sexta-feira, 20 de abril de 2012

De Borges, um evangelho apócrifo

Fragmentos de um evangelho apócrifo


3- Desventurado o pobre de espírito, porque sob a terra
será o que agora é na terra.
4- Desventurado aquele que chora, porque já tem o hábito 
miserável do pranto.
5- Felizes os que sabem que o sofrimento não é uma coroa
de glória.
6- Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.
7- Feliz aquele que não insiste em ter razão, porque
ninguém a tem ou todos a têm.
8- Feliz aquele que perdoa aos outros e aquele que perdoa a
si mesmo.
9- Bem-aventurados os mansos, porque não condescendem 
com a discórdia.
10- Bem-aventurados os que não têm fome de justiça,
porque sabem que nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra 
do acaso, que é inescrutável.
11- Bem-aventurados os misericordiosos, porque sua 
felicidade está no exercício da misericórdia e não na
esperança de um prêmio.
12- Bem-aventurados os de coração puro, porque vêem Deus.
13- Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa 
da justiça, porque lhes importa mais a justiça que seu 
destino humano.
14- Ninguém é o sal da terra, ninguém, em algum 
momento de sua vida, não o é.
15- Que a luz de uma lâmpada se acenda, ainda que 
nenhum homem a veja. Deus a verá.
16- Não há mandamento que não possa ser infringido,
e também os que digo e os que os profetas disseram.
17- Aquele que matar pela causa da justiça, ou pela
causa que ele acredita ser justa, não tem culpa.
18- Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem
os céus.
19- Não odeies teu inimigo, porque, se o fazes, és de 
algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será
melhor que tua paz.
20- Se te ofender tua mão direita, perdoa-a; és teu corpo
e és tua alma, e é árduo, ou impossível, definir a 
fronteira que os divide...
24- Não exageres o culto da verdade; não há homem que
no final de um dia não tenha mentido com razão
muitas vezes.
25- Não jures, porque todo juramento é uma ênfase.
26- Resiste ao mal, mas sem assombro e sem ira.
A quem te ferir na face direita, podes oferecer
a outra, sempre que não te mova o temor.
27- Não falo de vinganças nem de perdões;
o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
28- Fazer o bem a teu inimigo pode ser obra de justiça e
não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.
29- Fazer o bem a teu inimigo é o melhor modo de 
satisfazer tua vaidade.   
30- Não acumules ouro na terra, porque o ouro é pai
do ócio, e este, da tristeza e do tédio.
31- Pensa que os outros são justos ou o serão, e, se não
for assim, não é teu o erro.
32- Deus é mais generoso que os homens e os medirá
com outra medida.
33- Dá o santo aos cães, atira tuas pérolas aos porcos; 
o que importa é dar. 
34- Procura pelo prazer de procurar, não pelo de encontrar...
39- A porta é a que escolhe, não o homem.
40- Não julgues a árvore por seus frutos nem o homem 
por suas obras; podem ser piores ou melhores.
41- Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia,
mas nosso dever é edificar como se fosse pedra a areia...
47- Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.
48- Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo 
similar a derrota ou as palmas.
49- Felizes os que guardam na memória palavras 
de Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz
a seus dias.
50- Felizes os amados e os amantes e os que podem
prescindir do amor.
51- Felizes os felizes.


BORGES, Jorge Luis. Poesia/ Jorge Luis Borges. Trad. Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pp. 67-69.

De Borges, pequenos poemas-prosa



O etnógrafo


O caso foi-me narrado no Texas, mas tinha ocorrido
em outro estado. Conta com um único protagonista,
não obstante em toda história os protagonistas
sejam milhares, visíveis e invisíveis, vivos e mortos.
Chamava-se, creio, Fred Murdock. Era alto à maneira
americana, nem loiro nem moreno, com um perfil de
machado, de muito poucas palavras. Não havia nele
nada de singular, nem sequer essa fingida singularidade
que é própria dos jovens. Naturalmente respeitoso,
não desacreditava dos livros nem dos que escrevem
os livros. Estava naquela idade em que o homem ainda
não sabe quem é e está pronto para se entregar ao que
o acaso lhe propõe: a mística do persa ou a desconhecida
origem do húngaro, as aventuras da guerra ou da
álgebra, o puritanismo ou a orgia. Na universidade
aconselharam-no a estudar línguas indígenas. Há ritos
esotéricos que perduram em certas tribos do oeste; seu
professor, um homem entrado em anos, propôs-lhe que
fosse morar numa reserva, a fim de observar os ritos
e descobrir o segredo que os bruxos revelam ao iniciado.
Ao voltar, redigiria então uma tese que as autoridades
do instituto publicariam. Murdock aceitou, exultante.
Um de seus antepassados morrera nas guerras
da fronteira; essa antiga discórdia de suas estirpes era
um vínculo agora. Previu, certamente, as dificuldades
que o esperavam; devia conseguir que os homens
vermelhos o aceitassem como um dos seus. Empreendeu
a longa aventura. Morou mais de dois anos na pradaria,
entre paredes de adobe ou a céu aberto. Levantava-se
antes da aurora, deitava-se ao anoitecer, chegou a sonhar
num idioma que não era o de seus pais. Acostumou
seu paladar a sabores ásperos, cobriu-se com roupas
estranhas, esqueceu os amigos e a cidade, chegou a
pensar de um modo que sua lógica rejeitava. Durante os
primeiros meses de aprendizado tomava notas sigilosas,
que depois rasgaria, talvez para não levantar suspeitas,
talvez porque já não precisasse delas. No final de um
prazo predeterminado por certos exercícios, de índole
moral e de índole física, o sacerdote ordenou-lhe
que fosse recordando seus sonhos e que os confiasse
a ele quando o dia clareasse. Comprovou que nas noites
de lua cheia sonhava com bisões. Confiou esses repetidos
sonhos a seu mestre; este acabou lhe revelando a
doutrina secreta. Certa manhã, sem se despedir de
ninguém, Murdock partiu.
   Na cidade, sentiu saudades daquelas tardes iniciais na
pradaria em que havia sentido, tempos antes, saudades
da cidade. Dirigiu-se ao gabinete do professor e lhe disse
que conhecia o segredo e que havia decidido não revelá-lo.
   - Está preso a um juramento? - perguntou o
outro.
   - Não é essa a razão - disse Murdock. - Naqueles
ermos aprendi algo que não posso contar.
   - Talvez a língua inglesa seja insuficiente? - observaria o outro.
   - Nada disso, senhor. Agora que possuo o segredo,
poderia enunciá-lo de cem maneiras diferentes e mesmo
contraditórias. Não sei muito bem como lhe dizer que o
segredo é precioso e que agora a ciência, nossa ciência,
parece-me uma mera frivolidade.
   Depois de uma pausa, acrescentou:
   - Além do mais, o segredo não vale o que valem os
caminhos que a ele me levaram. Esses caminhos devem
ser trilhados.
   O professor disse friamente:
   - Comunicarei sua decisão ao Conselho. O senhor
pensa viver entre os índios?
   Murdock respondeu:
   - Não. Talvez não volte à pradaria. O que seus
homens me ensinaram vale para qualquer lugar e para
qualquer circunstância.
   Foi essa a essência do diálogo.
   Fred casou-se, divorciou-se e agora é um dos
bibliotecários de Yale.


________________


Pedro Salvadores


Quero deixar escrito, quem sabe pela primeira vez, um
dos fatos mais estranhos e mais tristes de nossa história.
Intervir o mínimo possível em sua narração, prescindir
de acréscimos pitorescos e de conjecturas arriscadas é,
parece-me, a melhor maneira de fazê-lo.
   Um homem, uma mulher e a vasta sombra de um
ditador são os três personagens. O homem se chamava
Pedro Salvadores; meu avô Acevedo o viu, dias ou
semanas depois da batalha de Caseros. Pedro Salvadores
talvez não diferisse das pessoas comuns, mas seu destino
e os anos o tornaram único. Devia ser um senhor como
tantos outros de sua época. Devia ter (cabe-nos supor)
uma propriedade rural e era unitário. O sobrenome
de sua mulher era Planes; os dois moravam na rua
Suipacha, não longe da esquina do Temple. A casa em
que os fatos ocorreram devia ser igual às outras: a porta
da rua, o vestíbulo, a porta gradeada, os aposentos,
a profundidade dos pátios. Certa noite, em 1842, ouviram
o crescente e surdo rumor dos cascos dos cavalos na 
rua de terra e os gritos de vivam e morram dos ginetes.
O bando da Mazorca, desta vez, não passou ao largo.
À balbúrdia sucederam-se os repetidos golpes,
e, enquanto os homens derrubavam a porta, Salvadores
conseguiu empurrar a mesa da sala de jantar, levantar 
o tapete e se esconder no porão. A mulher repôs a mesa
no lugar. A Mazorca irrompeu; vinham para levar
Salvadores. A mulher declarou que ele tinha fugido para
Montevidéu. Não acreditaram; açoitaram-na, quebraram
toda a louça azul-celeste, revistaram a casa, mas não lhes
ocorreu levantar o tapete. À meia-noite foram embora,
não sem antes jurar que voltariam.
   Aqui começa, de fato, a história de Pedro Salvadores.
Viveu nove anos no porão. Por mais que ponderemos
que os anos são feitos de dias e os dias de horas e que
nove anos é um termo abstrato e uma soma impossível,
essa história é atroz. Desconfio que na sombra que seus 
olhos aprenderam a decifrar ele não pensava em nada,
nem mesmo em seu ódio ou no risco que corria. Estava
lá, no porão. Alguns ecos daquele mundo agora proibido
lhe viriam de cima: os costumeiros passos da mulher, 
o baque do bocal do poço e do balde, a chuva pesada no
pátio. Além disso, cada dia podia ser o último.
   A mulher foi despedindo a criadagem, que seria
capaz de delatá-los. Disse a todos os seus que Salvadores
estava na Banda Oriental. Ganhou o pão dos dois 
costurando para o exército. No decurso dos anos teve
dois filhos; a família a repudiou, atribuindo-os a um 
amante. Depois da queda do tirano, iriam, de joelhos,
pedir-lhe perdão.
   O que foi, quem foi Pedro Salvadores? Encarceraram-no
o terror, o amor, a invisível presença de Buenos Aires e, 
por fim, o hábito? Para que não deixasse só, a mulher lhe
daria incertas notícias de conspirações e de vitórias.
Talvez fosse um covarde e a mulher, lealmente, tenha
ocultado que sabia disso. Imagino-o em seu porão, talvez
sem um candeeiro, sem um livro. A sombra o sumiria no 
sonho. No começo ele sonharia com a noite medonha em
que o aço procurava a garganta, com as ruas abertas, com
o pampa. No decorrer dos anos, não poderia mais fugir e 
sonharia com o porão. No começo seria um perseguido,
um ameaçado; depois, não saberemos nunca, um animal 
tranquilo em sua toca ou uma espécie de obscura 
divindade.
   Tudo isso até aquele dia do verão de 1852 em que 
Rosas fugiu. Foi então que o homem secreto saiu à luz
do dia; meu avô falou com ele. Flácido e obeso, estava 
da cor da cera e não falava em voz alta. Nunca lhe 
devolveram os campos que lhe foram confiscados; creio 
que morreu na miséria.
   Como todas as coisas, o destino de Pedro Salvadores 
parece-nos um símbolo de algo que estamos prestes a 
compreender.
  
______________


His end and his beginning


Cumprida a agonia, já sozinho, já sozinho e dilacerado
e rejeitado, mergulhou no sono. Quando acordou,
aguardavam-no os hábitos cotidianos e os lugares; disse
consigo que não devia pensar demais na noite anterior
e, animado por essa vontade, vestiu-se sem pressa. No
escritório, cumpriu passavelmente seus deveres, ainda
que com a incômoda impressão que o cansaço nos 
confere de repetir algo já feito. Pensou perceber que
os outros desviavam o olhar; talvez já soubessem que 
estava morto. Nessa noite começaram os pesadelos;
não lhe deixavam a menor lembrança, só o temor
de que voltassem. Com o tempo o temor prevaleceu;
interpunha-se entre ele e a página que devia escrever
ou o livro que tentava ler. As letras formigavam e 
pululavam; os rostos, os rostos familiares, iam se
apagando; as coisas e os homens foram-no deixando.
Sua mente se aferrou e essas formas cambiantes, como
num frenesi de tenacidade.
   Por mais estranho que pareça, nunca suspeitou da
verdade; esta o iluminou subitamente. Compreendeu
que não podia se lembrar das formas, dos sons e das
cores dos sonhos; não havia formas, cores nem sons,
e não eram sonhos. Eram sua realidade, uma realidade
além do silêncio e da visão e, por conseguinte, da 
memória. Isso o consternou mais do que o fato de que
a partir da hora de sua morte estivera lutando num
redemoinho de imagens insensatas. As vozes que ouvira 
eram ecos; os rostos, máscaras; os dedos de sua mão
eram sombras, vagas e insubstanciais, sem dúvida, mas
também amadas e conhecidas.
   De algum modo sentiu que era seu dever deixar
essas coisas para trás; agora pertencia a este novo 
mundo, livre de passado, de presente e de futuro.
Pouco a pouco este mundo o circundou. Sofreu muitas
agonias, atravessou regiões de desespero e solidão. Essas 
peregrinações eram atrozes porque superavam todas as 
suas anteriores percepções, memórias e esperanças. Todo 
o horror jazia em sua novidade e esplendor. Merecera a
Graça, desde sua morte sempre estivera no céu.


BORGES, Jorge Luis. Poesia/ Jorge Luis Borges. Trad. Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pp. 38-40; 46-48; 73-74.

sábado, 7 de abril de 2012

"Suponhamos que ouvíamos Aquele que amamos nas criaturas"...

"Que amo eu, quando Vos amo? Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão amiga destes meus olhos, nem as doces melodias das canções de todo o gênero, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne. Nada disto amo, quando amo o meu Deus. E, contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo o meu Deus, luz, voz, perfume e abraço do homem interior, onde brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contato que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo o meu Deus". (p.264)
                                                                                                *

                                                                           O ÊXTASE DE ÓSTIA

    Próximo já do dia em que ela ia sair desta vida - dia que Vós conhecíeis e nós ignorávamos - sucedeu, segundo creio, por disposição de vossos secretos desígnios, que nos encontrássemos sozinhos, ela e eu, apoiados a uma janela cuja vista dava para o jardim interior da casa onde morávamos. Era em Óstia, na foz do Tibre, onde, apartados da multidão, após o cansaço de uma longa viagem, retemperávamos as forças para embarcarmos.
   Falávamos a sós, muito docemente, "esquecendo o passado e ocupando-nos do futuro". Na presença da Verdade, que sois Vós, alvitrávamos qual seria a vida eterna dos santos, "que nunca os olhos viram, nunca o ouvido ouviu, nem o coração do homem imaginou". Sim, os lábios do nosso coração abriam-se ansiosos para a corrente celeste "da Vossa fonte, a fonte da Vida", que está em Vós, para que, aspergidos segundo a nossa capacidade, pudéssemos de algum modo pensar num assunto tão transcendente.
  Encaminhamos a conversa até à conclusão de que as delícias dos sentidos do corpo, por maiores que sejam, e por mais brilhante que seja o resplendor sensível que as cerca, não são dignas de comparar-se à felicidade daquela vida, nem merecem que delas se faça menção.
  Elevando-nos em afetos mais ardentes por essa felicidade, divagamos gradualmente por todas as coisas corporais até o próprio céu, de onde o Sol, a Lua e as estrelas iluminam a terra. Subíamos ainda mais em espírito, meditando, falando e admirando as vossas obras. Chegamos às nossas almas e passamos por elas para atingir essa região de inesgotável abundância, onde apascentais eternamente Israel com o pastio da verdade. Ali a vida é a própria Sabedoria, por quem tudo foi criado, tudo o que existiu e o que há de existir, sem que ela própria se crie a si mesma, pois existe como sempre foi e como sempre será. Antes, não há nela ter sido, nem haver de ser, pois simplesmente é, por ser eterna. Ter sido e haver de ser não são próprios do Ser eterno.
   Enquanto assim falávamos, anelantes pela Sabedoria, atingi-mo-la momentaneamente num ímpeto completo do nosso coração. Suspiramos e deixamos lá agarradas "as primícias do nosso espírito". Voltamos ao vão ruído dos nossos lábios, onde a palavra começa e acaba. Como poderá esta, meu Deus, comparar-se ao vosso Verbo, que subsiste por si mesmo, nunca envelhecendo e tudo renovando?
   Dizíamos pois: Suponhamos uma alma onde jazem em silêncio a rebelião da carne, as vãs imaginações da terra, da água, do ar e do céu. Suponhamos que ela guarda silêncio consigo mesma, que passa para além de si, nem sequer pensando em si; uma alma na qual se calem igualmente os sonhos e as revelações imaginárias, toda a palavra humana, todo o sinal, enfim, tudo o que sucede passageiramente.
   Imaginemos que nessa mesma alma existe o silêncio completo porque, se ainda pode ouvir, todos os seres lhe dizem: "Não nos fizemos a nós mesmos, fez-nos O que permanece eternamente". Se ditas estas palavras os seres emudecerem, porque já escutaram quem os fez, suponhamos então que Deus sozinho fala, não por essas criaturas, mas diretamente, de modo a ouvirmos a sua palavra, não pronunciada por uma língua corpórea, nem por metáforas enigmáticas, mas já por Ele mesmo.
   Suponhamos que ouvíamos Aquele que amamos nas criaturas, mas sem o intermédio delas, assim como nós acabamos de experimentar, atingindo, num relance de pensamento, a Eterna Sabedoria, que permanece imutável sobre todos os seres. Se esta contemplação se continuasse e se todas as outras visões de ordem muito inferior cessassem, se unicamente esta arrebatasse a alma e a absorvesse, de tal modo que a vida eterna fosse semelhante a este vislumbre intuitivo, pelo qual suspiramos: não seria isto a realização do "entra no gozo do teu Senhor"? E quando sucederá isto? Será quando todos "ressuscitarmos"? Mas então não "seremos todos transformados"?
  Ainda que isto disséssemos, não pelo mesmo modo e por estas palavras, contudo bem sabeis, Senhor, quanto o mundo e os seus prazeres nos pareciam vis, naquele dia, quando assim conversávamos. Minha mãe então me disse: Meu filho, quanto a mim, já nenhuma coisa me dá gosto, nesta vida. Não sei o que faço ainda aqui, nem por que ainda cá esteja, esvanecidas já as esperanças deste mundo. Por um só motivo desejava prolongar um pouco mais a vida: para ver-te católico antes de morrer. Deus concedeu-me esta graça superabundantemente, pois vejo que já desprezas a felicidade terrena para servires ao Senhor. Que faço eu, pois, aqui? (p. 246). 

AGOSTINHO. Confissões. Trad. J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Nova Cultural, 1999. 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Herbie Mann, João Gilberto e Tom Jobim



 
      Tem discos que por inteiro satisfazem. Quem não conhece o da capa acima, Herbie Mann e João Gilberto com Antônio Carlos Jobim (Atlantic, 1965), recomendo. Um dos motivos, por se incluir nesses discos completos.
    Outro: Bossa Nova combina com muitas coisas; pessoalmente, acho que combina com amigos, com tarde de dias livres e, juntando as coisas, com amigos reunidos sábado em casa para um almoço. 
     Se a bossa é (ou não) trilha sonora desses momentos para você, ouça o CD; achar-se-á delícia da mesma forma.
   Só para se ter o gostinho do álbum, fiquem com duas canções: "Deve ser Amor" e "Consolação", sequencialmente.





Em tempo: quem não conhece o trabalho de Herbie Mann, não deixe de conferir. Um pouco dele pode ser acessado por aqui.
     

Fictício porto

Pescadores e o mar, William Turner, 1796.


I many times thought Peace had come                            Pensei que a Paz já tinha vindo
When Peace was far away -                                               E longe a Paz estava -
As Wrecked Men - deem they sight the Land -                Náufrago - que julgou ver Terra -
At Centre of the Sea -                                                           Lá no Meio do Mar -


And struggle slacker - but to prove                                    E a refrear o esforço - nota
As hopelessly as I -                                                                Como eu - desesperada - 
How many the fictitious Shores -                                       Quanta fictícia Praia ainda
Before the Harbor be -                                                          Até no Porto estar -


______________


Mas, quando a Aurora, de tranças bem feitas, mais um fez que viesse,
eis que de súbito o vento se aplaca e tranquila se estende
a calmaria. Com vista aguçada distingue o guerreiro,
do alto de uma onda maior, que bem perto já a terra se achava.
Bem como filhos que à vista do pai muito alegres se mostram,
que por doença jazera a sofrer muitas dores atrozes,
por longo tempo abatido, que nume funesto persegue,
alegremente se vê pelos deuses liberto das dores:
dessa maneira Odisseu se alegrou, quando viu terra e matas,
pondo-se ansioso a nadar, porque a terra com os pés alcançasse.
Mas, ao chegar a distância de grito, somente, da praia, 
bem claro ouviu o barulho do mar ao quebrar-se nas pedras;
ondas enormes troavam de encontro à aridez do terreno,
com fragor grande, espalhando-se em tudo alva espuma salgada,
Portos enseadas e abrigos em parte nenhuma se viam,
mas promontórios talhados na pedra, alcantis e rochedos.
O coração de Odisseu se abalou, fraquejaram-lhe os joelhos.
Vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala:
"Pobre de mim! Já que Zeus me concede ver terra tão perto,
sem que o pensasse, e consigo vencer a voragem do abismo,
não vejo meio nenhum de livrar-me do mar pardacento.
Tudo é cercado de pedras a prumo, e em redor vêm quebrar-se
ondas ruidosas, que molham as rochas erguidas e nuas.
A água é profunda demais, sem que ponto ofereça onde eu possa
firmar os pés para, alfim, conseguir escapar dos perigos.
Muito receio que uma onda me apanhe ao tentar sair da água
e contra as pedras me atire. Será todo o esforço baldado.
Mas, se, nadando, costear ainda um pouco, até ver se é possível
porto abrigado encontrar, ou lugar de viável aclive,
temo que mais uma vez a voragem das ondas me trague,
e para o oceano piscoso me arraste por entre gemidos,
ou que demônio potente do mar contra mim um dos monstros
faça atirar-se, dos muitos que a ilustre Anfitrite alimenta.
Sei quando se acha zangado comigo o que a terra sacode".
_____________


Respectivamente: 


- DICKINSON, Emily. Alguns Poemas de Emily Dickinson. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p. 59.
- HOMERO. Odisseia. Trad. Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Melhoramentos, s/d, pp. 89-90 (Canto V, versos 390 a 424).

"Guardada Flor"

   Há poemas e trechos em prosa que poria sequenciados, ainda que no original não estão necessariamente um seguido do outro, ou se referenciando. 
    A razão da atitude talvez seja do sentido que busco, acho ou atribuo ao que está sendo lido; portanto, a correspondência que encontro quase nunca é da mais óbvia intertextualidade. Pessoal, ou egoísta, o jogo, válido, ou não, não dispensa significados outros para o escrito, o sugerido, o profetizado.
    Lendo Alguns poemas de Emily Dickinson (trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008) procedi dessa forma com "Florir - é um Fim - casualmente", que está na página 73, e " Ó meu de breve odor", na página 53. 
     Disponho-os: 

Bloom - is Result - to meet a Flower                        Florir - é um Fim - casualmente
And casually glance                                                     Vendo uma Flor no campo
Would scarcely cause one to suspect                       Talvez sequer alguém perceba
The minor Circumstance                                            A sutil Circunstância

Assisting in the Bright Affair                                      Que há na Lúcida Tarefa
So intricately done                                                       A tal custo cumprida
Then offered as a Butterfly                                        Para se abrir qual Borboleta 
To the Meridian -                                                         Ao Sol do meio-dia -

To pack the Bud - oppose the Worm -                     Encher Botão - evitar Bicho - 
Obtain its right of Dew -                                             O Orvalho obter bem cedo - 
Adjust the Heat - elude the Wind -                            Expor-se à Luz - fugir ao Vento -
Escape the prowling Bee                                             Precaver-se da Abelha 

Great Nature not to disappoint                                 E não frustrar a Natureza
Awaiting Her that Day -                                             Que nesse Dia a aguarda -
To be a Flower, is profound                                       Ser uma Flor é uma profunda 
Responsibility -                                                             Responsabilidade -

________________

Oh honey of an hour,                                                   Ó mel de breve odor,
I never knew thy power,                                            Não provei teu vigor
Prohibit me                                                                    Rejeita-me
Till my minutest dower,                                              Até que meu penhor,
My unfrequented flower                                             Minha guardada flor,
Deserving be.                                                                 Mereça-te.