sábado, 31 de dezembro de 2011

Feliz 2012!


Lendo hoje o livro Comentários sobre o viver (Cultrix, 1995 [?]) de Krishnamurti, encontrei um pequeno fragmento, que faço valer como mensagem de Ano Novo para vocês que leem o Brumas.

É ele:

"O desejo está sempre em relação com o futuro; o desejo de vir a ser representa inação no presente. O agora tem mais importância do que o amanhã. No agora está compreendida a totalidade do tempo, e compreender o agora é estar livre do tempo. Vir a ser é a continuação do tempo, do sofrimento.  O vir a ser não contém o ser. O ser está sempre no presente, e ser é a mais elevada forma de transformação. Vir a ser é mera continuidade com variações e só pode haver transformação radical no presente, no ser" (p. 9).

Fica sendo esse o meu voto de FELIZ 2012 para vocês! Tomem as flores! Abraços.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Um ano de Primavera Árabe


Mulheres pintam nas mãos as bandeiras de Iêmen, Tunísia, Líbia, Síria e Egito. (Iêmen, 04/11/2011. Foto:  Louafi  Larbi/ Reuters).

   

"Liberdade". (Túnis, 22/01/2011. Foto: Finbarr O'Reilly/Reuters) 

   
   Ao longo de um ano, quatro ditadores desapareceram - o presidente da Tunísia, Zine al-Abdine Ben Ali, se exilou na Arábia Saudita; o presidente do Egito, Hosni Mubarak, renunciou após uma insistente presença de manifestantes na praça Tahrir, no centro do Cairo; Muamar Kadafi, da Líbia, foi capturado e morto por opositores depois de meses de guerra civil; e o presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, assinou um acordo para deixar o poder meses depois de ser gravemente ferido em um ataque. 
   Fim ao regime de ditadura!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Contos (5)

    Desilusão

   Confesso que as palavras daquele estranho cavalheiro me deixaram totalmente desnorteado. Tenho receio de ainda não estar em condições de contar o caso de tal modo que ele venha a comover outras pessoas como aconteceu comigo. Muito provavelmente seu efeito se deve em grande parte à candura e ao tom amistoso com que um desconhecido se abriu comigo...
   Foi dois meses atrás, numa manhã de outono, que reparei pela primeira vez naquele desconhecido na Piazza di San Marco. Havia pouca gente na rua; mas diante da maravilhosa construção, com os pomposos contornos e ornamentos dourados destacando-se do céu delicado, tatalavam bandeiras na suave brisa marítima; diante da porta principal um bando de pombos se reunia aos pés de uma jovem que espalhava milho para eles enquanto mais e mais aves acorriam em nuvens de todos os lados... Um quadro incomparavelmente alegre e festivo. 
   Foi então que o vi, e enquanto escrevo posso vê-lo distintamente. Era bastante abaixo da estatura média e um pouco encurvado, andava depressa, segurando a bengala às costas com a mão. Usava um chapéu preto e duro, sobretudo claro de verão, calças listradas escuras. Por algum motivo achei que fosse inglês. Tanto podia ter trinta como cinquenta anos. Seu rosto, com nariz grosso e olhos cinzentos e fatigados, era bem escanhoado e em torno da boca pairava constantemente um sorriso misterioso e um pouco tolo. De vez em quando, erguendo as sobrancelhas, olhava em volta, como quem procura algo, depois fitava o chão, dizia algumas palavras para si mesmo, sacudia a cabeça e punha-se a sorrir de novo. E assim caminhava pela praça, de uma lado para outro, numa verdadeira obstinação.
   A partir de então passei a observá-lo diariamente, pois parecia não fazer outra coisa além de caminhar pela praça, cinquenta vezes ao dia, fizesse chuva ou fizesse sol, pela manhã e à tarde, sempre sozinho e sempre com aquele comportamento singular.
   Na noite que pretendo descrever, uma banda militar acabara de dar um concerto. Eu estava sentado numa das mesinhas diante do Café Florian, e quando, ao fim do concerto, a multidão que estivera andando por ali começou a dispersar-se, o desconhecido sentou-se numa pesada mesa perto de mim, sempre com aquele sorriso ausente.
   Passou-se o tempo, tudo foi-se aquietando cada vez mais em volta, não demorou muito e as mesas estavam todas vazias. Raras pessoas ainda passavam por lá; uma paz majestosa baixara sobre a praça, o céu coberto de estrelas, a meia-lua pendurada sobre a fachada magnífica de São Marcos.
   Eu lia jornal, de costas para meu vizinho, e estava prestes a ir embora quando tive de me virar; pois ele, que até ali estivera silencioso, começou subitamente a falar.
   - É a primeira vez que vem a Veneza, senhor? - perguntou em mau francês; quando me esforcei por retrucar em inglês, ele começou a falar num alemão culto, com voz baixa, e rouca, que procurava clarear com frequentes pigarros.
   - Está vendo tudo isso pela primeira vez? E corresponde às suas expectativas? Ou as supera, quem sabe? Ah! Nunca imaginou que fosse tão bonito? Verdade? Não está dizendo isso para parecer feliz e causar inveja? Ah! - ele recostou-se para trás e me encarou, piscando depressa os olhos, com uma expressão inexplicável no rosto.
   A pausa foi longa, e, sem saber como continuar aquele estranho diálogo, eu estava novamente querendo me levantar quando ele se inclinou para mim intempestivamente:
   - Sabe o que é desilusão? - perguntou baixinho, num tom apressado, apoiando-se na bengala com as mãos. - Não um pequeno fracasso isolado, uma falha, mas aquela grande desilusão generalizada que sentimos com tudo na vida? Certamente não a conhece. Mas ela me acompanha desde a juventude, e por sua causa fiquei solitário, infeliz e, não nego, um pouco esquisito. 
   Seria impossível que me entendesse logo. Mas talvez, se me quiser escutar, por dois minutos, compreenda tudo. Pois é tão pouco o que há para dizer...
   Quero que saiba que nasci numa cidade bem pequena, numa casa paroquial em cujos aposentos reinava uma meticulosa limpeza e o patético otimismo de um ambiente intelectual, e onde se respirava uma atmosfera estranha, carregada da retórica dos púlpitos - todas essas grandiosas palavras sobre bem e mal, belo e feio, que odeio tanto, porque talvez seja delas a culpa por todos os meus sofrimentos. 
   A vida para mim consistia unicamente nessas grandiosas palavras; eu não conhecia nada dela senão aquelas emoções tremendas e sem forma definida, que elas despertavam em mim. Das pessoas, esperava a bondade divina ou a perversidade diabólica; da vida, ou a beleza mais arrebatadora ou o mais completo horror; era dominado por um intenso desejo de todas essas coisas, uma avidez profunda e atormentada por uma realidade maior, por experiências, não importa de que tipo, de felicidade extasiante e de sofrimentos indizivelmente grandes.
   Recordo, senhor, com uma dolorosa nitidez, a primeira desilusão de minha vida, e peço que entenda que ela nada tem a ver com o malogro de alguma bela esperança, mas com um acontecimento infeliz. Eu era pouco mais que uma criança, quando à noite um incêndio destruiu a casa de meus pais. O fogo começara secretamente, alastrando-se traiçoeiramente, até que todo o pequeno andar ficou em chamas, chegou à porta do meu quarto e não iria tardar muito a alcançar as escadas. Fui o primeiro a notar tudo, e recordo que corri pela casa gritando: "Fogo! Fogo!" Recordo essas palavras com grande nitidez, e sei que sentimento se escondia por trás delas, embora naquele tempo dificilmente ele pudesse ter aflorado à minha consciência. Eu sentia: então é isso, um incêndio? Afinal, é como ter a casa em chamas. Isso aí é tudo?
    Deus sabe que não foi pouca coisa. A casa toda se queimou, e só nos salvamos com grande dificuldade, eu próprio fiquei bastante ferido. Seria mentira dizer que minha fantasia se antecipara aos acontecimentos e já criara em minha mente um incêndio pior do que aquele. Mas eu tivera um vago pressentimento, uma ideia incerta, e, comparada a ela, a realidade me parecia sem graça. O incêndio foi minha primeira grande experiência. E jogou por terra uma terrível esperança que eu alimentara.
   Não receie que eu continue lhe contando minhas desilusões em detalhes. Contento-me em dizer que alimentei com o desgraçado zelo minhas grandes perspectivas de vida com o conteúdo de milhares de livros e as obras de todos os poetas. Ah, aprendi a odiá-los, esses poetas que pintavam as suas palavras grandiosas em todas as paredes da vida - porque não tinham poder para escrevê-las no céu com pena molhada em lava do Vesúvio! Cheguei a pensar que todas as palavras grandiosas eram uma mentira ou uma troça.
   Os poetas extáticos têm dito que a linguagem é pobre: "Ah, como as palavras são pobres" - cantam eles. Nada disso, meu senhor! Penso que a linguagem é rica, é imensamente rica se comparada com a pobreza e limitações da vida. A dor tem os seus limites: a dor física acaba na perda dos sentidos, a dor moral no embotamento. E com a felicidade acontece a mesma coisa! A necessidade humana de comunicação inventou sons que superam esses limites. 
   É minha a culpa? Será que só em mim certas palavras têm esse efeito de um calafrio na espinha, despertando em mim pressentimentos de coisas que nem existem?
   Saí para a vida de que tanto me falavam, cheio de avidez por uma única experiência que correspondesse às minhas grandes esperanças. Valha-me Deus, nunca o consegui! Percorri toda a Terra, visitei os lugares mais famosos, todas as obras de arte sobre as quais têm sido esbanjadas as mais extravagantes palavras; fiquei diante delas e disse: é bonito. Mas e daí - isso é tudo? Não é mais bonito do que isso?
   Não tenho nenhum senso de realidade. Talvez seja esse o meu problema. Certa vez postei-me junto de uma estreita e funda garganta nas montanhas. As paredes de rocha nua desciam verticais, lá embaixo a água espumava sobre os rochedos. Olhei para baixo e pensei: e se eu caísse? Mas já sabia a resposta por experiência: se isso acontecesse, eu diria a mim mesmo durante a queda: agora estou caindo, isso é um fato. Mas, e daí?
   Acredite, vivi o bastante para poder falar nisso. Há anos apaixonei-me por uma jovem, uma criatura delicada e doce, que gostaria de conduzir pela minha mão, e protegê-la; mas ela não me amou, o que não foi de admirar, e outro a tomou sob sua proteção... Existe experiência mais dolorosa do que essa? Existe algo mais pungente do que essa dor cruelmente mesclada com sensualidade? Passei muitas noites de olhos abertos, e mais triste, mais torturante do que o resto, era o pensamento incessante: essa é então a grande dor? Agora a estou sentindo! Mas, o que é ela?
   Será preciso que lhe fale de minha felicidade? Pois também senti felicidade, e também ela me decepcionou... Não, não é preciso que fale: pois são exemplos sem graça, que não esclarecerão o fato de que foi a vida, a vida em geral, com seu curso desinteressante, sem graça e medíocre, que me desiludiu, desiludiu, desiludiu...
   "O que é o ser humano", escreveu o jovem Werther, "esse semideus que todos elogiam? Não lhe faltam as forças quando mais precisa delas? Quer ele atinja o êxtase da alegria ou o abismo do sofrimento, não retorna sempre à lucidez nua e fria, ele que ansiava perder-se na plenitude do infinito?"
   Muitas vezes penso no dia em que vi o mar pela primeira vez. O mar é grande, é vasto, meu olhar percorreu a sua imensidão e ansiou por liberdade: mas lá adiante ficava o horizonte. Por que tenho horizonte? Esperei que a vida me desse o infinito.
   Talvez meu horizonte seja mais estreito que o de outras pessoas. Eu já disse que não tenho senso de realidade - ou quem sabe o terei demais? Quem sabe desisto cedo demais? Acabo depressa demais? Quem sabe só conheço felicidade e dor em graus muito inferiores, pouco intensos?
   Não creio nisso; nem acredito no ser humano, acredito menos ainda naquelas pessoas que concordam com as grandiosas palavras dos poetas em relação à vida. Tudo covardia e mentira! Aliás, meu caro senhor, já percebeu que há pessoas tão vaidosas, tão desejosas de respeito alheio e da secreta inveja das outras, que fingem ter experimentado as alturas da felicidade e nunca o abismo da dor? 
   Está escuro e o senhor praticamente não me dá atenção; por isso quero confessar mais uma vez que também eu um dia tentei mentir como essas pessoas, fingindo que era feliz. Mas faz alguns anos que o balão dessa vaidade foi furado. Agora sou solitário, infeliz e, não nego, um pouco esquisito.
   Minha ocupação predileta é contemplar, à noite, o céu estrelado; pois não será a melhor maneira de afastar a vista da terra e da vida? Talvez me perdoem que pelo menos alimente esperanças. Sonhando com uma vida mais livre, na qual essas minhas grandes esperanças se transformem em realidade, sem nenhum torturante resquício de desilusão. Com uma vida sem horizontes...
   Sonho com ela, e aguardo a morte. Ah, já a conheço tão bem, essa última de todas, a derradeira desilusão! É isso, a morte? direi no último momento; agora a estou experimentando! Mas, o que é ela, afinal?
   Está frio aqui na praça, senhor; veja só, ainda consigo sentir isso! Passe muito bem. Adeus...


MANN, Thomas. Os Famintos. Trad. Lya Luft. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, pp. 32-37.
   

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sonhos



   Akira Kurosawa, o grande cineasta japonês, é um celebrador da vida vivida de maneira mais simples e preenchida de valores humanos. 


   Sempre cuida para colocar em cena imagens e sons de alta sugestão poética, bem como um nobre personagem que tem a ofertar, seja em palavras ou em gestos, uma sábia mensagem. Se clama pelo amor, o carinho, a amizade, o respeito, a simplicidade, Kurosawa faz isso da forma mais sutil e bela. 


   Um naco admirável do seu cinema poético e ético é o filme Sonhos ("Yume", Japão, 1990), essencialmente, o último sonho dos oito que compõem o filme. Assista-o através dos links abaixo. [Desta vez, algo impediu que os vídeos escolhidos fossem disponibilizados diretamente aqui, então, por favor, conferia-os clicando, seguindo a sequência, nos links].


http://www.youtube.com/watch?v=VgGonLoUrJM

http://www.youtube.com/watch?v=O4luAERr3IY

sábado, 3 de dezembro de 2011

O livro de ensaios "O escritor e Sua missão", de Thomas Mann, ganha tradução no Brasil

Estética e ética segundo Thomas Mann

  (Daniel Piza)

O gênio alemão, entusiasta de Broch, desvenda em coletânea de ensaios não só os autores que analisa mas também a si mesmo. 

   Escrevendo em 1952 sobre Émile Zola, que no célebre artigo Eu Acuso defendeu o capitão judeu Dreyfus das acusações de espionagem, Thomas Mann (1875- 1955) lembra como um grande autor era capaz de provocar indignação e revoltar o mundo e diz que "desde então o retrocesso ético tem sido terrível". A humanidade se tornou embrutecida, apática, uma multidão de "aleijões morais". Muito antes, em 1929, descrevendo o classicismo de Lessing, o escritor alemão dá outro salto para o presente e afirma: "Já fomos tão longe no campo do irracional". A modernidade vinha se tornando mais e mais avessa ao intelecto, às ideias, à noção básica de sensatez. E é esse ponto de vista, de um humanismo que quer assimilar as paixões e as pulsões, que une os ensaios de O Escritor e Sua Missão (editora Zahar), finalmente traduzidos no Brasil.



   O livro serve não apenas para reafirmar a filosofia ética e estética de Mann, mas também para registrar mais uma vez o papel do gênero ensaístico para os grandes romancistas modernos. Como Mann, o que Proust, Joyce, Kafka, Musil e os maiores prosadores do início do século 20 buscavam era revigorar a narrativa de ficção com a densidade do pensamento, cada um a seu modo. No caso de Proust, por exemplo, tratava-se de levar a crítica de arte (e música e literatura) para dentro da mente dos personagens, a começar pelo narrador. No caso de Mann, os diálogos dos personagens têm um grau de articulação semelhante ao que se encontra em ensaios; um romance como Dr. Fausto contém verdadeiro tratado sobre música. Não por acaso, no texto sobre Bernard Shaw incluído na coletânea, Mann nota que seus personagens falam no palco como o ensaísta em público.


   Os ensaios de Mann, dessa forma, dizem muito sobre os autores que analisa e, ao mesmo tempo, sobre seu próprio autor, como, de resto, acontece com os melhores ensaístas desde Montaigne. Por isso é fácil entender que o mais longo dos textos seja, claro, sobre Goethe como Representante da Era Burguesa - Goethe que aparece citado em diversos outros ensaios, sobretudo naquele sobre Tolstoi. Afinal, toda a obra ficcional de Mann - de Os Buddenbrooks até José e Seus Irmãos, passando por Morte em Veneza e A Montanha Mágica - é devedora justamente de Goethe e da literatura russa, com doses fundamentais da filosofia angustiada de Schopenhauer e Nietzsche. Sobre Tolstoi, por exemplo, diz que não tem a espiritualidade de um Goethe, mas em compensação era capaz de "uma força narrativa sem igual". Em Dostoievski acentua o caráter transgressor, o qual demonstra que a natureza humana também se sente atraída pelo sofrimento e caos.


   Saímos dos ensaios de Mann, ainda que não tenham o tom de críticas literárias (são antes conversas eruditas sobre grandes autores), com visões originais ou ao menos agudas sobre as obras. Quando comenta Ibsen, faz um paralelo com Wagner para mostrar que o compositor fez pela ópera o que o dramaturgo fez pela comédia de costumes: deu uma "feição perfeccionista e amplificadora" a esses gêneros populares. Se diz que em O Lobo da Estepe temos um Herman Hesse tão experimental quanto Joyce ou Gide, sentimos vontade de reler o esquecido Hesse. E ao examinar a obra de um autor bem distinto de si mesmo, como Chekhov, apontando Uma História Enfadonha como seu conto preferido, nos faz repensar o modo como o autor russo soube ficar a meio caminho entre esperança e desesperança. Não há passagem obscura ou banal nos ensaios de Mann. 

   Não que ele chegue a definir uma "missão" para o escritor, já que não tinha índole missionária; mas para o bom leitor algumas dessas páginas bastam. Mann acredita que o papel do escritor é muito mais que contar histórias ("as obras mais elevadas se contentam com um mínimo de ação"); é enxergar mais a fundo a natureza humana; em outras palavras, é estético e ético ao mesmo tempo. A "humanidade plena" consiste em buscar o equilíbrio entre racional e sentimental, mas sabendo que esse equilíbrio é sempre instável, precário, carente de revisão constante. No ensaio central sobre Goethe, em destaque, usa o termo "burguês" não no sentido marxista, pejorativo (o empregador que explora o trabalhador), mas no de cidadão urbano de classe média, que então significava alguém dotado de um mínimo de responsabilidade e dignidade, ponderado, sóbrio, laborioso, sem ser reacionário ou autoritário - como o próprio Goethe ou, podemos acrescentar, ele próprio, Mann.

   O que Mann exalta em Goethe, seu lado "não burguês", é a crítica ao filistinismo (a aversão natural do homem comum às sutilezas do intelecto, da chamada alta cultura) e ao nacionalismo (que Mann observa que, na verdade, é sempre provinciano) e, obviamente, a tradução disso em obras perenes, feitas com a personalidade do gênio, cuja mente nunca está confortável no ambiente da mediocridade geral. Genialidade é fazer obras que são ao mesmo tempo novas e duradouras, é transformar a inquietude em grandeza por meio da obstinação. Como no Aschenbach de Morte em Veneza, a abertura à paixão não leva a lugar nenhum se o intelecto se abstém. A aventura mais determinante é a do espírito; a ousadia que faz diferença é a do pensamento. Por mais burguês e conservador que Goethe fosse em seu comportamento e suas opiniões, sua criatividade não fugia aos desafios mais ambiciosos. De Mann, sem dúvida, se pode dizer o mesmo.

   Não é difícil entender por que o estudo mais longo trata de Goethe: a obra de Mann deve muito ao ficcionista de Werther.

(Escrito por Daniel Piza para a coluna "Arte & Lazer" do Estadão de hoje. Disponível em:http://m.estadao.com.br/noticias/impresso,estetica-e-etica-segundo-thomas-mann,806182.htm).