segunda-feira, 25 de julho de 2011

Antonio Candido

No meio acadêmico, hoje, Antonio Candido é o crítico literário brasileiro mais respeitado. Por ocasião de sua presença na Festa Literária Internacional de Paraty deste ano, muitos veículos midiáticos aproveitaram para entrevistá-lo. O jornal Brasil de Fato foi um deles. Nesta entrevista, que pode ser lida integralmente aqui, ele explica a sua concepção de socialismo e fala sobre literatura. 

Acredito que Antonio Candido vive um momento privilegiado para um intelectual. Depois de ter participado ativamente (como crítico, ensaísta, professor, entre outras funções) de vários acontecimentos decisivos para a história do Brasil e do mundo no século XX, atualmente está à disposição para avaliar e reler as conjunturas de tal época, bem como apontar questões para o atual século XXI. Já que suas reflexões sempre são, no mínimo, sensatas e autônomas, portanto, oferecem uma contribuição ímpar para o pensamento da história cultural, social, política e literária do Brasil, disponibilizo boa parte da entrevista dele para o Brasil de Fato, e uma outra, coletiva, divulgada por um canal paulistano (vídeo logo abaixo).
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Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?
Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.


O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?
Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.


O que é mais importante ler na literatura brasileira?
Machado de Assis. Ele é um escritor completo.


É o que senhor mais gosta?
Não, mas acho que é o que mais se aproveita.


E de qual o senhor mais gosta?
Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos... Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.


Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?
É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.


E o que o senhor lê hoje em dia?
Eu releio. História, um pouco de política... mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.


O senhor é socialista?
Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo... tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias... tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.


Por quê?
Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.


O socialismo como luta dos trabalhadores?
O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.


Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?
Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola... não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser... o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.


O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?
O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para os que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja:hoje o capitalismo está embebido de socialismo.No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando... não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão - e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos... então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).
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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Dércio Marques


Dércio Marques é um compositor, violeiro e cantador natural de Uberaba, Minas Gerais. Defensor entusiasta da natureza, da cultura popular brasileira e do cerrado, pesquisa e produz discos com esses temas. Em 1986, por exemplo, gravou, ainda em LP,  Segredos Vegetais, com belíssimos arranjos sonoros feitos com o canto dos passarinhos, o barulho das águas e outros sons da natureza. Já em 2000, compôs um CD todo dedicado às folias brasileiras - inclusive com uma de Patos de Minas.

Além do grande gosto pela natureza, Dércio também é apaixonado pelas crianças. Produziu Anjos da Terra (1990 LP/1993 CD), um disco inteiramente com cadência infantil, pois conta com a participação das vozes doces das crianças, e também com a orquestração de arranjos suaves, cheios de pureza. O CD traz ainda, oportunamente, versões musicadas de alguns poemas infantis de Cecília Meireles, ora interpretadas por ele, ora por vozes femininas doces. Considero Anjos da Terra o seu álbum mais belo e queria muito ter disponibilizado uma canção dele no Brumas, mas infelizmente não foi possível. Além de eu não estar com a discografia do Dércio agora (está em Patos), através da internet tive acesso apenas a uma versão ruim deste CD, na qual todas as canções são cortadas com 1 min. de duração. [Até aproveito para pedir para vocês a versão digital do disco, caso alguém a tenha ou a encontre]. Com as crianças ainda, Dércio e sua irmã Dorothy, que também é cantora e tem os meus gostos dele, gravaram o disco Monjolear (1996). O trabalho foi feito em uma creche de Uberlândia e traz belas canções de roda.

Quis falar do Dércio, pois hoje cantarolei a música "Os carneirinhos" (uma das versões para os poemas de Cecília Meireles) o dia todo, e ela me trouxe boas lembranças da minha infância que, inclusive, tive o enorme prazer de passar um pouco com o cantador. Além de ser excelente e talentosíssimo músico, ele tem um trato raríssimo com as crianças, capaz de tornar tudo no mundo delas mágico e gostoso. Lembro-me certa vez de ele nos colocar (eu, meu irmão e minhas primas-suas filhas) em cima de um fusca velho, nas barras de ferro que alguns tinham para prender as malas, e sair com a gente no meio dos bosques de Itajubá e Pocinhos. Era uma diversão! E me lembro também dele lendo histórias e passando filmes bacanas para nós, que hoje vejo que não esqueci: lembro dele contando a história da mulher lobo e de ter passado a primeira versão do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate

Deixo abaixo, para relembrarem ou conhecerem, a música que dá nome ao CD Segredos Vegetais, uma outra do CD Fulejo que conta com a participação de Daniela Lasalvia, e, por fim, uma entrevista com a pessoa bonita de Dércio Marques, concedida a um canal da Bahia, há algum tempo. Também deixo o meu abraço afetuoso e terno a ele, personagem inesquecível da minha infância.








quarta-feira, 20 de julho de 2011

O encontro marcado


Desenho de Carlos Scliar para a capa do romance O menino no espelho de Fernando Sabino

O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mão vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome. (De uma carta de Hélio Pellegrino).                     
                                                                             
       [ Prefácio do romance O encontro marcado]

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A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!

[Carta a Fernando Sabino, revista pelo autor (Hélio) ao fazer 60 anos]

O túnel


"O túnel" é uma das cinco novelas que compõem o livro A Vida Real (1952) de Fernando Sabino. Nela, há uma linguagem diferente daquela pela qual o autor é mais lembrado. Isto é, Sabino abandona a sua característica percepção do menino e ingênuo sobre o mundo, encontrada em romances como O grande mentecapto e O menino no espelho, por exemplo. Ele entrega voz a um narrador que já carrega o peso dos dramas experimentados unicamente na fase adulta, como é o caso dos advindos de conflitos conjugais, assunto da novela em questão.

A novela inicia-se com alguém gritando e avisando que uma mulher entrará num túnel para se suicidar. Em seguida, uma multidão entra no lugar para impedi-la, mas não consegue achá-la. Neuza, a esposa do narrador, é quem primeiro a vê, inteiramente presa aos cacos de uma vitrina. Teria a mulher tentado suicídio, estranhamente, atirando-se nas vitrinas que ladeavam o túnel? Ou, posicionando-se na frente de um carro, teria sido lançada aos vidros? A dúvida fica irresolvida e a urgência de salvar a moça faz com que se concentrem apenas em retirá-la daquele lugar. Neuza logo se responsabiliza por cuidar da acidentada. Com a ajuda do marido, leva-a ao hospital. Depois, sabendo que a moça morava sozinha num apartamento e que não tinha família, julga ideal levá-la para sua casa e do marido para se recuperar sob os cuidados de alguém. A moça, depois de um pouco melhor, conversa somente em inglês, apresenta-se como uma irlandesa chamada Magda e acaba tornando-se muito amiga de Neuza. Passa quinze dias na casa do casal. 

O narrador, que, no momento de salvar a acidentada, teve bastante iniciativa e concordou com a esposa em levá-la para sua casa, passa a se incomodar com a solicitude e desenvoltura da esposa para cuidar da moça. E, depois de ver que ela já se recuperara e já se hospedava na sua casa sem propósito, começa a se incomodar com a sua presença. Então, cada vez mais, age com grosseria com Magda e tem vontade que ela vá embora. Até porque, como advertia o pai, abrigar aquela mulher desconhecida poderia virar caso de polícia, dada a circunstância em que foi encontrada. Mas, ao contrário da sua esposa, que tinha desenvoltura e independência para lidar com o caso, o narrador tem atitudes que provam ser ele incapaz de resolver a situação e por fim ao seu incômodo. Por isso, ainda acaba sendo vencido muitas vezes pelo aborrecimento, até atingir o limite da paciência e conseguir pedir que a moça fosse embora. De imediato ela não vai, e acaba é por travar laços mais fortes com a família, inclusive ganhando a entusiasmada simpatia dos seus filhos. Esta novidade faz com que ele se reconheça muito grosso, e, por consequência, passa a se sentir mais culpado pelo destrato com a moça. Decide, então, numa noite, procurá-la para pedir desculpa pelas grosserias que vinha cometendo. Ao conversarem, ele se justifica com um "espero que você me entenda" e tudo acaba com ele sendo beijado pela moça. 

A partir de então, o motivo real do incômodo com Magda, para o leitor, passa a ser mais nítido e se confirma: o narrador queria que ele e a irlandesa se distanciassem porque havia se apaixonado por ela, em casa, entre a presença da mulher e dos filhos. No dia seguinte à conversa dos dois, a irlandesa vai embora. Daí em diante, o narrador é mais martirizado pelo seu sentimento, chegando ao ponto de deixar esquecido o trabalho e querer sair da cidade para apenas ficar no seu refúgio: uma montanha (localizada acima do túnel), onde vivia, em sonhos, a realização do relacionamento com Magda. 

Passados alguns dias, ele volta a ver a irlandesa. Ele a encontra em sua casa, conversando com a esposa. Não conseguindo conversar com Magda, tranca-se em um dos cômodos da casa e adormece, sendo despertado com  o pedido da esposa para que ele levasse a moça embora. Inicialmente negando com agressividade o pedido, termina por levá-la, só que ao invés de conduzi-la até o apartamento, a leva para a montanha, onde tinha seus sonhos, outrora irrealizáveis. 

Por fim, os amantes deixam a montanha para finalmente buscarem o caminho do apartamento da irlandesa. O caminho para se chegar até ele deveria passar inevitavelmente pelo túnel. Quando os dois estão se aproximando dele, a moça tem um breve momento de desespero e começa a chorar, mas se recompõe e serena de imediato. Decide sair do carro e entrar no túnel sozinha. Ao entrar, um homem grita que uma mulher iria se suicidar. Nesse momento, a história parece voltar a seu início, mas o narrador, desta vez, quando sai do carro e entra no túnel, não acompanha a multidão que se detém para ajudar a moça, passa adiante, e encontra o outro lado do túnel.

A narrativa delineia os conflitos e as opressões pelos quais passa um membro do casal quando se apaixona por outra pessoa, mas por causa das regras sociais de moral, se vê obrigado a dissimular e reprimir o sentimento. O resultado: apaixonar transforma-se num jogo de maltrato, porque o sujeito se fere e prende na tentativa, por vezes inconsciente, de se enganar e também tentar convencer o outro do contrário de tudo que realmente passa. Um exemplo dessa situação é o que acontece quando o narrador começa a se incomodar com a desenvoltura da mulher ao lidar com o caso do acidente. Ele acredita, por um momento, que sua esposa adquire uma atitude nova, mais independente (para ele incômoda) diante daquela circunstância, mas depois descobre que ele mesmo é quem tinha tornado aquela característica uma justificativa para não assumir o risco da paixão pela irlandesa. 

Portanto, só gradualmente (e nem por isso sem sofrimento) o narrador consegue reconhecer e assumir para ele mesmo que está apaixonado. É quando por exemplo, descreve, com certo amor, a cena da irlandesa brincando com seus filhos, ou, mais tarde, quando se incomoda com a ausência da moça, ou ainda, quando tem medo, nas conversas com o pai, que ele descubra suas reais apreensões. Essas, por sua vez, fazem com que ele fique embaraçado em emoções contraditórias: ora tratando com grosseria a moça, ora se incomodando com a sua distância. Ele acaba movendo-se numa atmosfera escura e irrespirável, como a de um túnel. A razão para isso: a obrigação de reprimir o sentimento por causa das convenções sociais. Assim, figuras como a do pai e a da mulher passam a ser a representação dessas coibições morais, nas palavras do narrador, "o vórtice de desespero onde eu e Magda nos encontrávamos, como num poço. Como num túnel."  

A aproximação e o posicionamento do túnel em relação à montanha são sugestivos. O túnel se localiza na cidade e a montanha fora dela. A cidade é o espaço das regras sociais, das coerções morais. A montanha já não traz uma atmosfera regrada, é um espaço inclusive de maior facilidade de ação. No enredo, curioso é o fato de ela se localizar acima do túnel, como a tentar vencê-lo. E mesmo só quando o narrador assume e se submete a seu sentimento é que ele é capaz de transpor o túnel.

A novela é surpreendente na forma de descrever as dissimulações da pessoa que é obrigada a inibir um sentimento por causa das regras de conduta burguesa para o relacionamento de casais. Para mim, pode ser seguramente colocada ao lado dos textos pontos-altos da carreira do escritor Fernando Sabino.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Fragmentos (5)

Só que há o problema, o que não há é a solução. Logo, está solucionado. 
- E qual é o problema?
- O problema é o terror.
[...]
-Me lembrei de uma coisa inventada por Salvador Dali - A Coisa era um pão. Sairia no jornal com manchete assim: "O Inevitável Aconteceu - A Descoberta do Pão". Um pão monumental, exatamente igual a um pão-francês comum. A diferença estaria no tamanho: mediria dois metros de comprimento. O pão era encontrado na rua, levariam para a polícia. Estará envenenado? Conterá explosivo? Propaganda política? Os comunistas, o pão-para-todos? Anúncio de padaria? Os jornais comentavam e discutiam o que fazer do pão. Era só o assunto ir esfriando, e um pão maior ainda, de cinco metros, amanhecia atravessando no Viaduto. Toda a cidade empolgada com o mistério, a polícia desorientada, o pão analisado nos laboratórios. E continuava o problema: que fazer com ele? Para despistar, um de nós escrevia um artigo sugerindo que fosse cortado em milhares de pedaços e doado à Casa do Pequeno Jornaleiro. No Rio, em São Paulo, Recife, Porto Alegre começavam a aparecer pães, cada vez maiores, nos lugares públicos. Eram os membros de uma sociedade secreta já fundada, a Sociedade do Pão, que começavam a trabalhar. E um dia surgiria outro pão gigantesco em Roma, outro em Londres, outro em Nova Iorque. A humanidade deixaria de se preocupar com seus problemas, as guerras seriam esquecidas, até que resolvessem o mistério do pão. Era a vitória pelo Terror.


SABINO, Fernando. O Encontro Marcado. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1956, pp.64-65.