agitar de dedos: ele quer que eu me sente e o salve da solidão.
- Lembra que sentámos neste mesmo lugar há uns anos atrás?
- Recordo, sim senhor. Parece que foi ontem.
- O ontem é muito longe para mim. Minha lembrança só chega às coisas antigas. 
- Ora, o senhor ainda é novo.
- Não sou velho, é verdade. Mas fui ganhando muitas velhices.
E deixámo-nos, calados. Vou lembrando os tempos em que este homem magro e alto desembocava neste mesmo jardim. Acontecia todo o final de tarde. Recordo as suas confidências. Que ele, sendo devidamente casado, se enamorava de paixão ardente por infinitas mulheres. Não há dedos para as contar, todinhas, dizia. 
- A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas...
Sempre que fazia amor com uma delas não regressava directamente a casa. Ia, sim, para casa de sua velha mãe. A ela lhe cotava as intimidades de cada novo caso, as diferentes doçuras de cada uma das amantes. De olhos fechados, a velha escutava e fingia até adormecer no cansado sofá de sua sala. No final, tomava nas suas as mãos do filho e ordenava que ele tomasse banho ali mesmo. 
- Não vá a sua mulher cheirar a presença de uma outra - dizia.
E JMC se enfiava na banheira enquanto a velha mãe o esfregava com uma esponja cheirosa. Acabado o banho, ela o enxugava, devagarosa como se o tempo passasse por suas mãos e ela o retivesse nas dobras da toalha.
- Continue, meu filho, vá distribuindo esse coração seu que é tão grande. Nunca pare de visitar as mulheres. Nunca pare de as amar...
- E o pai, o pai sempre lhe foi fiel?
- Seu pai, mesmo leal, nunca poderia ser fiel...
- E porquê?
- Seu pai nunca soube amar ninguém...
Agora, tantos anos passados, quase não reconheço o mulherengo homem alto e magro.
- Desculpe perguntar, JMC. Mas o senhor ainda continua visitando mulheres?
Ele não responde. Está absorvido, confrontando unhas com os respectivos dedos. Ter-me-á ouvido? Por recato, não repito a pergunta. Após um tempo, confessa num murmúrio:
- Nunca mais. Nunca mais visitei nenhuma mulher.
Uma tristeza lhe escava a voz. Me confessava, afinal, uma espécie de viuvez. Foi ele quem quebrou a pausa:
- É que sabe? Minha mãe morreu...
Meu coração sapateia, desentendido. Pudesse haver silêncio feito de gente estar calada. Mas esse silêncio não há. E nesse vazio permanecemos ambos até que, por entre o cinzentear da tarde, surge Dona Graciosa, esposa de JMC. Está irreconhecível, parece deslocada de um baile de máscaras. Vem de brilhos e flores, mais decote que blusa, mais perna que vestido. Me soergo para lhe dar o lugar no banco. Mas ela se dirige ao marido, suave e doce:
- Me acompanha, JMC?
- E você quem é, minha flor?
- O meu nome me há-de chamar, mas só depois.
- Depois? Depois de quê?
- Ora, só depois...
De braços dados, os dois se afastam. A noite me envolve, com seu abraço de cacimbo. E não dou conta de que estou só. 

COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pp. 65-67 
(conto: "O fio e as missangas").
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Um dos dilemas de Guido Anselmi, protagonista do 8 1/2 ("Otto e Mezzo", Itália/ França, 1963) de Fellini, repousa na sua incapacidade de se relacionar com uma única mulher. Guido sempre está às voltas com muitas e diferentes mulheres, e não sustenta um par fiel com nenhuma. Ele visita e é visitado pelas mulheres. 

JMC, personagem do conto acima, espelha Guido. Ambos os personagens, em realidade, acabam sendo muito sozinhos, embora terminem sempre acompanhados por alguma mulher- nesses dois casos, a esposa. O mesmo desfecho para as histórias pode vir a ser uma confirmação para a correta escolha por determinada esposa, embora possa também, ao mesmo tempo das esposas, não significar o fim da solidão e do envolvimento com muitas mulheres... 

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Uma noite em 67


Uma noite em 67 (2010) é um documentário sobre o encerramento do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, ocorrida no dia 21 de outubro de 1967. Além de trazer os lendários shows dos então jovens Caetano Veloso, cantando "Alegria, Alegria", Chico Buarque de Holanda e o MPB4, "Roda Viva", Gilberto Gil e Os Mutantes, "Domingo no Parque", Roberto Carlos, "Maria, carnaval e cinzas",  Sérgio Ricardo, "Beto bom de bola", "Edu Lobo com Marília Medalha, cantando "Ponteio", alterna às apresentações musicais, depoimentos atuais dos músicos e outras personalidades que estiveram no Festival, como o engraçado Nelson Motta.

O documentário é divertido e acaba sendo muitas vezes engraçado. O que mais contribui para isso são os entrevistadores do Festival e as suas perguntas ou comentários prosaicos. Cidinha, uma das entrevistadoras, por exemplo, discorre sobre a moda de dar nomes de legumes para cores ao falar do próprio vestido (verde-chuchu) e reparar na cor da camisa de Roberto Carlos. Já outras falas e casos dos depoimentos também rendem boas risadas. O realizador do evento, Solano Ribeiro, lembra que na hora da apresentação do Chico Buarque, ele não encontrava o músico. Desesperado, saiu pelas ruas para procurá-lo. Solano achou Chico num botequim de esquina, todo despreocupado...

Chama atenção no filme, a presença do público no Festival. Como disse Sérgio Ricardo, "o público já era um personagem do evento. Já tinha seu papel. Eles queriam participar como os músicos." Em algumas apresentações musicais, ou melhor, na maioria delas, as vaias e os aplausos atrapalhavam o show dos cantores. Na apresentação do próprio Sérgio Ricardo, que ficou inesquecível pela polêmica, as vaias foram tão intensas, que ele não conseguiu terminar o show. Intolerante com a reação do público, quebrou o seu violão e o arremessou na plateia. 

O documentário, além de ser divertido, mostrar a maneira da presença do público na década de 60, conta ainda com falas interessantes sobre os festivais, que hoje, mais que simples eventos de televisão, têm importância histórica e política não só para a história da música, como também para a do país. Como disse Caetano, ir se apresentar no Festival também significava assumir uma atitude política - ainda que muitos não declarassem esta opção. A busca de alguns músicos por apresentar canções com arranjos musicais emprestados ou inspirados nos acordes do pop e rock inglês e norte-americano, sobretudo, era um convite à inovação da MPB - e que  entusiasmaria o surgimento do Tropicalismo -, mas também, simultaneamente, uma recusa a todos os padrões de um país reprimido pela ditadura. 

Muito bem editado e organizado, acho que os diretores Renato Terra e Ricardo Calil fizeram um documento histórico (não pouco divertido) imprescindível. Coloco, abaixo, o trailer oficial dele. 


sábado, 20 de agosto de 2011

Arnaldo Antunes e o seu Grêmio Recreativo

Grêmio Recreativo é um ensaio musical, em que um cantor convida outros cantores, compositores e músicos para se apresentarem juntos. Numa reunião bastante descontraída, os músicos são filmados conversando como amigos e artistas, espaçando risadas e apresentações musicais.

A edição (reapresentada) do Grêmio que conferi, ontem à tarde, pelo MTV, teve Arnaldo Antunes como responsável por organizar o encontro. Como esperado, ele convidou grandes músicos. O programa apresentado ontem contava com a participação da Marisa Monte, da Adriana Calcanhotto, do Cézar Mendes, do Moreno Veloso, do Kassin, do Domenico Lancelloti e do Betão Aguiar. Deixo-o abaixo. 


O Grêmio Recreativo com Arnaldo teve 10 edições, para conferirem todas elas, é só clicar aqui.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Lua de Papel


O filme Lua de Papel ("Paper Moon", EUA, 1973) é uma comédia construída sobre fatos, aparentemente, nada cômicos.

Durante o enterro da mãe de Addie Loggins (Tatum O' Neal) - uma menina de 9 anos, aparece Moses Pray (Ryan O' Neal), quem se propõe a levar Addie para a casa de uma tia, responsável pela órfã. Moses aparece no velório e se interessa pela menina, apenas porque ele já sabia da existência de certa quantia de dinheiro reservada para a criança, a ser pêga no meio do percurso até a casa da parente de Addie.

Moses é um vigarista já habituado a ganhar a vida em circunstâncias de mortes. Sua "profissão" é vender edições especiais da Bíblia para viúvas, em cujas capas vinha gravado o nome das mulheres. Convencia-as a comprar o livro sagrado, alegando que os maridos recém-mortos tinham encomendado a tal Bíblia e pretendiam dá-la de presente para elas, embora eles não a tivessem pago ainda. Muito cretino, Moses descobria essas viúvas porque sempre andava com o jornal aberto nas notas de óbito, onde havia os nomes completos das esposas e seus falecidos maridos.

Acontece que quando Moses tenta seu golpe de vigarista com Addie, não funciona. Ele rouba o dinheiro que a menina nem sabia que era seu, e gasta-o numa loja de peças de carro. Só que numa conversa com o lojista, a menina entende que o dinheiro que Moses havia gastado era dela. Para surpresa do adulto, a criança passa a exigir o seu dinheiro. E ele, então, muito sem graça e aborrecido pela desenvoltura, insistência e esperteza dela, resolve angariar tal quantia na venda de Bíblias. A partir de então, Addie passa a acompanhar Moses nas suas trapaças. E, a cada contato dele com as viúvas, bem como com outras pessoas, e em outras situações, a menina vai descobrindo, e aprendendo muito bem, o mundo de sabotagem, esperteza, maldade e vícios que muito existia nas relações de Moses e dos adultos. Esta observação atenta da criança sobre as atitudes e intenções de Moses, logo a torna capaz de ser participante dos golpes.

Jogando com o inesperado e não politicamente correto - caracterização que, inclusive, já foi muito atribuída ao filme -, o diretor coloca como consequência da observação da vilania adulta, por parte da criança, o envolvimento infantil, e não discursos moralistas. Todavia, ao optar por colocar a criança repetindo um universo pernicioso, não abandona cenas sutis de alta sugestão aos valores humanos. É o caso do retrato da  compaixão e do discernimento de Addie pela condição de um viúva com muitos filhos. Numa cena em que uma mãe, rodeada de crianças, abre a porta para receber Moses e Addie, a menina se vê incapaz de deixar que Moses engane a mulher, e chega a dar a Bíblia de graça para ela.

A companhia de Addie na vida de Moses rende também (e, de forma dominante)situações engraçadas e de mostra da sagacidade infantil.  Uma das melhores é quando a menina tem a iniciativa de por fim no relacionamento de Moses com uma dançarina (Madeline Kahn), que só se aproximara dele para lhe tirar dinheiro. Addie articula todo um plano valendo-se dos vícios dos envolvidos. Ganha a dançarina alimentando a sua cobiça, e um funcionário de hotel, pela luxúria. Faz com que os dois sejam descobertos, por Moses, quando estão juntos no mesmo quarto de hotel. Aliás, essa capacidade da criança Addie observar exatamente qual o vicío, a fraqueza dos adultos, e ser capaz de utilizá-lo a favor ou contra eles, não é só indicativo de esperteza, mas é o que a coloca também distanciada dos adutos, e/ou, não tão totalmente imersa no mundo sujo deles.

É válido saber que o filme é ambientado no contexto da Grande Depressão (Crise de 1929) dos Estados Unidos. Mas, associar esse dado com as malandragens da dançarina e de Moses, tornando-o uma justificativa para aceitação dos atos traiçoeiros desses personagens, é inviável. A época da crise financeira é mais propícia para a busca do dinheiro rápido e fácil, mas, penso eu, não serve de justificativa para a malandragem e atitudes traiçoeiras.  

Lua de Papel, apesar de ser uma produção da década de 70, foi todo feito em preto e branco, por opção de Peter Bogdanovich, o diretor. Outra fato não-convencional, e que certamente, para o censura e a moral contemporâneas seria inadmissível, são as cenas que Addie, a menininha de 9 anos, fuma.

Para aqueles que não conhecem o filme, afirmo que vale muito a pena assisti-lo. Não somente pela desenvoltura da menina Tatum O' Neal - que, inclusive, foi a criança mais jovem a ganhar um Oscar - e a atuação de Ryan O' Neal - pai de Tatum, na vida real -, mas  para se descobrir o motivo, muito engenhoso e bonito, dessa história toda render um título como o de Lua de Papel.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Contos (1)

Os Barcos Suicidas

Na verdade, existem poucas coisas mais terríveis que encontrar no mar um navio abandonado. Se de dia o perigo é menor, de noite o navio não é visto nem há advertência possível: o choque leva um e outro.
Estes navios abandonados por a ou por b navegam obstinadamente a favor das correntes ou do vento, se estiverem com as velas desfraldadas. Percorrem assim os mares, mudando caprichosamente de rumo.
Não são poucos os vapores que um belo dia não chegaram ao porto depois de tropeçarem em seu caminho com um desses barcos silenciosos que viajam por conta própria. Sempre existe a probabilidade de encontrá-los a cada minuto. Por sorte, as correntes costumam enredá-los nos mares de sargaço. Os barcos se detêm, enfim, aqui ou acolá, imóveis para sempre nesse deserto de águas. E assim ficam, até que pouco a pouco vão se desfazendo. Mas outros chegam a cada dia e ocupam seu lugar em silêncio, de maneira que o tranquilo e lúgubre posto está sempre frequentado.
O principal motivo destes abandonos de barco são sem dúvida as tempestades e os incêndios, que deixam à deriva negros esqueletos errantes. Mas existem outras causas singulares, entre as quais podemos incluir  sucedido ao Maria Margarida, que zarpou de Nova York no dia 24 de agosto de 1903 e que no dia 26 de manhã comunicou-se com uma corveta, sem acusar novidade alguma. Quatro horas mais tarde, um vapor grande, não obtendo resposta, lançou uma chalupa que abordou o Maria Margarida. No barco não havia ninguém. As camisetas dos marinheiros secavam na proa. O fogão ainda estava aceso. Uma máquina de costura tinha a agulha suspensa sobre a costura, como se houvesse sido deixada um momento antes. Não havia o menor sinal de luta nem de pânico, tudo estava na mais perfeita ordem. E não havia ninguém. O que aconteceu?
Na noite em que ouvi esta história estávamos reunidos no convés. Estávamos indo para a Europa e o capitão nos contava sua história marítima, perfeitamente correta, aliás.
A plateia feminina, tomada pela sugestão do ondular sussurante da maré, ouvia estremecida. As moças nervosas prestavam sem querer inquieto ouvido à rouca voz dos marinheiros na proa. Uma senhora muito jovem e recém-casada atreveu-se:
- Não teriam sido as águias?
O capitão sorriu bondosamente.
- Como assim, minha senhora? Águias que levam uma tripulação?
Todos riram e a jovem também, um pouco envergonhada.
Felizmente, um passageiro sabia algo sobre o assunto. Olhamos para ele curiosamente. Durante a viagem tinha sido um excelente companheiro, admirando por sua conta e risco e falando pouco.
- Ah, se o senhor nos contasse coisas... - suplicou a jovem das águias.
- Com o maior prazer - concordou o discreto indivíduo. - Em duas palavras: "Nos mares do Norte, e como aconteceu com o Maria Margarida do capitão, encontramos uma vez uma escuna. Nosso rumo - também viajávamos à vela - nos levou quase que ao seu lado. O singular aspecto de abandono, que não engana num barco, chamou nossa atenção e diminuímos a velocidade, observando-o. Finalmente, soltamos uma chalupa. A bordo não foi encontrado ninguém e tudo também estava na mais perfeita ordem. Mas a última anotação no diário datava de quatro dias antes, e por isso não sentimos uma impressão maior. Chegamos a rir um pouco das famosas desaparições súbitas.
"Oito de nossos homens ficaram a bordo para governar o novo barco. Viajaríamos acompanhando aquela escuna. Ao anoitecer fizemos um pouco de caminho. Ao dia seguinte a alcançamos, mas não vimos ninguém no convés. Lançamos de novo a chalupa, e os que foram até lá percorreram a escuna em vão: todos haviam desaparecido. Nenhum objeto fora do lugar. O mar estava absolutamente claro e liso em toda a sua extensão. Na cozinha ainda fervia uma panela com batatas.
"Como os senhores e as senhoras compreenderão, o terror supersticioso da nossa gente chegou ao máximo. Depois de algum tempo, seis animaram-se a preencher o vazio, e eu fui com eles. Assim que chegamos a bordo, meus novos companheiros decidiram beber para desterrar qualquer preocupação. Estavam sentados em círculo, e logo a maioria já cantava.
"Chegou o meio-dia e passou a sesta. Às quatro a brisa cessou e as velas caíram. Um marinheiro aproximou-se da borda e olhou o mar oleoso. Todos tinham se levantado, passeando, já sem vontade de falar.Um sentou-se num cabo enrolado e tirou a camiseta para remendá-la. Coseu um tempinho em silêncio. De repente levantou-se e lançou um longo assovio. Seus companheiros se viraram. Ele olhou-os vagamente, também surpreendido, e sentou-se de novo. Um momento depois largou a camiseta, avançou pela borda e atirou-se na água. Ao sentir o ruído os outros viraram a cabeça, com o cenho ligeiramente franzido. Em seguida se esqueceram, voltando à apatia comum.
"Logo depois outro espreguiçou-se, caminhou esfregando os olhos e atirou-se na água. Passou meia hora; o sol ia caindo. Senti de repente que alguém me tocava o ombro.
- Que horas são?
- Cinco - respondi. O velho marinheiro que tinha me feito a pergunta olhou-me desconfiado, com as mãos nos bolsos, encostando-se na minha frente.
"Olhou um longo tempo para as minhas calças, distraído. E enfim atirou-se na água.
"Os três que sobraram aproximaram-se rapidamente e observaram o redemoinho. Sentaram-se na borda assoviando devagar com a vista perdida ao longe. Um deles desceu da borda e estendeu-se no convés, cansado. Os outros desapareceram, um atrás do outro. Às seis, o último (o homem ergueu-se, arrumou a roupa) afastou os cabelos da testa, caminhou ainda com sono e atirou-se na água.
"Então fiquei sozinho, olhando como um idiota o mar deserto. Todos, sem saber o que faziam, haviam se atirado ao mar, envolvidos no sonambulismo doentio que flutuava no barco. Quando um se atirava na água, os outros se viravam, momentaneamente preocupados, como se recordassem alguma coisa, para esquecer em seguida. Assim haviam desaparecido todos, e suponho que a mesma coisa tenha acontecido aos do dia anterior, e aos outros, e também com os dos outros barcos. Isto é tudo."
Ficamos olhando para aquele homem estranho com explicável curiosidade.
- E o senhor não sentiu nada? - perguntou-lhe meu vizinho de camarote.
- Sim. Um grande tédio e a obstinação das mesmas ideias, e nada mais. Não sei por que não segui os outros. Presumo que o motivo seja este: em vez de esgotar-me numa defesa angustiosa e a qualquer preço contra o que sentia, como devem ter feito todos os outros, e até mesmo os marinheiros, sem perceber, simplesmente aceitei aquela morte hipnótica, como se já estivesse anulado. Sem dúvida alguma, algo muito semelhante deve ter ocorrido aos sentinelas daquela guarda célebre que noite após noite se enforcavam.
Como o comentário era bastante complicado, ninguém respondeu. Pouco depois, o narrador retirava-se para o seu camarote. O capitão seguiu-o durante algum tempo, olhando de viés.
- Farsante! - murmurou.
- Ao contrário - disse um passageiro enfermo, que estava indo morrer em sua terra natal. - Se fosse farsante, com certeza teria pensado nisso e também teria se atirado na água.

QUIROGA, Horacio. Contos de amor, de loucura e de morte. Trad. Eric Nepomuceno. São Paulo: Abril, 2010, pp.63-67.