segunda-feira, 27 de junho de 2011

Fragmentos (4)

Em Utopia, porém, cada um é um perfeito conhecedor do Direito, pela simples razão de que, como já afirmei, são muito poucas as leis, e suas interpretações mais evidentes são sempre admitidas como as mais justas e verdadeiras. Dizem os utopianos que a única finalidade de uma lei é lembrar às pessoas quais são os seus deveres; portanto, quanto mais complicada ela for, tanto menor será a sua eficácia, já que muito poucos serão capazes de compreendê-la. Por outro lado, uma lei cujo significado seja simples e óbvio explica-se naturalmente àqueles que vão em busca do seu entendimento. Do ponto de vista das pessoas simples, que formam o grupo mais numeroso de uma comunidade e que mais precisam de normas, que diferença faz se não existe nenhuma lei, ou se existem leis cujo entendimento e interpretação dependem de longos debates e confabulações? Afinal, a pessoa comum de mente obtusa está muito ocupada em ganhar o seu sustento e não dispõe nem do tempo nem da capacidade mental para captar essas profundezas, mesmo que estudasse a vida inteira.

MORE, Thomas. Utopia. Trad. Jefferson Luiz Camargo e Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2009,  pp.156-157. (Clássicos Cambridge de Filosofia Política).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Morro dos Ventos Uivantes

Laurence Olivier e Merle Oberon  (imagem da filmagem de Wuthering Heights, 1939).



Ryuichi Sakamoto compôs a trilha sonora da filmagem de 1992. Neste filme, a atuação principal é de Ralph Fiennes e Juliette Binoche. 

domingo, 19 de junho de 2011

Quimeras

Cada um com a sua Quimera 

   Sob um grande céu de cinza, numa grande planície poeirenta, sem caminhos, sem relva, sem um cardo, sem uma urtiga, encontrei vários homens que marchavam curvados.
   Trazia cada um deles às costas uma enorme Quimera, tão pesada como um saco de farinha ou de carvão, ou como o equipamento de um infante romano.
   Porém o monstruoso animal não era um peso inerte; ao contrário, envolvia o homem, e oprimia-o, com seus músculos elásticos e possantes; aferrava-se-lhe ao peito com as suas duas garras imensas; e sua cabeça fabulosa sobrelevava a cabeça do homem, tal um desses horríveis capacetes com que os antigos guerreiros procuravam agravar o terror do inimigo.
   Interroguei um daqueles viajantes, perguntei-lhe aonde eles iam assim. Respondeu-me que não sabia de nada, nem ele, nem os outros; mas que, evidentemente, iam a alguma parte, pois eram impelidos por uma necessidade invencível de caminhar.
   Curioso: nenhum deles se mostrava irritado contra o animal feroz que trazia pendente do pescoço e agarrado às costas; dir-se-ia considerá-lo parte integrante de si mesmo. Nenhuma daquelas fisionomias extenuadas e graves denotava o mínimo desespero; sob a tediosa cúpula do céu, os pés mergulhados na poeira de um solo tão desolado como o céu, eles marchavam com a aparência resignada dos que são condenados a esperar eternamente.
   E o cortejo passou a meu lado e afundou-se nos longes do horizonte, no ponto em que a redonda superfície do planeta se furta à curiosidade do olhar humano.
   E durante alguns momentos obstinei-me em querer compreender esse mistério; mas logo a irresistível Indiferença caiu sobre mim, e eu fiquei mais rudemente oprimido do que o estavam aqueles homens pelas suas esmagadoras Quimeras. 

BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa. Trad. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p.27.  

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Perspicácia

Perspicácia, René Magritte, 1936.


Algo que me interessa nas pinturas do René Magritte é a inversão da lógica própria dos eventos e também, por consequência, o lidar com fatos inesperados. Magritte opta pela a não representação do evidente e esperado, colocando na tela o que vem além de uma cena ou o que lhe está e/ou é oculto. 
Certa vez, comentando o seu famoso quadro "Carta Branca (1965)", aquele da amazona que passa a cavalo entre as árvores, provocando um efeito visível-invisível, ele disse: "Coisas visíveis podem ser invisíveis. Se alguém cavalga por um bosque, a princípio o vemos, depois não, contudo, sabemos que está lá. A amazona oculta as árvores e estas ocultam-na também. Todavia, os nossos poderes de pensamento abrangem tanto o visível quanto o invisível. Eu faço uso da pintura para tornar os pensamentos visíveis."

O quadro acima joga com essas noções de visível-invisível e inesperado. Um pintor está olhando um ovo, mas, ao contrário de fielmente representá-lo - como poderia ser esperado -, pinta um pássaro. A cena, numa demonstração metalinguística, mostra o ofício do artista. Este é quem toma o real (visível) apenas como motivo para criação da obra - resultado que suscitará (ou será) a visão do invisível. Neste caso, o trabalho do artista nem seria com ter o real como objeto de arte, mas como, quase exclusivamente, o seu motivo. Motivo é diferente de objeto. O objeto pressupõe uma retratação fiel, o motivo não, ele é apenas o ponto de partida para outro retrato, diverso. 

Num outro contexto vi esta pintura. Ela está como capa de uma revista acadêmica (MORUS - Utopia e Renascimento, 2009) dedicada à compilação de trabalhos que discutem o tema da utopia. A pintura fez uma grande representação do que a utopia vem a ser. Ela é o mesmo que olhar o real, mas numa perspectiva mais apurada, e enxergar-lhe outro, até  num (suposto) estado avançado que o próprio pássaro sugere, pois que, tudo indica, será o que virá após o ovo. (Parênteses: espaço para humor: isso, é lógico, se não nos enlouquecermos a tentar chegar à solução do que vem primeiro: ovo ou a galinha. E também se eu não dispor a minha opinião de que sempre primeiro existirá o criador antes da criatura). 

Fato é: utopista ou artista - no fundo não tem muita diferença-, tomam o real como Magritte o sugeriu na tela: a ser algo que não é evidente, esperado, visível. No mais, os dois conhecem o autêntico sentido de perspicácia - como é o próprio nome do quadro-, que repousa grandemente em conceber o real como outro, como lugar de convivência do visível-invisível, e, acima de tudo, como possibilidade.n