quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Contos (1)

Os Barcos Suicidas

Na verdade, existem poucas coisas mais terríveis que encontrar no mar um navio abandonado. Se de dia o perigo é menor, de noite o navio não é visto nem há advertência possível: o choque leva um e outro.
Estes navios abandonados por a ou por b navegam obstinadamente a favor das correntes ou do vento, se estiverem com as velas desfraldadas. Percorrem assim os mares, mudando caprichosamente de rumo.
Não são poucos os vapores que um belo dia não chegaram ao porto depois de tropeçarem em seu caminho com um desses barcos silenciosos que viajam por conta própria. Sempre existe a probabilidade de encontrá-los a cada minuto. Por sorte, as correntes costumam enredá-los nos mares de sargaço. Os barcos se detêm, enfim, aqui ou acolá, imóveis para sempre nesse deserto de águas. E assim ficam, até que pouco a pouco vão se desfazendo. Mas outros chegam a cada dia e ocupam seu lugar em silêncio, de maneira que o tranquilo e lúgubre posto está sempre frequentado.
O principal motivo destes abandonos de barco são sem dúvida as tempestades e os incêndios, que deixam à deriva negros esqueletos errantes. Mas existem outras causas singulares, entre as quais podemos incluir  sucedido ao Maria Margarida, que zarpou de Nova York no dia 24 de agosto de 1903 e que no dia 26 de manhã comunicou-se com uma corveta, sem acusar novidade alguma. Quatro horas mais tarde, um vapor grande, não obtendo resposta, lançou uma chalupa que abordou o Maria Margarida. No barco não havia ninguém. As camisetas dos marinheiros secavam na proa. O fogão ainda estava aceso. Uma máquina de costura tinha a agulha suspensa sobre a costura, como se houvesse sido deixada um momento antes. Não havia o menor sinal de luta nem de pânico, tudo estava na mais perfeita ordem. E não havia ninguém. O que aconteceu?
Na noite em que ouvi esta história estávamos reunidos no convés. Estávamos indo para a Europa e o capitão nos contava sua história marítima, perfeitamente correta, aliás.
A plateia feminina, tomada pela sugestão do ondular sussurante da maré, ouvia estremecida. As moças nervosas prestavam sem querer inquieto ouvido à rouca voz dos marinheiros na proa. Uma senhora muito jovem e recém-casada atreveu-se:
- Não teriam sido as águias?
O capitão sorriu bondosamente.
- Como assim, minha senhora? Águias que levam uma tripulação?
Todos riram e a jovem também, um pouco envergonhada.
Felizmente, um passageiro sabia algo sobre o assunto. Olhamos para ele curiosamente. Durante a viagem tinha sido um excelente companheiro, admirando por sua conta e risco e falando pouco.
- Ah, se o senhor nos contasse coisas... - suplicou a jovem das águias.
- Com o maior prazer - concordou o discreto indivíduo. - Em duas palavras: "Nos mares do Norte, e como aconteceu com o Maria Margarida do capitão, encontramos uma vez uma escuna. Nosso rumo - também viajávamos à vela - nos levou quase que ao seu lado. O singular aspecto de abandono, que não engana num barco, chamou nossa atenção e diminuímos a velocidade, observando-o. Finalmente, soltamos uma chalupa. A bordo não foi encontrado ninguém e tudo também estava na mais perfeita ordem. Mas a última anotação no diário datava de quatro dias antes, e por isso não sentimos uma impressão maior. Chegamos a rir um pouco das famosas desaparições súbitas.
"Oito de nossos homens ficaram a bordo para governar o novo barco. Viajaríamos acompanhando aquela escuna. Ao anoitecer fizemos um pouco de caminho. Ao dia seguinte a alcançamos, mas não vimos ninguém no convés. Lançamos de novo a chalupa, e os que foram até lá percorreram a escuna em vão: todos haviam desaparecido. Nenhum objeto fora do lugar. O mar estava absolutamente claro e liso em toda a sua extensão. Na cozinha ainda fervia uma panela com batatas.
"Como os senhores e as senhoras compreenderão, o terror supersticioso da nossa gente chegou ao máximo. Depois de algum tempo, seis animaram-se a preencher o vazio, e eu fui com eles. Assim que chegamos a bordo, meus novos companheiros decidiram beber para desterrar qualquer preocupação. Estavam sentados em círculo, e logo a maioria já cantava.
"Chegou o meio-dia e passou a sesta. Às quatro a brisa cessou e as velas caíram. Um marinheiro aproximou-se da borda e olhou o mar oleoso. Todos tinham se levantado, passeando, já sem vontade de falar.Um sentou-se num cabo enrolado e tirou a camiseta para remendá-la. Coseu um tempinho em silêncio. De repente levantou-se e lançou um longo assovio. Seus companheiros se viraram. Ele olhou-os vagamente, também surpreendido, e sentou-se de novo. Um momento depois largou a camiseta, avançou pela borda e atirou-se na água. Ao sentir o ruído os outros viraram a cabeça, com o cenho ligeiramente franzido. Em seguida se esqueceram, voltando à apatia comum.
"Logo depois outro espreguiçou-se, caminhou esfregando os olhos e atirou-se na água. Passou meia hora; o sol ia caindo. Senti de repente que alguém me tocava o ombro.
- Que horas são?
- Cinco - respondi. O velho marinheiro que tinha me feito a pergunta olhou-me desconfiado, com as mãos nos bolsos, encostando-se na minha frente.
"Olhou um longo tempo para as minhas calças, distraído. E enfim atirou-se na água.
"Os três que sobraram aproximaram-se rapidamente e observaram o redemoinho. Sentaram-se na borda assoviando devagar com a vista perdida ao longe. Um deles desceu da borda e estendeu-se no convés, cansado. Os outros desapareceram, um atrás do outro. Às seis, o último (o homem ergueu-se, arrumou a roupa) afastou os cabelos da testa, caminhou ainda com sono e atirou-se na água.
"Então fiquei sozinho, olhando como um idiota o mar deserto. Todos, sem saber o que faziam, haviam se atirado ao mar, envolvidos no sonambulismo doentio que flutuava no barco. Quando um se atirava na água, os outros se viravam, momentaneamente preocupados, como se recordassem alguma coisa, para esquecer em seguida. Assim haviam desaparecido todos, e suponho que a mesma coisa tenha acontecido aos do dia anterior, e aos outros, e também com os dos outros barcos. Isto é tudo."
Ficamos olhando para aquele homem estranho com explicável curiosidade.
- E o senhor não sentiu nada? - perguntou-lhe meu vizinho de camarote.
- Sim. Um grande tédio e a obstinação das mesmas ideias, e nada mais. Não sei por que não segui os outros. Presumo que o motivo seja este: em vez de esgotar-me numa defesa angustiosa e a qualquer preço contra o que sentia, como devem ter feito todos os outros, e até mesmo os marinheiros, sem perceber, simplesmente aceitei aquela morte hipnótica, como se já estivesse anulado. Sem dúvida alguma, algo muito semelhante deve ter ocorrido aos sentinelas daquela guarda célebre que noite após noite se enforcavam.
Como o comentário era bastante complicado, ninguém respondeu. Pouco depois, o narrador retirava-se para o seu camarote. O capitão seguiu-o durante algum tempo, olhando de viés.
- Farsante! - murmurou.
- Ao contrário - disse um passageiro enfermo, que estava indo morrer em sua terra natal. - Se fosse farsante, com certeza teria pensado nisso e também teria se atirado na água.

QUIROGA, Horacio. Contos de amor, de loucura e de morte. Trad. Eric Nepomuceno. São Paulo: Abril, 2010, pp.63-67. 

6 comentários:

Lívio disse...

Foram chamados por uma sereia.

Bruna disse...

[Risos].

Ótima solução, Lívio.

Abraços.

Manoel Almeida disse...

Assustador e intrigante. Alguém sabe a quais sentinelas célebres o personagem faz referência?

Bruna disse...

Manoel, não sei se os "sentinelas daquela guarda célebre" eram do Maria Margarida ou da escuna, ou ainda, o que acho pouco provável, de outro barco. Não sei quem eram e onde estavam, de fato, os sentinelas. Quando li o conto, lembro de ter pensado que os sentinelas eram da escuna, embora o narrador só tenha feito referência à sentinelas e à "guarda célebre" nesta parte do conto. Mas, agora lendo-o novamente, realmente não é totalmente seguro e acertado pensar que os tais sentinelas eram da escuna. Por isso acabo com a mesma indagação sua.

E já que você expôs a sua indagação, revelarei a que tenho quando leio este conto. No mesmo ponto do texto que você destacou, há uma questão que me intriga.

O narrador diz que ele "simplesmente aceitou aquela morte hipnótica, como se já estivesse anulado" e que, por assim ter feito, não "se esgotou numa defesa angustiosa e a qualquer preço do que sentia" - como fizera os demais que se atiraram na água. Logo em seguida à sua afirmação, a de que, repito, aceitou a morte hipnótica, ele diz assim: "Sem dúvida alguma, algo muito semelhante deve ter ocorrido aos sentinelas..." Então, entendi que eles (sentinelas), como o narrador, tinham aceitado a morte, e não se esgotado numa defesa angustiosa e a qualquer preço como os outros, e nem se atirado nas águas. Mas, os sentinelas não se suicidaram também? Então, no fim, todos da história contada se suicidaram, com exceção de quem a narra. Contudo, não houve diferença entre aceitar a morte e esgotar-se numa defesa angustiosa, as duas tiveram o mesmo fim: o suicídio. Só para o narrador que não.

Mas, esta minha inquietação pode estar equivocada. Quando se lê esta frase: "Sem dúvida alguma, algo muito semelhante deve ter ocorrido aos sentinelas...", este "algo semelhante" é atribuído à atitude do narrador ou à dos demais? Eu entendi que à atitude do narrador. Por isso essas minhas dúvidas todas.

Ficam mais indagações.

E obrigada pelo questionamento, Manoel.

Abraço.

Manoel Almeida disse...

Olá, Bruna, entendo que o narrador escapou justamente por não tentar resistir ao (en)canto da sereia referido pelo Lívio; o mesmo não ocorrera com os sentinelas da escuna e à "guarda célebre" (esta, provavelmente, uma referência a uma obra literária do tipo "As Mil e uma noites"). Acredito que não sejam os mesmos porque os primeiros se afogaram e os segundos se enforcaram.

Claro que hávárias interpretações possíveis, o que torna o conto ainda mais interessante.

Obrigado por compartilhá-lo conosco.

Um caloroso abraço

Bruna disse...

Obrigada por compartilhar a sua leitura, Manoel.

Nós (Lívio, eu e você) estamos como a senhora do conto que levanta a hipótese da tripulação ter sido levada pelas águias. E isso que é legal.

Valeu pela participação.

Afetuoso abraço.