quinta-feira, 31 de março de 2011

Espetáculo Teatral "Ligações Perigosas"



No último sábado, assisti à peça Ligações Perigosas, no Teatro Amil, situado no shopping Parque D. Pedro, em Campinas. O espaço, que anteriormente abrigava o Teatro Tim, foi reinaugurado agora, no dia 18 de março, com este magistral espetáculo adaptado do famoso romance homônimo de Choderlos de Laclos.

A peça foi muito bem montada, tendo-se em observação todos os principais aspectos teatrais: direção, adaptação de roteiro, atuação, cenário, figurino, iluminação e trilha sonora. Assim sendo, o enredo (tanto do livro, como da adaptação para peça), que faz um retrato dos piores jogos de sedução maliciosos que alguns dos membros da aristocracia decadente francesa do século XVIII praticavam em busca de vaidades cortesãs ou individuais, ou, numa leitura menos contextualizada historicamente, que faz um retrato preciso dos limites a que chega a crueldade humana, é bem representado pela seleção de diálogos irônicos e espirituosos trocados, sobretudo, pelos sádicos visconde de Valmont (Marat Descartes) e marquesa de Merteuil (Maria Fernanda Cândido).  

Semelhante ao ponto forte do romance, o diretor, bem como os demais responsáveis pela adaptação das falas da peça, deixaram que a comicidade e as precisões matemáticas advindas das intrigas, de certa forma, atenuassem o rancor do público para com os maliciosos personagens. O que chega ao ponto de até mesmo os horrores que poderiam ser considerados absurdos como, por exemplo, a perda da virgindade forçada, que acontece com a jovem Cécile (vivida por Laura Neiva, no seu primeiro papel) e a também forçada submissão de uma moça íntegra e pura (madame de Tourvel; por Sabrina Greve) aos perniciosos truques de Valmont, fossem deixados para uma segunda ou terceira discussão. Portanto, focar a crueldade humana, e muito, o prazer pelo sofrimento alheio, numa espécie de sadismo, e ainda focar o despropósito moral dos personagens foi, se não o objetivo dos diretores Mauro Baptista Vedia e Ricardo Rizzo, um dos percursos bem-sucedidos da atração teatral.

Como o que se deve avaliar numa peça que vem a ser a encenação de uma grande obra, como é Les Liaisons Dangereuses (1792), também é a sua capacidade criativa de dar novas aparências ao enredo, na sua execução e compreensão, afirmo que uma das novidades que mais me agradou nessa adaptação teatral, em meio ainda a tantas excelentes versões cinematográficas, foi a escolha da trilha sonora (parabéns Tunica!). Talvez pode soar como um detalhe, mas é que as canções muito bem selecionadas de Led Zeppelin e Emerson, Lake and Palmer, fizeram da peça, claro, em conjunto com a excelência dos demais aspectos teatrais, um sucesso.

E eu gostei tanto das músicas, especialmente de uma, que ainda não conhecia e que nem mesmo desconfiei que fosse de Emerson, Lake and Palmer, a C’est la vie, que fui vencida pela vontade de ouvi-la novamente. Repito: como não sabia nem o nome da música, nem quem a cantava, depois de muitas frustradas pesquisas pela internet, resolvi enviar um e-mail para o Mauro Baptista, diretor do espetáculo, e ele, muito gentilmente, me concedeu essa informação. Então, fica o meu agradecimento especial a Mauro, pela gentileza.

Talvez vocês também gostem da canção C’est la vie, do Emerson, Lake and Palmer. Coloquei-a abaixo, acompanhada pela letra. Antes, disponibilizo a ficha técnica completa do espetáculo.

Ficha técnica:
Autor: Christopher Hampton
Direção: Mauro Baptista Vedia
Produção: Filmland Internacional
Produtor: LG Tubaldini Jr
Direção de Produção: Marcella Guttmann
Tradução/adaptação: Clara Carvalho e Rachel Ripani
Elenco: Maria Fernanda Cândido, Camila Czerkes, Chris Couto, Clara Carvalho, Ivan Capua, Julio Cesar Machado, Laura Neiva, Marat Descartes, Ricardo Monastero, Sabrina Greve.

Cenários: Guta Carvalho / Frank Dezeuxis
Figurinos: Maria Gonzaga
Iluminação: Maneco Quinderé
Trilha sonora: Tunica
Preparaçâo vocal: Madalena Bernardes
Preparação corporal: Ricardo Rizzo


P.S.: Pessoal, achei um vídeo através do qual é possível ver algumas poucas e rápidas cenas da peça, bem como ver uma entrevista com as atrizes Laura Neiva e Maria Fernanda Cândido e o diretor Mauro Baptista Vedia. O vídeo é parte do programa Metrópolis, exibido pelo canal Cultura. Segue abaixo:


domingo, 27 de março de 2011

The Vegetable Orchestra


A música é mesmo um território para experimentações infinitas. Há pouco, conheci um grupo de 13 músicos (na foto acima não estão todos os participantes) que compõem sons com cenouras, pimentões, abóboras, pepinos, rabanetes, entre outros "sonoros" vegetais e/ou legumes. The Vegetable Orchestra, os responsáveis por esta novidade, estão, presentemente, em turnê pela Europa, apresentando o terceiro CD do grupo, chamado "Onionoise", o qual conta com ótimas melodias, que ora trazem sons familiares, ora sons abstratos e novos.

Escutando canções como "Nightshades", "Brazil" ou "Prelay" (no meu gosto, algumas das mais bonitas) reconhecemos suingues que lembram ritmos africanos, com sons provenientes de instrumentos de sopro e batuque. Em outras melodias, já surgem, muito levemente, sons parecidos com a música eletrônica. Inclusive, diga-se de passagem, no segundo CD ("Automate") do The Vegetables, eles fizeram versões covers dos alemães Kraftwerk.

Com verdadeiros sons para trilha sonora de filmes, os orquestristas ainda aproveitam para levar uma mensagem de sustentabilidade para o mundo. No final dos espetáculos, é distribuída ao público uma sopa preparada com o que não pôde ser aproveitado dos vegetais.

Abaixo deixo um vídeo, através do qual é possível conhecer um pouco do processo de criação dos "instrumentos" e das músicas do grupo. E indico também o site deles, no qual será possível conferir as músicas as quais me referi no post. Apreciem!



sábado, 26 de março de 2011

Cuento Chino Maravilloso

Resignación
                Anónimo de la dinastía Tang


   Un anciano tenía un caballo. Un día el caballo huyó al bosque y sus vecinos, conmovidos, fueron a su casa y le dijeron:
- Hemos venido a apoyarte en este momento difícil. Ahora ya no tienes caballo. ¡Qué mala suerte!
   El anciano se limitó a preguntarles:
- ¿Sabéis si lo que ha ocurrido es bueno o es malo?
   A la semana siguiente la yegua regresó acompañada de dos sementales y todos en el pueblo festejaron la noticia:
- Ahora con tres caballos eres un hombre rico – le dijeron los vecinos -. ¡Qué suerte tienes!
   El anciano preguntó:
- ¿Por qué ustedes creen que esa es una buena noticia?
   Ese mismo día su hijo único intento domar a uno de los sementales, pero éste le rompió una pierna.
- Ahora ya no tienes a nadie que te ayude en las tareas domésticas – le dijeron los vecinos -. ¡Qué mala suerte tienes!
- ¿Cómo sabéis si ésa es una mala noticia? – volvió a decir el anciano con una sonrisita socarrona.
   Pasado un tiempo los soldados del emperador pasaron por la ciudad alistando a todos los varones primogénitos de cada familia.  Sin embargo, dejaron al hijo del granjero por tener la pierna rota.
- Tu hijo es el único primogénito de China que no ha sido separado de su familia. – le dijeron los vecinos -.¡Qué suerte tienes!
- ¿Creéis que debo considerar que eso es bueno? – preguntó una vez más el anciano.
   Los soldados volvieron al pueblo poco después, y el emperador y la corte quisieron conocer a este hombre que miraba con tanta arrogancia los acontecimientos de la vida cotidiana.


Antología del Cuento Chino Maravilloso. Recopilación de Rolando Sánchez-Mejías. Barcelona: Editorial Océano, 2002.  (p. 158 e 159)   

sexta-feira, 25 de março de 2011

Juliano, o apóstata



O primeiro e maior interesse de Gore Vidal ao escrever o romance Juliano, acredito, esteve na discussão religiosa e, eventualmente, política sobre o século III em Roma (com implicações bastante atuais), ao invés de se preocupar em fazer uma biografia romanceada do imperador apóstata romano, ainda que ele mesmo tenha dito, no seu prefácio, ter sido esta última a intenção do livro. Mesmo que eu não tivesse gostado do romance (o que não aconteceu), simplesmente admiraria a ideia de Vidal de ter se valido da vida de uma personalidade incomum, como a de Juliano, para tocar em questões sutis sobre a religião católica e o paganismo grego. Foi uma grande estratégia literária.
Portanto, independentemente de Gore Vidal ter romanceado demais o retrato de Juliano (isso não ocorre, até pelos comentários críticos de Libânio e Prisco que alternam as memórias do imperador), e de o próprio Juliano ter sido ou não uma personalidade tão curiosa como atestam alguns, o que são discussões de segundo plano para o romance, o enredo nos leva a pensar como historicamente foi séria e cheia de implicações negativas a aliança da Igreja Católica com o princípio jurídico romano. E, antes que eu cause animosidade, advirto e esclareço que esta afirmação sobre as conseqüências negativas da aliança Igreja-Roma não deve soar como uma crítica ao cristianismo, enquanto corrente religiosa, mas como crítica aos princípios da outra corrente na qual se transformou após a união de conveniência entre a Igreja e Roma.
O resultado mais negativo da conveniência foi, segundo o próprio texto, a falência do exercício da religião pela religião, sem outros interesses (de ordem política e econômica, sobretudo) envolvidos; a falência do simples culto sincero do que os gregos conheciam como a ἀρετή (Areté), a Virtude, a qual estava muito associada à educação espiritual interior; à capacidade do próprio indivíduo, exclusivamente (lembremos da etimologia da palavra “indivíduo”) ir em busca da experiência religiosa; e não de transformá-la apenas em uma atividade social, ou em um meio de ascensão social, político e econômico. 
Parece discussão antiga, já banalizada, é, mas nunca fora do tempo, pois que sempre estará presente enquanto os indivíduos (cada uma das pessoas, por si só) não compreenderem a grande e séria diferença entre uma religião figurativa e uma efetiva. E é nesta discussão que Vidal insere a sua criação literária, o personagem Juliano. O imperador de Vidal queria instaurar o paganismo, porque acreditava ser ele a única religião verdadeira; assim parece ser fiel ao fato de Juliano Augusto ter tido esta mesma intenção. Mas, além deste fato histórico, de querer defendê-lo, o personagem de Vidal enfatiza uma questão: apenas a religião grega foi capaz de inaugurar a ideia, pelo menos no Ocidente, de que o homem precisa fazer uma descoberta individual no que se refere aos assuntos da divindade. Somente o homem, por ele mesmo, é capaz de ter um relacionamento com Deus.
Dessa forma, mais do que a crença no helenismo, mais do que a apologia ao paganismo, ao culto dos deuses gregos, o personagem defendeu a crença na descoberta individual, na religião interior, que foi fundada ocidentalmente por pensadores como Sócrates/Platão e, acrescentaria, com muito respeito pelas suas contribuições, Plotino (quem está longe de ter sido somente alguém que repetiu as ideias do seu mestre). Se Juliano, o imperador romano, tinha essa crença, não sabemos. Prisco, outro personagem do romance e também lendária figura histórica, numa certa altura de avaliação do seu amigo, se pergunta: “Jamais saberemos como era o verdadeiro Juliano: o rude gênio militar ou o encantador estudante louco por filosofia? Obviamente era ambos. (p. 379)”. Mas, ainda esta avaliação está dentro de um romance. Entretanto, a crença do personagem Juliano, criado por Vidal, assinala para essa reflexão (a da religião interior).
A opção por ressaltar esse grande aspecto do pensamento grego, também não é uma apologia ao paganismo, quando pensamos no escritor Gore Vidal e na pessoa quem escreve esta resenha. Temos consciência de a Grécia estar longe de ter sido uma cultura perfeita, inclusive no império de Juliano; de ela ter tido também seus momentos de interesses políticos vinculados à religião (como existiu no império de Constantino I) e de intolerância religiosa. Mas, algo que sempre foi forte a subsistir, e que nos foi transmitido do pensamento grego, foi essa ideia da descoberta interior. Um grande legado.
E algo que contam que o imperador Juliano fez, (acrescentaria: apesar de muitas medidas extremas como incendiar igrejas e ser absurdamente adverso ao cristianismo), foi ser mais tolerante quanto aos diferentes cultos religiosos. Vidal também mostra isso na figura de Máximo, o mestre de Juliano. E o diálogo entre eles, que acontece pouco antes de chegar o meio da história, é um dos mais interessantes e reveladores do livro, pois além de mostrar uma profunda crença no que debatíamos acima acerca da descoberta interior, tem lá seus laivos de ensino à tolerância religiosa. Diria ser a parte mais sensata do livro, estes dizeres: Ninguém pode dizer ao outro o que é verdadeiro. A verdade está em volta de nós. Mas cada um deve encontrar o seu caminho. Platão é parte da verdade. Homero também. E a história do Deus judaico, se ignoramos suas afirmativas arrogantes. A verdade está onde o homem divisa a divindade. A teurgia pode provocar esse despertar. A poesia também. Ou os próprios deuses, por vontade própria, podem abrir subitamente os nossos olhos. (p.85 e 86).
Antes dessa conclusão, Máximo (e sintomático que esta fala esteja com Máximo e não com Juliano) discute o seguinte:
A partir do Único, muitos... Como podem muitos ser negados? Serão todas as emoções iguais? Ou cada uma tem característica peculiares? E se cada raça tem suas qualidades, não serão elas dadas por um deus? E se não forem dadas por um deus, essas características não seriam mais bem simbolizadas por um deus nacional específico? No caso dos judeus, um patriarca mal-humorado e ciumento. No caso dos sírios efeminados e astutos, um deus como Apolo. Ou tomemos os germanos e os celtas, que são aguerridos e ferozes. Será por acaso que adoram Ares, o deus da guerra? [...] Alguns perguntam: “Nós criamos os deuses, ou eles nos criaram?” É um debate muito antigo. Seremos nós um sonho da divindade, ou cada um de nós um sonhador separado, evocando sua própria realidade? Embora não se tenha certeza, todos os nossos sentidos nos dizem que existe uma única criação, e que estamos contidos nela para sempre.” (p. 84)
De Homero a Platão e a Iâmblico, os verdadeiros deuses continuam a ser definidos em seus vários aspectos e poderes: multiplicidade contida pelo único, e tudo emanando da verdade. Ou como escreveu Plotino: “A alma, por sua natureza, ama a Deus e deseja unir-se a ele”. Enquanto existir a alma humana, Deus existirá. (p. 141).
Assim, o menos importante a se considerar e pugnar é o meio para se conseguir ter contato com Deus. E o mais importante, pessoalmente acredito, é fazê-lo por um esforço próprio, muito sincero.

Edição lida: VIDAL, Gore. Juliano. Trad. Aulyde Soares Rodrigues. São Paulo: Círculo do Livro, 1964.
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Gore Vidal concedeu uma entrevista ao jornalista Ricardo Setti (articulista da Veja), há muitos anos atrás. Ano passado, Setti resgatou esta entrevista e a colocou na sua coluna online. Quem tiver interesse em conferi-la, acesse aqui.
Vou confessar uma coisa, só para vocês, acho que talvez até um pouco cedo demais: gosto do Vidal como escritor (apesar de ter lido só o Juliano e estar com vontade de ler Origem), mas não como pessoa. Acho-o fatalista e afeito a polêmicas demais para discussões, quaiquer que sejam elas.
Bom, entrevistas servem, entre outras coisas, para gente conhecer um pouco não só do escritor, mas da sua pessoa.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Adendo para "Cisne Negro"

Voltemos ao Cisne Negro.

Hoje, ao conferir um dos blogues do Manoel Almeida, publicitário patense, o blogue Ugh!, vi que ele formulou um ótimo título para a trama toda vivida por Nina. O título que ele deu foi O segredo dos Cisnes. Genial, não?!
O Manoel faz muitas preciosas observações. Sempre aprendo alguma coisa com ele.

Grande abraço, Manoel.

domingo, 20 de março de 2011

Lestics

Recentemente conheci (não ainda pessoalmente) uma banda paulista chamada Lestics, dona de um som sincrético e bastante suave, que traz influências do rock, do folk e do country. O compositor e vocalista, Olavo Rocha, explica que o nome do grupo (Lestics) é decorrência da união do artigo “les”, do francês, mais a palavra onomatopaica popularmente brasileira “tics”, que significam, literalmente, “os tiques”. Ainda segundo Olavo, a ideia para se chegar ao nome próprio Lestics surgiu da sua experiência com o que é a música. Ele, numa comparação interessante, define: “Como os tiques nervosos, a música é algo que você faz involuntariamente e que toma conta de você. E, ainda que você não queira, ela te obriga a ter uma reação ou uma ação (não necessariamente originária da sua racionalidade).”
Desde 2006, os cinco integrantes da banda (Olavo Rocha, Umberto Serpieri, Marcelo Patu, Lirinha e Xuxa) também são responsáveis pelas suas composições e, uma delas, a que é a faixa um do seu mais novo CD, intitulado “Aos abutres” (2010), foi o meio para eu conhecer os outros álbuns do grupo, os quais podem ser conferidos e baixados pelo site oficial da banda.
A faixa um, chamada “Travessia” foi inspirada no Moby Dick do Herman Melville - autor de quem gosto muito -, e todo o clipe da música foi feito com ilustrações de antigas edições do livro, bem como numa "brincadeira" de destacar palavras do texto do escritor norte-americano. Coloco abaixo o vídeo do clipe e a letra da música, que, a propósito, achei bonita, simples e poética.
Fiquei pensando que, de repente, também, a letra (e a música, claro) poderiam ser um instrumento pedagógico inicial para quem dá aulas de literatura no ensino médio e vez ou outra precisa discutir, com os adolescentes, uma obra nada fácil como Moby Dick. Talvez extraindo um possível sentido da letra, a de alguém que está diante de uma travessia e precisa fazê-la apesar de uma série de obstáculos, inclusive (e especialmente) os de natureza interior, como o medo, os alunos já fossem preparados para as aventuras de Ismael e de toda a tripulação que, numa espécie de travessia, buscam a baleia branca, que, no fim, muito será esta travessia mesma do aprendizado interior.


            
                                           


Travessia
Composição: Lestics

As águas negras
Do oceano
Se abrem a sua frente
No seu encalço
A raiva cega
O que todo um continente


Você quer se salvar
E segue adiante
Mas o céu jamais esteve
Tão distante


Você avança
Lentamente
Pisando nos corais
Envolta miram
Curiosos
Os olhos abissais



Você quer se salvar
E segue adiante
Mas o céu jamais esteve
Tão distante

Ainda, para as pessoas que se interessarem pela banda e estiverem com um tempo que permita assistir a um vídeo de apresentação da Lestics, integrantes e músicas, indico este título de vídeo: Lestics, uma apresentação

sábado, 19 de março de 2011

Cisne Negro



Parece-me que uma das discussões essenciais do filme Cisne Negro (EUA, 2010), de Darren Aronofsky, parte da observação do excesso de zelo técnico que Nina (Natalie Portman) deposita na prática do balé. A partir do tenso ambiente dos bastidores de uma academia de dança, espaço ao mesmo tempo de descontração e preocupação com a disciplina, o enredo acaba tematizando um dilema humano, mas, agora, de forma que a espontaneidade e a pressão representem estados de ser distintos da personagem, dividida ora pelas imposições severas de uma mãe supostamente amiga, ora pela busca total de liberdade. Dessa forma, o palco da bailarina Nina será também o palco da Nina ela mesma, onde representar o papel principal da versão moderna do clássico Lago dos Cisnes será viver um intenso desafio de conhecimento e construção da sua verdadeira identidade, simbolizada pelo branco e o negro.
Sem tomar, por uma leitura maniqueísta, essas duas partes como o lado bom e mau do ser humano, equivalentes respectivamente às cores branca e preta, entendo que a divisão das cores, e, consequentemente, dos diferentes estados de espírito da personagem, estejam associados àqueles sentimentos e situações que estão, ou não, já imanentes à pessoa de Nina. Explico-me: Nina consegue executar, sem qualquer erro, o cisne branco, porque para ela representar o momento da fragilidade e da submissão ao forte é algo que já a constitui como ser humano, fora das cenas. Logo, uma cuidadosa prática basta para aperfeiçoar seus gestos. Já o cisne negro, vem-lhe como um desafio, imposto pelo seu coreógrafo (vivido por Vincent Cassel) e pela sua mais nova colega de academia (vivida por Mila Kunis), pois lhe é exigida uma performance que ainda não está em conformidade com o seu ser, a performance do ímpeto, da independência, da força, obtida mais facilmente por intermédio da espontaneidade, sem as cominações da mãe.
Não contando uma novidade, poderia afirmar que para obter essas características: a força, a independência e a não submissão, será necessário a ela levar uma vida menos ditada pelos hábitos cotidianos assegurados por uma mãe disfarçadamente doce e ideal. O espaço de Nina, quando ainda está reduzida ao sucesso como cisne branco, é o espaço do quarto com tudo em ordem e do metodismo da mãe (hora imposta para dormir, chegar a casa, comida escolhida/imposta – como a forte cena da recusa de Nina em comer o bolo de aniversário dado pela mãe); sem contar a polêmica atitude da mãe de querer impor uma falsa inocência infantil a Nina, como vemos além de nos seus obsessivos comportamentos com ela, através da decoração do quarto, com seus incontáveis bichinhos de pelúcia e objetos de um universo infantil. Logo, logo, percebemos que todos esses detalhes concorrem para a definição do que é Nina como pessoa: alguém altamente submissa às vontades da mãe, mas também prestes a romper com todas estas imposições.
Esta relação mãe e filha, que é até motivo de discussões no âmbito da psicanálise, por causa das fortes pulsões recalcadas, ganha seu limite com a questão da sexualidade. Numa cena, que parece apenas ser a representação do inconsciente reprimido da personagem, portanto, não algo que de fato se concretiza, Nina passa a noite com sua companheira de academia, deixando sua mãe desvairada, embora com o inquebrantável olhar inquisidor. A cena acaba por ser apenas uma das portas para a bailarina controlada e forçosamente ingênua ir tomando coragem para enfrentar as imposições da mãe e, finalmente, sair de um mundo em que não é de fato o real. Tal atitude só vem a contribuir para a sua aptidão em não só encenar o cisne negro, mas vivê-lo fora de cena.
Depois de muitos conflitos, como as perturbações psicológicas e a asquerosa ferida das suas costas impossível de ser contida, que pode ser a representação da consciência permanente perturbada e prestes a se modificar (como dizia Herman Melville “a ferida é a consciência e nada pode estancá-la”), só no momento final da apresentação que Nina de fato realiza (???) sua meta: ser o cisne negro e branco. A realização se dá pelos esforços de dois vivos exemplos do ímpeto e do agir espontâneo, Thomas Leroy, o coreógrafo e Lilly, a companheira de academia.
Sem tomar o sentido da espontaneidade como o da irresponsabilidade, a dosagem dos dois lados (da fragilidade e do ímpeto), se é que é possível num só tempo e espaço, parece-me ser a melhor saída. Como me lembra o oriental símbolo do taoísmo, o conhecidíssimo Yin-Yang (aquele em que num círculo há a divisão do preto e do branco, e que no lado preto há a bolinha branca e, no outro lado, o inverso dessas cores), parece-me que o estado ideal do ser está nesta capacidade de reunir, em justo equilíbrio, o branco e o preto, de forma que o branco se imiscui no preto, sem que por isso a cor preta deixe de ser preta e a branca, branca. Vale a pena conferir, assistindo ao filme, se também é esta a crença do cineasta, sobretudo no final das cenas.
Filme de grande apelo visual e apuro na representação do conflito psicológico, o Cisne Negro é também abertura para discussões em várias áreas do conhecimento.
Para quem ainda não o assistiu,
Bom filme!

Nota de abertura

Há alguns meses, comecei a pensar na possibilidade de criar um blogue. A vontade se deu, principalmente, pela ideia de ter um espaço onde fosse possível discutir variados temas junto com as diferentes opiniões dos leitores e, assim, ser possível edificar ou (des)edificar visões sobre qualquer assunto. Está feito, aqui declaro iniciado o Brumas.
Brumas pelo fato de serem as brumas algo que dificulta que a visão das coisas seja definida e certa, pelo seu aspecto, diria, embaçado. Como discutir ideias é passar pelo nevoeiro, esforçar-se para nitificar algum assunto, achei por bem chamar o meu blogue assim. É claro que também o nome se aproxima do meu, Bruna, mas isso é só um detalhe.
Espero contar com os comentários de vocês para discutirmos resenhas, vídeos, fragmentos de textos, textos integrais, letras de músicas e mais outras fontes de conhecimento com aproximações artísticas, de forma que assim proposto, possamos manter conversas constantes e interessantes.
Sejam todos bem-vindos.
Abraços.