Em Utopia, porém, cada um é um perfeito conhecedor do Direito, pela simples razão de que, como já afirmei, são muito poucas as leis, e suas interpretações mais evidentes são sempre admitidas como as mais justas e verdadeiras. Dizem os utopianos que a única finalidade de uma lei é lembrar às pessoas quais são os seus deveres; portanto, quanto mais complicada ela for, tanto menor será a sua eficácia, já que muito poucos serão capazes de compreendê-la. Por outro lado, uma lei cujo significado seja simples e óbvio explica-se naturalmente àqueles que vão em busca do seu entendimento. Do ponto de vista das pessoas simples, que formam o grupo mais numeroso de uma comunidade e que mais precisam de normas, que diferença faz se não existe nenhuma lei, ou se existem leis cujo entendimento e interpretação dependem de longos debates e confabulações? Afinal, a pessoa comum de mente obtusa está muito ocupada em ganhar o seu sustento e não dispõe nem do tempo nem da capacidade mental para captar essas profundezas, mesmo que estudasse a vida inteira.
MORE, Thomas. Utopia. Trad. Jefferson Luiz Camargo e Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2009, pp.156-157. (Clássicos Cambridge de Filosofia Política).



